MARIA DO CÉU MENDONÇA – “Tenho saudades de tudo. Sempre tive uma excelente relação com os colegas e alunos.”

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notícias das Caldas

 

 

• 84 ANOS

• VIÚVA

• DOIS FILHOS E DOIS NETOS

Fui professora de saberes que entretanto passaram de moda: Dactilografia, Estenografia, Caligrafia. Mas que foram úteis e tiveram a sua importância num tempo em que não havia computadores e o trabalho nas empresas era feito com máquinas como esta e onde era preciso saber escrever cartas e preencher impressos, modelos, mapas. Ensinei milhares de alunos e alunas desde que, em 1959, comecei a dar aulas, até que me reformei em 1993.
Grande parte da minha vida profissional foi aqui nesta escola, a Rafael Bordalo Pinheiro. Mas isto está tudo tão mudado! Parece outra escola. Só ficaram as paredes.
Nasci em 5 de Março de 1932 no Bombarral. O meu pai era empregado de uma empresa bem conhecida de muitos caldenses – os Capristanos. Fiz a 4ª classe na escola primária da vila, no edifício onde é hoje a sede da Junta de Freguesia do Bombarral. Mas fiquei por ali e não continuei logo a estudar porque os meus pais mudaram-se para Lisboa em 1943. Os Capristanos tinham uma garagem no Martim Moniz para onde o meu pai foi trabalhar, na parte administrativa. Morávamos perto, na Calçada da Mouraria.
O meu pai ganhava bem, mas nós vivíamos mal em Lisboa. Eram os anos da Guerra e havia senhas de racionamento. Eu tinha 11 anos e lembro-me das filas para o leite. Só davam 2,5 decilitros a cada pessoa e íamos eu, o meu pai e a minha mãe, para as bichas e só de lá saímos quando tínhamos 7,5 decilitros de leite.
Em Lisboa a minha mãe não me deixou estudar. Achava que era perigoso para uma menina ir para a escola. E só quando em 1945, e sempre ao serviço dos Capristanos, a minha família se mudou para as Caldas, é que me matricularam na Escola Industrial e Comercial Rafael Bordalo Pinheiro (no edifício onde é hoje a administração do Centro Hospitalar). Tive professores que dão hoje nomes a ruas, como é o caso do Abílio Moniz Barreto e do Leonel Sottomayor, mas também a Lavínia Barreto e o Manuel José António.
Tive nas Caldas uma segunda infância mais feliz do que em Lisboa, até porque a Guerra tinha acabado e havia mais bens. Vivíamos na Rua Filinto Elísio e nas férias e em alguns fins-de-semana íamos para o Casal das Pegas, nas Gamelas (Bombarral), um local para onde ainda hoje, com 84 anos, eu costumo ir porque gosto muito daquilo.
O namoro com o José de Sousa
Foi quando andava a tirar o Curso Comercial que um dia a leiteira diz à minha mãe: “olhe que a sua filha já namora”. Credo! Não caiu o Carmo e a Trindade, mas quase. A minha mãe quis logo tirar-me da escola, mas eu disse-lhe: “ó mãezinha, se eu estudei até aqui, agora vou estudar o dobro”. E como eu era muito boa aluna e os professores gostavam de mim, lá continuei.
E o namoro? Bom, eu, de facto, era muito novinha. Tinha 14 anos quando o Zé de Sousa me catrapiscou. Ele tinha 16 e escreveu-me uma carta de amor. Eu nem sabia o que era isso e perguntei a uma colega: “e agora o que é que faço?”.
A princípio recusei, mas ele insistiu e haveríamos de casar 11 anos mais tarde. Sim, naquele tempo os namoros eram longos… Até ao dia da boda, foi preciso esperar que o meu futuro marido fizesse a tropa e arranjasse emprego, o que veio a conseguir no Banco Raposo de Magalhães (mais tarde Banco Português do Atlântico).
Foi em 1958 quando eu já estava casada e com um filho bebé que um dia o Dr. Leonel Sottomayor me convida para dar aulas de Caligrafia. Era preciso substituir uma professora e eu tinha sido a aluna com melhor caligrafia. Quase sem dar por isso, acabei por ser professora. Tinha 27 anos.
É claro que depois fiz vários cursos em Lisboa, na Escola Patrício Prazeres. E continuei a leccionar as grafias – Dactilografia, Estenografia e Caligrafia – e também Noções Gerais de Comércio, Práticas Administrativas.
Para que serviam as grafias? A Caligrafia era uma coisa muito valorizada: ter a letra bonita, saber preencher documentos oficiais com aquela letra rebuscada. A Dactilografia porque escrever à máquina era então tão fundamental para trabalhar num escritório como é hoje saber mexer num computador. E a Estenografia é a técnica de saber escrever (por signos) tão depressa quanto se fala. Como não havia gravadores, era importante a escrita estenográfica para jornalistas e para secretárias de empresas a quem os chefes ditavam as cartas oralmente.
Em 1964 foi inaugurado o novo edifício da Escola Secundária Rafael Bordalo Pinheiro e eu vim estreá-lo. Mas em 1971, pela primeira vez, tive que sair das Caldas da Rainha. Fui obrigada a concorrer e fui parar a Vila Real de Trás-os-Montes.
Só lá estive um mês. Eu e o meu marido escrevemos uma carta ao ministro da Educação, ao Veiga Simão, que, diga-se em abono da verdade, era do tempo da ditadura mas foi um bom ministro. E ele respondeu “se ambos os directores estiverem de acordo, não vejo inconveniente”. E nem o de Vila Real nem o das Caldas viram inconveniente. Por isso – ainda me lembro – mal soube da notícia, arrumei a roupa e o calçado num saco, fiz umas sandes para a viagem, meti tudo no carro e lá vim eu por aí abaixo. Seis horas de viagem entre Vila Real e Caldas da Rainha, onde continuei a leccionar.
O 25 de Abril nas escolas
Mas em 1975, em pleno período do PREC (Processo Revolucionário em Curso), fui colocada em Rio Maior, onde fiquei até 1981. Não foi fácil. Na altura, na terra da moca, os ânimos andavam muito acicatados.
Lembro-me muito bem do 25 de Abril e da alegria que foi. O meu Zé [José de Sousa] e eu éramos contra o regime e privávamos aqui nas Caldas com os Maldonados e outras famílias que eram da resistência. Nessa madrugada toca o telefone, eu atendo e oiço um amigo de Lisboa: “é pá! Liga a telefonia que está a haver uma revolução!”.
O impacto do 25 de Abril na escola foi brutal. Mesmo em 1983, quando regressei para as Caldas, ainda havia clivagens, discussões, mau ambiente na sala dos professores. É que havia alguns professores que eram muito situacionistas. Mas depois… com o passar dos anos, com a aprendizagem que todos fizemos da democracia, essas arestas foram limadas.
Do que eu tenho mais saudades da escola? De tudo. Tenho saudades de tudo. Sempre tive uma excelente relação com os colegas e alunos. Nunca marquei uma falta a vermelho, nunca fiz queixa de um aluno. Soube sempre resolver os problemas dentro da aula. Mas também é certo, por aquilo que oiço, que hoje a indisciplina é muito maior, que os professores não são tão respeitados e que a desmotivação na classe é muito grande.
Mas confesso que tenho saudades. Há colegas que não esqueço: o Vaz Fontes, a Helena Correia, a Vitória Figueiredo, a Maria José Boaventura que ainda vou vendo de vez em quando, e outras que já partiram como o Dario Boaventura, a Alice Freitas e a Elvira Bento Monteiro.
Não esperei pelo tempo completo para me reformar. Nos anos 80 apareceram os primeiros computadores cá na escola e eu senti-me um bocado deslocada. Isso pesou na minha decisão de me reformar. Estava na hora de me ir embora, até porque o meu Zé também já estava reformado e insistiu para que eu não continuasse a trabalhar. Ainda bem que o fiz porque ele morreu passado dois anos e assim pudemos passar juntos pelo menos esse tempo da reforma.
Como muitas avós, ajudei a criar os meus netos. Agora leio, faço a lida da casa, vejo televisão (sobretudo as notícias), saio à rua. Ainda conduzo e de vez em quando meto-me no carro e vou ao Casal, ao Bombarral.
Desta escola guardo saudades. Mas isto está tudo tão diferente! Eu já cá tinha vindo para votar. Os corredores ainda estão mais ou menos iguais. Agora as salas de aulas!… Mas é uma escola linda e eu quando vou aos almoços dos antigos professores e alunos, faço questão de dizer que estou como ex-aluna.

 

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1 COMENTÁRIO

  1. Adorei ler aquilo q já conhecia pois tive o previlegio de ter contacto com a professora Maria do Céu ,até ha algum tempo atrás e ela estava sempre a contar as suas estórias, fico com m saudades dela e boas recordações ,q repouse em paz