BE discutiu linha do Oeste e convidou ferroviários para explicar o caos no sector

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Na sessão do Bloco de Esquerda das Caldas sobre Mobilidade e Transportes Públicos, os sindicalistas ferroviários Luís Bravo e Jorge Ferreira deixaram críticas aos vários governos pelo estado a que chegou a ferrovia em Portugal. A CP está com uma frota obsoleta, parte da qual encostada nas oficinas à espera de reparação que não se faz por falta de pessoal. Razões que explicam as supressões na linha do Oeste. Nesta conferência foi sugerido que a Linha do Oeste fosse um projecto piloto dos comboios a hidrogénio.

Luís Bravo, presidente do Sindicato Ferroviário da Revisão Comercial Itinerante, disse nas Caldas que actualmente se vive o caos e o desespero total na ferrovia. “O que existe não chega, não satisfaz, vivemos uma situação de ruptura dos serviços”, referiu o sindicalista na sessão sobre mobilidade e transportes públicos promovida pelo BE na sede da União de Freguesias de N. Sra. Pópulo, Coto e São Gregório, na tarde de sábado, 27 de Outubro.
“O abandono da Linha do Oeste e a redução da oferta tem impacto no número de trabalhadores afecto a esta linha, que tem vindo a diminuir”, alertou Luís Bravo, salientando que os comboios que se alugaram a Espanha “iam para a sucata e que agora servem a Linha do Oeste”.
Luís Bravo diz que em 2017 o seu sindicato alertou o governo para a necessidade de alugar mais automotoras a Espanha e que tal teve o acordo do Ministério do Planeamento e das Infraestruturas, “mas depois chegou às Finanças e ficou na gaveta”. Esse aluguer de material espanhol não iria resolver o problema da linha do Oeste, “mas iria evitar o que aconteceu este Verão” com as constantes supressões.
O sindicalista disse que se não há melhor ferrovia, é por decisões políticas. “A Fertagus [empresa privada que explora o troço Setúbal – Lisboa] em 10 anos de concessão recebeu 180 milhões de euros dos contribuintes para o trajecto Sado-Areeiro, a CP nos mesmos dez anos recebeu zero e o Estado ainda vem cativar o dinheiro das bilheteiras”.

“Portugal atravessa a pior crise ferroviária”

Estas foram ideias partilhadas por Jorge Ferreira, maquinista há 22 anos e sindicalista, que disse que não estava a ser alarmista quando diz que “Portugal atravessa a pior crise ferroviária de sempre”.
Conhecedor da Linha do Oeste, onde trabalhou dez anos, não tem dúvidas em afirmar que “é altamente rentável se for devidamente explorada”. E actualmente não é porque o material que nela circula é velho e os horários não são adequados.
Este sindicalista disse que “o material que a CP tem é mais do que suficiente”, afirmando que, “dizer que a CP não tem comboios é mentira”. O problema é outro: “não temos é esse material ao dispor” dado que locomotivas e carruagens estão encostadas nas oficinas em vez de serem aproveitadas para as pôr em circulação e evitar as supressões.
Uma ideia corroborada depois por Luís Bravo, que esclareceu que 30 das 102 carruagens da CP estão imobilizadas. “Correspondem a 38% dos lugares”, informou.
Jorge Ferreira disse que devia haver investigações aos motivos que levaram a que os comboios fossem sendo encostados.
Acrescentou que o governo não resolveu o problema do material circulante em 2016 “porque não quis”, uma vez que haviam 100 mil milhões de euros em Bruxelas para renovar as frotas.
O orador acusou ainda a União Europeia de querer liberalizar a ferrovia e de servir os interesses alemães. O eixo que dá mais dinheiro à CP, que é Corunha-Lisboa-Faro, vai ter um operador privado, pelo que Jorge Ferreira coloca já um prazo de validade à CP Longo Curso, que no máximo em 2023 “será uma miragem”.

estratégia deliberada de privatização

Heitor de Sousa, deputado do BE, também criticou “esta estratégia do governo, feita à medida da abertura a privados no âmbito de uma política europeia”. Fez notar que “desde 2011 houve uma estratégia deliberada de privatização dos transportes urbanos”. Recordou que Sérgio Monteiro quis privatizar a EMEF além da CP Carga e disse que só não o fez porque perdeu as eleições. Referiu que por ano saem da EMEF 100 trabalhadores e que os que vão ser contratados não compensam os que saíram.
Apontou ainda o dedo ao projecto de modernização da Linha do Oeste, onde “continuam a existir situações inexplicáveis, como apenas 20% dos 82 quilómetros ter variante de linha”. Isto faz com que, “como dizia a Gazeta das Caldas há uns meses e bem, só venha reduzir o tempo de viagem em 19 minutos… isto é brincar com as pessoas”.
Na mesma sessão, João Campos Rodrigues, presidente da Associação Portuguesa para a Promoção do Hidrogénio, associação que tem sede na Expoeste, sugeriu que a Linha do Oeste fosse um projecto piloto para os comboios a hidrogénio.
Já Rui Pinheiro, da Comissão Para a Defesa da Linha do Oeste, disse que ainda não foi lançado o concurso para a modernização deste eixo ferroviário e recordou que nele só há três automotoras a operar, o que é manifestamente pouco.
Na sala estavam cerca de 25 pessoas.