ANTÓNIO CARDOSO – Uma vida ligada à cerâmica

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• 76 ANOS
• CASADO
• 3 FILHOS, 7 NETOS
Isto está deprimente. Uma exposta ruína. E a fachada onde estavam, imponentes, as letras SECLA, foi precisamente a que caiu. Quem aqui passa e não é das Caldas, não sabe que isto foi a maior fábrica de cerâmica da cidade e uma das maiores da Europa que, a dada altura, deu emprego a mais de mil pessoas. Trabalhei aqui entre 1959 e 1965 e entre 1982 e 1989. Treze anos dos quais guardo boas recordações, tanto dos tempos em que era aprendiz no laboratório como de quando fui o director industrial da empresa. Agora, quando passo aqui, custa-me ver o estado em que isto está. O meu gosto pela cerâmica vem desde miúdo, de quando ia ter com o meu avô, Francisco do Couto, à oficina que ele tinha no Beco do Borralho. Uma fabriqueta de loiça decorativa, com quatro empregados, com um forno alimentado a lenha que vinha do Vau, transportada em carros de bois para as Caldas.

Dizia a minha mãe que eu tinha 18 meses e adorava ver o fogo do forno onde se coziam as peças. O meu avô pegava-me ao colo e eu olhava, deliciado, os amarelos e vermelhos das chamas. Nasci a 23 de Outubro de 1939 e cresci na oficina. A firma do meu avô chamava-se José Alves Cunha, Sucessores Lda. e, além da fabriqueta no Beco do Borralho, tinha ainda uma loja na rua das Montras no local onde hoje são as carpetes do Monteiro. Por pouco não me afastei definitivamente daquilo que viria a ser a minha paixão, um autêntico vício que marcou a minha vida profissional – a cerâmica. Com dois anos fui com os meus pais viver para Figueiró, a seis quilómetros de Viseu. Foi lá que fiz a escola primária, mas para prosseguir estudos eu teria que ir a pé para Viseu. Por isso, os meus pais decidiram que era melhor eu vir para as Caldas viver com os meus avós. Foi assim que voltei à oficina do meu avô e passei a ajudá-lo diariamente. A minha avó matriculou-me no curso Comercial da Escola Industrial e Comercial Rafael Bordalo Pinheiro (atrás do Chafariz das Cinco Bicas) porque queria que eu fosse bancário. À época, ser bancário dava um certo estatuto social. Mas eu bati o pé e disse que queria o curso de cerâmica e a minha avó teve que lá ir alterar a matrícula e até pagou uma multa. Fiz o curso e com 15 anos fui trabalhar com o meu avô. Fazíamos louça decorativa típica das Caldas, incluindo as “garrafas das Caldas”, das quais pintei centenas à mão. Foi uma aprendizagem típica daquela época em que até amassava o barro à mão, modelava, pintava e até ia vender as peças na loja. Só que eu estava sedento por saber mais sobre cerâmica. Na altura não havia manuais nem obras publicadas sobre o sector. Descobri que havia um livro editado nos Estados Unidos sobre cerâmica e, através de uma tia que lá vivia, mandei-o vir. E para o poder ler, pus-me a aprender inglês. Como? Em cursos que eram vendidos em discos em vinil que eu punha no gira-discos e ia ouvindo.
DA OFICINA DO AVÔ PARA O LABORATÓRIO DA FÁBRICA
Aos 19 anos o senhor Alberto Pinto Ribeiro, que era gerente da Secla e tinha sido meu professor na escola, convidou-me para ir trabalhar para o laboratório da fábrica que já na altura era a maior das Caldas. O meu avô apanhou um grande desgosto porque queria que eu fosse o continuador  do negócio, mas eu sabia que aquilo não tinha futuro. Basta dizer que, nos dias em que não havia vento, o fumo escuro e espesso que saía do forno da oficina do Beco do Borralho pairava sobre a rua das Montras, infiltrava-se nas lojas e os comerciantes protestavam. Alguns anos depois, em 1963, a oficina acabaria mesmo por fechar. SECLA significa Sociedade de Exportação e Cerâmica Limitada. Mais tarde seria uma sociedade anónima. Foi, pois, criada com o objectivo da exportação e cumpriu bem esse papel porque daqui saíam contentores de louça para a América e para toda a Europa. No laboratório eu tinha de controlar a qualidade dos produtos, das pastas e dos vidrados, bem como o funcionamento das moagens, a temperatura dos fornos. Ao mesmo tempo, o laboratório tinha uma componente de investigação porque o senhor Pinto Ribeiro queria sempre fazer coisas novas. Estive na Secla até 1965. Foi um período de grande criatividade artística da empresa. Convivi com o Ferreira da Silva, o António Quadros, o José Aurélio, o Armando Correia, o Herculano Elias, o Santa Bárbara. Com 26 anos aceitei o convite de um empresário de Alcobaça, a quem eu já dava consultoria, para entrar na sociedade de uma empresa que ele tinha na Fervença – a Pedro & Cardoso, Lda. As peças eram assinadas P&C, coisa que nos divertia porque era quase uma provocação no país do Salazar. Gostei da minha experiência como empresário. Foram anos de crescimento e expansão e chegámos a ter 90 empregados na fábrica. Mas dez anos depois, em 1975, não resisti a um convite para ir para Espanha. Na altura, numa época em que mal se falava da CEE e abertura de fronteiras, o governo de Madrid punha contingentes à importação de mercadorias. E nós tínhamos um cliente espanhol para quem só não vendíamos mais porque ele não estava autorizado a importar. A solução foi ir produzir para lá e fui eu quem foi montar a fábrica de raiz. Puseram-me à frente de um barracão vazio, em Algete, no arredores de Madrid, e eu daquilo fiz uma fábrica de cerâmica. O normal teria sido irmos para a zona de Valência, onde há tradição cerâmica, mas o José Maria Tramullas era um empresário teimoso e quis que fosse em Madrid porque era para lá que ele vendia. O principal problema foi recrutar a mão-de-obra, mas aquilo acabou por funcionar quase só com mulheres que tinham vindo de uma fábrica de calças que tinha fechado. Comigo foi também o Armando Correia, que já me dera apoio na fábrica de Alcobaça e que participou também nesta aventura madrilena. Foi um êxito. Fazíamos loiça decorativa, cerca de 20 toneladas por mês, que se vendia a bom preço porque a margem de lucro era muita boa. Velhos tempos!…
OS ANOS DE OIRO DA CERÂMICA
Regressei a Portugal em 1982 porque a Secla foi-me lá buscar. Ofereceram-me o cargo de director técnico e aceitei. Vim para participar, contribuir e assistir aos momentos mais pujantes desta empresa, cujas ruínas se vêem na foto. O contexto económico-financeiro português era-nos favorável. Com a desvalorização do escudo, a cerâmica portuguesa era extremamente atractiva para o estrangeiro e quanto mais desvalorizava o escudo mais nós exportávamos. Depois, a partir de 1986, com a entrada na CEE, ainda mais fácil se tornou exportar para a Europa. Costumo dizer que nós fomos os chineses da Europa porque rebentamos com a indústria cerâmica nos outros países graças à nossa mão-de-obra barata. Trabalhávamos muito e exportávamos muito. Mas para isso era preciso estarmos à altura desse desafio que eram as produções sempre crescentes sem nunca deteriorar a qualidade nem o nome da empresa. Foi com o lucro desses anos que se construiu a Secla II aqui junto ao cemitério. Chegámos a ter mais de 1000 operários e a maior parte das secções laborava em três turnos. Em 1989 vieram uns investidores ingleses do grupo WBB construir a Cerapasta na zona industrial das Caldas e convidaram-me para ajudar a montar a empresa e ser o gerente. Mas como eu achava indecente largar assim de repente toda a responsabilidade que tinha na Secla, durante algum tempo trabalhei quatro dias por semana na Cerapasta e um dia na Secla. A empresa produzia pasta preparada para as fábricas de cerâmica que assim compravam a matéria-prima já pronta para modelar. A minha experiência acumulada neste sector foi decisiva para o sucesso da Cerapasta. De tal forma que em 1999 a WBB convidou-me para ir montar uma fábrica idêntica no Brasil. Antes de partir acertei as minhas contas com a Segurança Social – reformei-me. Tinha 61 anos. No Brasil estive no Recife a produzir pasta para sanitários pronta a ser utilizada. Estive lá de 1999 a 2003 e quando regressei a Portugal a Cerapasta tinha mudado de mãos e o novo dono convidou-me para lá voltar. Fiquei lá até 2008 como que a preparar-me para me reformar “de facto”. A Cerapasta, nos tempos áureos da indústria cerâmica chegou a produzir 3000 toneladas de pasta para 250 fábricas do sector. Agora produz 800 toneladas. Chegou a ter 42 empregados. Agora tem quatro. Não consigo estar sem fazer nada. Há pouco tempo fui convidado para ir à Tailândia dar consultoria a uma fábrica de cerâmica. Aceitei com prazer, até porque gosto de viajar. Apesar de reformado, invento coisas para fazer e os meus filhos e netos também se encarregam de me manter ocupado pedindo-me ajudas e recados. A minha filha vive aqui perto da Secla e passo aqui muitas vezes. E embora tenha sido na Cerapasta que mais gostei de trabalhar, pelo desafio diário que representava a relação com os nossos clientes, é com um enorme carinho e muita nostalgia que recordo esta grande fábrica que foi a Secla.

 

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