“Ambicionamos uma marina que possa receber cruzeiros”

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Henrique Bertino tem 65 anos, mas diz que ainda é cedo para dizer se, em 2025, abandona os Paços do Concelho ou se tentará mais um mandato

O reeleito presidente da Câmara de Peniche elenca as prioridades para um segundo mandato, entre as quais a construção de uma marina atlântica, que impulsione a economia local em vários domínios

O acordo pós-eleitoral estabelecido entre o Grupo de Cidadãos Eleitores por Peniche (GCEPP) e o PS garante a estabilidade governativa na Câmara nos próximos quatro anos. Essa é a convicção de Henrique Bertino. O reeleito presidente da Câmara elenca as prioridades para o mandato e diz que ainda é cedo para afirmar se, em 2025, voltará a ser candidato.
Como se perspetiva o segundo mandato à frente de uma Câmara que, em função dos resultados, parecia ingovernável?
Costumo dizer que sou uma pessoa otimista e muito motivada, há muitos anos, pela minha terra. Tive um mandato muito difícil, com uma oposição persistente e que causou muitas dificuldades, não só por aquilo que inviabilizou, mas sobretudo porque bloqueou processos, alguns muito morosos e outros que tiveram mesmo de ser adiados e que vamos agora recuperar. Não sei se a nossa Câmara é caso único, o que sei é que há Câmaras que parecem ter todas as condições para fazer um excelente mandato e, depois, não o aproveitam. Peniche já teve esse mandatos e não o fez. Depois do que aconteceu no primeiro mandato não tinha nada a perder e decidi recandidatar-me. Havia dias em que pensava que teria maioria absoluta, noutros admitia que seria difícil. Mas nunca admiti que podia perder e tinha um plano B.

E que plano B era esse?
Entendi que, pelo que foi sucedendo na pré-campanha e na campanha, era incomportável voltar a fazer o que fiz em 2017, que foi falar com todas as forças políticas. Antes queria ir a eleições do que trabalhar com algumas pessoas. Conheço o Ângelo Marques [candidato do PS] há muito tempo e decidi que, mesmo que tivesse maioria absoluta, iria convidá-lo para trabalhar no executivo. A partir do momento em que o povo decidiu da forma que decidiu, o caminho era só um. Uma das razões que me fez ser candidato é porque estou preocupado com o futuro do meu concelho e não queria ver à frente da Câmara pessoas que, em meu entender, não preenchem os requisitos necessários para o fazer. Face ao resultado das eleições tive de encontrar uma solução que nos permita ir atrás das oportunidades para o nosso concelho. O acordo é com o PS, porque o Ângelo [Marques] é o líder, mas diria antes que o acordo é com o Ângelo, que por acaso é do PS. Considero que esta é uma boa oportunidade para a nossa terra. Há muito por fazer, mas as oportunidades estão aí. E talvez até seja melhorar governar assim, com um acordo escrito e inédito na nossa terra, do que governar com três eleitos ou maioria. Porquê? Porque nos compromete. E não estar à vontade para tomar decisões de ânimo leve faz-nos refletir, faz-nos partilhar e envolve as pessoas.

E quais são as prioridades?
Diria que não podemos abandonar a ideia de construir uns novos Paços do Concelho, um auditório cultural ou de renovar uma parte substancial do nosso parque escolar. Havendo tranquilidade, os fundos europeus vão garantir que possamos requalificar e construir novas escolas e temos de aproveitar esse ensejo. Temos a zona industrial do Vale do Grou como outra das prioridades, bem como a nova marginal Norte, que é um processo exigente e que envolve muitas entidades. Esta é uma oportunidade única para Peniche e também para o Ângelo fazer o caminho dele. Depois, os eleitores decidem o que querem.

Quer isso dizer que apenas fará mais este mandato?
Não posso dizer que não serei candidato daqui a quatro anos. Se sentir que é necessário voltar a candidatar-me, assim o farei. Tenho 65 anos e as questões de saúde serão importantes. O que digo é que, se as coisas estiverem encaminhadas na Câmara, o povo entenderá que é chegado o momento de sair da vida pública.

Mas que concelho espera deixar, quando chegar o momento?
Espero deixar uma Câmara organizada. Quem me suceder, seja daqui a quatro ou oito anos, não perceberá o trabalho que está a ser feito, porque encontrei uma Câmara sem meios e com pessoas desmotivadas. Temos de ser capazes de dar resposta aos munícipes, mas também aos investidores e promotores que nos procuram. Há um projeto que gostaria de deixar encaminhado: a construção de uma marina, que é um projeto que foi apresentado pelo PS. Não quero saber se a marina é do Henrique Bertino, do Ângelo Marques ou dois dois. Quero é a marina para a minha terra!
Peniche tem um dos maiores portos de pesca do país, mas que continua a reclamar investimentos. Como olha para o setor?
Desde há um bom par de anos que é notória uma crise no setor, nomeadamente ao nível dos recursos humanos. As pescas sofreram uma grande transformação e o setor necessita de se ajustar à nova realidade. Tenho reservas sobre a forma como estamos a proteger os nossos recursos marinhos, parece-me que não estamos a fazer o suficiente. Em termos de estrutura portuária temos algumas coisas por fazer. Ambicionamos ter em Peniche uma marina que possa receber embarcações de grande porte, nomeadamente cruzeiros, porque a nossa localização é privilegiada. Além disso, se a empresa dos Estaleiros Navais de Peniche quiser, podemos potenciar o cluster da construção e reparação naval, o que atrairá pessoas de toda a Europa. Isso permitirá dar um enorme impulso à nossa economia.

E o concelho estará preparado para agarrar esses desafios?
Considero que é interessante designarmos Peniche como a capital da onda, mas estou mais preocupado em afirmar a grande marca do concelho, que é Peniche. Temos a capital da onda, temos praias, temos um porto de pesca, mas a grande marca do concelho é Peniche. Temos de reconhecer a grande valia que a ligação pelo IP6 à A8 representou nas últimas duas décadas e isso aproximou-nos muito de Lisboa. Peniche tem uma nova centralidade e, agora, temos de potenciar essa realidade. Olhando para processos que estamos a terminar como a revisão do PDM, os fundos disponibilizados pelo PRR e o 2030, temos uma grande oportunidade de olhar para o nosso concelho e definir o caminho de desenvolvimento que todos ambicionamos. Mas antes de vendermos Peniche, temos de resolver problemas como o abastecimento de água e o saneamento. Está em curso a obra da ETAR no Cabo Carvoeiro, um investimento de 7 milhões de euros que é muito relevante e estruturante. O saneamento é essencial para atrair população e investimento, tal como a limpeza urbana, área em que queremos melhorar substancialmente.

Os independentes reforçaram a presença nas últimas eleições no Oeste, mas não estão representados nas vice-presidências da OesteCIM. Como interpreta o que sucedeu?
Provavelmente, os independentes deveriam ter essa representação, mas confesso que não fizemos questão. Há um acordo estabelecido há muitos anos, de que a presidência deve ficar para a força política com mais Câmaras, neste caso foi o PS, e que PSD e a CDU mantivessem as vice-presidências. Estou convicto de que continuaremos a ter, como até aqui, todo o apoio da Comunidade Intermunicipal. Não me sinto prejudicado por não termos uma vice-presidência, até porque a relação pessoal dos autarcas é muito boa. O que acontece, porém, é que os partidos costumam esquecer-se que há pessoas na política que não querem fazer parte dos partidos, ou seja, que não fazem parte da família. Procuro estar alinhado com a unanimidade, que é uma regra na OesteCIM, embora por vezes haja posições divergentes. E devemos reconhecer que a estrutura da OesteCIM responde bem aos desafios das autarquias. ■

“Habitação e educação são as nossas grandes prioridades”

Arrumar a casa e criar condições para ter projetos prontos para serem candidatados a fundos europeus é a estratégia do autarca até 2025

 

Autarca continua a defender a realização de um referendo para anunciar posição de Peniche relativamente ao hospital

 

Henrique Bertino não tem dúvidas sobre as grandes prioridades deste segundo mandato. O autarca independente pretende implementar a estratégia local de habitação e renovar o parque escolar. Para isso, é preciso “ter a casa arrumada” e “capacidade de tesouraria” para que a Câmara seja capaz “agarrar os projetos e recorrer aos fundos europeus”
“Em janeiro vamos querer fechar o processo de revisão do PDM, o que é fulcral para, depois, avançarmos com a habitação social”, revela o chefe do executivo municipal, que admite serem necessários, a curto prazo, “perto de 300 fogos”. “São as maiores necessidades”, reconhece o autarca, que identifica uma “situação bastante grave”, que passa pela “dificuldade de arrendamento e que atinge particularmente os jovens”.
Quanto ao parque escolar, todos os cenários estão em cima da mesa. “Há escolas que terão de ser recuperadas, mas outros que só faz sentido reconstruir. Depende dos fundos disponíveis. Mas, para termos o financiamento, temos de ter projetos prontos e isso também custa dinheiro”, frisa Henrique Bertino.
O presidente da Câmara de Peniche olha, ainda, para o setor do turismo com manifesto interesse e considera que os concelhos da região devem trabalhar mais em conjunto, sugerindo a criação de um posto de turismo avançado do Oeste na entrada da cidade, com produtos regionais. “Enquanto cá estiver, pelo menos dessa ideia não vou desistir”, afiança o autarca, que olha com interesse para a concessão do parque de campismo, que implique “uma verdaeura reabilitação”, para “ali criar um espaço de referência” e tornar-se em mais uma porta de entrada de Peniche.
No que diz respeito à co-gestão da Berlenga, Henrique Bertino nota que, até agora, “só a Câmara está a investir”, mas acredita que a solução é positiva. “Queremos dinamizar vários projetos de investimento que temos em curso, no saneamento, no abastecimento de água e também na segurança”, explica o antigo sindicalista, que, relativamente à construção do futuro Hospital do Oeste, volta a dizer que pretende fazer um referendo local. “Sei onde gostaria que ficasse o hospital, mas não vou revelar, porque defendo que a população deve ser auscultada”, frisa o autarca, para quem “cabe ao Governo decidir a localização”. “Há duas possibilidades em cima da mesa: nas Caldas e no Bombarral. Se não houve possibilidade de fazer o referendo, então direi o que penso sobre o tema”, assevera. ■