ALICE LUIS – A cantina da minha vida

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VIÚVA, 80 ANOS, UMA FILHA E 2 NETOS

notícias das Caldas
“Fui muito feliz aqui e quando cheguei a ecónoma principal até já me sentia assim uma pessoa muito importante” | CARLOS CIPRIANO

Era aqui na cantina que eu recebia as senhas dos alunos e professores, orientava os almoços e verificava se tudo estava em ordem. Eu era conhecida por D. Alice e ainda hoje, 15 anos depois de me ter reformado, há quem me cumprimente porque andou aqui a estudar e ainda se lembra de mim na cantina da escola. É que naqueles tempos os alunos que não viviam nas Caldas comiam quase todos aqui neste refeitório e não era como hoje em que costumam ir para os cafés. Mas também é verdade que a comida era feita cá, por funcionárias da escola e não por empresas contratadas. Não sei se é por isso, mas a verdade é que actualmente são menos os alunos que comem na cantina.
Hoje o almoço é sopa de feijão e salada russa de pescada. É a primeira vez que almoço aqui desde que me reformei e acho piada a este reencontro com o meu passado. Mas não gosto desta “nova” cantina, com estes tubos do ar condicionado a atravessar o tecto. São feios.

Acho que no meu tempo isto era mais aberto e mais bonito.

Quando eu acabei a 4ª classe estava longe de pensar que um dia viria trabalhar numa escola. Naquela época as meninas faziam a escola primária e iam para a costura. Foi a minha mãe que tratou de tudo e me mandou para aprender costura na Madame Sousa, que era uma senhora espanhola casada com um português. Não sei por que é que lhe chamavam Madame.
Eu tinha 12 anos e vinha a pé da Serra do Bouro para as Caldas todos os dias. Era lá que eu vivia com os meus pais, apesar de ter nascido no Reguengo da Parada em casa da minha avó, em 18 de Março de 1936.
Por isso fiz a escola primária na Serra do Bouro e depois “prossegui estudos” naquilo que hoje seria um curso profissional, na Madame Sousa, na Rua das Montras, onde aprendi a ser costureira. Ao fim de um ano mudei-me para a D. Idalina Batalha, que tinha uma casa de costura na Rua Capitão Filipe de Sousa. O objectivo era aperfeiçoar os meus conhecimentos de costura, já que na Madame Sousa tinha aprendido apenas corte. Mas só lá fiquei um ano porque a minha mãe entendeu que era melhor eu regressar a casa e ser costureira na Serra do Bouro, já que esse era também o ofício dela. Eu tinha então 16 anos.
Casei aos 18 anos com o Abel Filipe, dos Casais da Boavista, que andava nos paquetes da Marinha Mercante. Naquela zona havia muito gente embarcada.
Mas fiquei viúva muito cedo. O meu marido morreu em 1962, com apenas 26 anos, na sequência de uma operação ao apêndice. Fiquei sozinha com a minha filha, que tinha seis anos.
Nos dois anos seguintes, lá sobrevivi com a costura e com a ajuda da minha mãe. Mas o melhor que me podia acontecer era arranjar um emprego, ainda por cima no Estado. Foi graças a uns familiares que falaram com o Dr. Leonel Sottomayor, director da Escola Industrial e Comercial das Caldas da Rainha (hoje Escola Secundária Rafael Bordalo Pinheiro), que eu acabei por entrar.
Curiosamente fui estrear o novo edifício, em 1964. Ainda me lembro da inauguração: aquela correnteza de crianças todas vestidas de branco, desde a estrada lá em baixo até cá cima e a chegada do Presidente da República Almirante Américo Tomás. Foi tão bonito…!
Fui colocada a trabalhar no bar, que então se chamava bufete. Tinha de atender os professores e os alunos, mas aquele movimento todo para uma rapariga como eu, tão nova e já viúva, que vinha da Serra do Bouro, fazia-me confusão. Eu tinha 28 anos, mas dava-me para chorar e escondia-me com as lágrimas nos olhos.
De manhã trabalhava no bufete e à hora de almoço vinha aqui para a cantina e servia os professores. Eles tinham uma mesa comprida – a única que tinha toalha – e eu levava-lhes a sopa, o segundo, a sobremesa. Depois voltava para o bar durante a tarde e à noite ainda ia fazer três horas extras das 20h00 às 23h00 para poder ganhar 300 escudos (1,50 euros) no fim do mês. Se não fizesse essas horas só ganhava 200 escudos (1 euro).

“FUI CHAMADA AO DIRECTOR”

Esta foi a minha rotina durante cinco anos, até que em 1969, num belo dia chamam-me ao gabinete do director, que na altura já era o escultor Eduardo Loureiro. Eu fiquei toda atrapalhada. O que é que eu teria feito de mal para me chamarem ao director? Lá fui, muito assustada e estavam lá o senhor director, o Carlos da Silva Gouveia, que era chefe da secretaria e a mulher dele, a D. Helena Gouveia, que era professora de Economia Doméstica. Fiquei ainda mais assustada.
Mas afinal era para me convidarem para ser encarregada geral do refeitório. Passei então a fazer as compras, a tratar da contabilidade e a ser “manda chuva” de tudo o que tinha a ver com a alimentação na escola. E, é claro, tive direito a uma subida de ordenado.
Com o 25 de Abril levantou-se uma questão burocrática: por lei, eu não podia continuar como encarregada porque não pertencia ao quadro. Mas também havia outra lei que dizia que não me podiam baixar o ordenado. Então a solução, depois de anos de uma via sacra administrativa, foi passarem-me para ecónoma, ficando também com a responsabilidade da papelaria e de algum trabalho de secretaria. Fiz então uma carreira de ecónoma de 2ª, ecónoma de 3ª e ecónoma principal, cargo que tinha quando me reformei em 23 de Maio de 2001 quando fiz 65 anos.
Tive sorte. Fiz toda uma carreira na função pública sempre na mesma cidade e na mesma escola, que é coisa que hoje já não se usa. Os professores, então, andam sempre a mudar de sítio, coitados. E agora até juntaram a minha escola com a de Santa Catarina e há quem tenha de andar para um lado e para o outro para trabalhar nos dois lados.
A “escola técnica”, como era conhecida, ou a Escola Secundária Rafael Bordalo Pinheiro, foi a minha segunda casa ao longo de quase 40 anos. Fui muito feliz aqui e tive a sorte de ter tido um trabalho em que era muito independente. Quando cheguei a ecónoma principal até já me sentia assim uma pessoa muito importante… E o engraçado é que os miúdos nunca me tratavam por “senhora contínua”. Eu era sempre a “D. Alice”. E há uma coisa: nunca tratei um aluno por tu. Nem os mais pequeninos.
De todos os directores que tive gostei sobretudo do escultor Loureiro que tinha grandes qualidade humanas.
O Dr. Leonel Sottomayor era muito religioso e então, à sexta-feira, nunca se comia carne na cantina. Eu tinha de fazer de maneira de que à sexta o almoço fosse sempre peixe. Nem que tivesse que servir carne em dois dias seguidos à quarta e quinta. Resultado: à sexta-feira havia sempre menos alunos na cantina. No entanto, sempre que servíamos douradinhos, nesses dias eles até vinham porque era um prato de peixe de que gostavam.
Pouco tempo antes de eu me reformar vieram as empresas privadas para servir a comida nas escolas. Eu fiquei com menos trabalho, mas o serviço nem por isso melhorou. Os alunos não gostavam tanto da comida. Connosco, com os funcionários da escola, era outra coisa: podiam levar uma segunda sopa e eu deixava-os sempre repetir o prato desde que não estragassem a comida. E não havia problemas de faltar o arroz ou a carne porque, por norma, as raparigas comiam sempre menos que os rapazes e, no fim, aquilo batia sempre certo.
Fornecíamos sempre 200 a 300 almoços todos os dias. E houve uma altura, quando o liceu (hoje Escola Secundária Raul Proença), que funcionava nos Pavilhões do Parque, entrou em obras, eles também vinham cá almoçar e cheguei a servir mais de 600 refeições. Até tenho saudades daquele movimento todo, dos alunos nas filas, de receber as senhas, de ver toda aquela gente a almoçar no “meu” refeitório.
Lembro-me que antigamente os alunos pagavam 5 escudos (2,5 cêntimos de euro). Hoje pagam 1,46 euros. É quase 300 escudos, que era o meu ordenado de um mês.
Agora isto aqui está muito diferente. Acho que está pior e eu gostava mais da escola do meu tempo.
No ano em que me reformei, morreu o meu segundo marido (eu tinha voltado a casar em 1972). Agora tenho muito tempo livre, mas procuro manter-me ocupada. Todos os dias tomo o pequeno-almoço no café do senhor Adriano. É um hábito, um pequeno luxo que já mantenho do tempo em que trabalhava e tomava o pequeno-almoço na escola. E todos os dias vou à Serra do Bouro porque, apesar de viver nas Caldas, mantenho lá a minha vivenda e um terreno onde tenho favas, agriões, feijão verde… E trato das galinhas.
As minhas netas já têm 29 e 33 anos. Já não sou como outros avós em que ainda se entretêm a tomar conta dos netos. Enfim, é da idade. Nunca digo que tenho oitenta anos. Digo que tenho um oito e um zero.