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Liberdade de Imprensa: sem leitores, não há Democracia

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A 3 de maio assinala-se o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa. Mais do que uma efeméride, esta data obriga-nos a uma pergunta incómoda: Que valor atribuímos, na prática, à informação de qualidade? Num tempo em que tudo parece notícia e todos parecem jornalistas, a resposta a esta pergunta tornou-se decisiva para o futuro da Democracia.
A liberdade de imprensa não é uma abstração jurídica nem um privilégio de redação. É uma condição concreta da vida em sociedade. É ela que permite escrutinar o poder, revelar o que se pretende ocultar e dar voz a quem, de outro modo, permaneceria invisível. Quando a imprensa enfraquece, não é apenas o setor que perde: é o cidadão que fica mais exposto à manipulação, à desinformação e ao ruído.

Hoje, esse risco é real, pois nunca tivemos acesso a tanta informação e raramente estivemos tão vulneráveis à sua distorção. As redes sociais aceleram a circulação de conteúdos, mas não garantem a sua veracidade. A lógica do clique sobrepõe-se, muitas vezes, à lógica do rigor. E, no meio deste turbilhão, o jornalismo profissional, aquele que verifica, contextualiza e responde por aquilo que publica, vê-se pressionado, financeiramente fragilizado e, não raras vezes, desvalorizado (Kovach & Rosenstiel, 2014).
Importa dizê-lo sem rodeios: não há imprensa livre sem leitores comprometidos.

A sobrevivência do jornalismo não depende apenas de princípios, depende de escolhas cotidianas.

Ler imprensa é, hoje, um ato cívico. É um gesto silencioso, mas com consequências profundas. Cada leitura informada contribui para um espaço público mais exigente, mais consciente e menos permeável à manipulação. Pelo contrário, cada indiferença abre espaço ao empobrecimento do debate e ao avanço de narrativas simplistas ou falsas.

A imprensa não é infalível, nem deve ser idealizada. Mas distingue-se por algo essencial: responde a critérios de responsabilidade, está sujeita a escrutínio e assume consequências. Num mundo onde a opinião circula sem filtro e a informação se confunde com propaganda, essa diferença é, na verdade, decisiva (McQuail, 2010).

Neste Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, o desafio não é apenas celebrar, mas escolher. Escolher entre a facilidade e o rigor, entre o ruído e a informação, entre a indiferença e o compromisso. A liberdade de Imprensa não se perde de um dia para o outro, desgasta-se, lentamente, sempre que deixa de ser usada, valorizada e defendida.

Porque, em última análise, uma imprensa sem leitores é apenas uma possibilidade. E uma democracia sem Imprensa livre é,
inevitavelmente, uma ilusão.

Ana Vale

 

Referências Bibliográficas
Kovach, B., & Rosenstiel, T. (2014). Os elementos do jornalismo: O que os profissionais do jornalismo devem saber e o que o público deve exigir (2.ª ed. portuguesa). Porto Editora. (Obra original publicada em 2001).

McQuail, D. (2010). Teoria da comunicação de massas (6.ª ed.). Fundação Calouste Gulbenkian. (Obra original publicada em 2003).

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