AUGUSTO VERDASCA – o homem do táxi

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• 84 ANOS
• CASADO, DOIS FILHOS, QUATRO NETOS E UM BISNETO

Foi nesta praça, na rua Eng. Duarte Pacheco, que passei muitas horas à espera de clientes.

Pode-se dizer que este era um dos meus locais de trabalho, sem bem que, em rigor, trabalhar é quando estamos a conduzir o táxi com clientes e não quando estamos parados.
Tudo parecia destinado a que a minha vida fosse em África, em S. Tomé e Príncipe, onde vivi 15 anos. Mas acabei por largar as roças de cacau que ajudei a administrar e vim para as Caldas da Rainha conduzir um táxi. Foram 27 anos ao volante e milhões de quilómetros feitos, e só com três multas e dois pequenos acidentes. Ser taxista, mais do que uma profissão, é um modo de vida. Sem patrões nem horário de trabalho fixo, mas sujeito a uns dias melhores e a outros piores.
Nasci em Alpedriz, no concelho de Alcobaça, em 7 de Novembro de 1931. Foi lá que fiz a escola primária e depois fui trabalhar para o campo, à jorna. Mas aos 21 anos inscrevi-me na Escola Prática de Agricultura Vieira da Natividade, em Alcobaça, para fazer um curso que iria mudar a minha vida – pomicultura. Aprendi num ano lectivo, entre 1952 e 1953 muito sobre agriculura e pomares e, isso, naquele tempo fazia a diferença.
Seis anos depois, graças a esse curso, respondi a um anúncio no Diário de Notícias que pedia técnicos agrícolas para uma empresa no Ultramar. Eu estava com 28 anos, já tinha casado com a Alice, uma rapariga da minha freguesia, e já tinha nascido a minha primeira filha, a Micá. Tinha a ambição de viver melhor e por isso não tive receio de me meter num navio – o Pátria – e ir para a ilha de S. Tomé. Na bagagem levava um contrato assinado com a Companhia da Ilha do Príncipe, que detinha a roça de Santa Margarida, onde produzia cacau.
Fui trabalhar como ‘feitor de dependência’ e seis meses depois mandei vir a minha mulher e a minha filha. O meu filho, Osvaldo, nasceria dois anos depois em S. Tomé.
Na primeira vez que vim a Portugal em graciosa (uma licença de férias que se dava aos funcionários do Ultramar), aproveitei para tirar a carta profissional de pesados na Escola de Condução Clérigo (hoje Bavi). Fi-lo a pensar no futuro e porque em S. Tomé me tinham dito que dava jeito ter a carta.
Vivi 15 anos na ilha, mas nem sempre no mesmo sítio. Depois da roça de Santa Margarida, fui para feitor geral da roça de Santa Catarina. Tinha um jeep e três cavalos por minha conta para me poder deslocar por lá pois a roça media 2000 hectares. E não vale a pena entrar em pormenores, mas a verdade é que, sob a minha administração, a roça quase duplicou a produção de cacau. O ter feito o curso na escola agrícola em Alcobaça ajudou, mas o mais importante era a dedicação e o saber orientar bem o trabalho, sem nunca escravizar o pessoal.
Em 1973 mudei outra vez de patrão. Contrataram-me como administrador da roça de Santa Cecília.

DE S. TOMÉ PARA A AUSTRÁLIA

Estava lá em 1974 quando se deu o 25 de Abril. Nas semanas seguintes nada mudou, mas a pouco e pouco a situação deteriorou-se porque os locais queriam a independência. Nas roças, no interior da ilha, houve uma revolta, com algumas greves, mas tudo pacífico, sem violência. Só que percebi que o meu tempo ali tinha acabado.
Regressei sem grandes dramas. Primeiro eu e o meu filho, porque já tínhamos uma viagem marcada na TAP. A minha filha ainda lá ficou com a mãe mais uns meses para acabar o 5º ano na Escola Comercial de S. Tomé porque a situação na cidade era calma.
Eu tinha 43 anos. Regressei a Alpedriz, mas só fiquei 15 dias em casa do meu pai. Vim viver para as Caldas da Rainha onde aluguei uma casa na Rua da Electricidade (hoje Rua José Saudade e Silva). Em Agosto de 1975, como tinha de ganhar a vida, fui para o outro lado do mundo – a Austrália – trabalhar em navios de cruzeiro. Era empregado de câmara e fiquei por lá nove meses.
Um dia, estávamos atracados em Sidney, recebo uma carta da minha mulher a dizer que o Manuel Costa Ferro, que era taxista, tinha morrido. O genro dele era nosso familiar e perguntou à minha mulher se eu estaria interessado em ficar com o alvará.
Mal recebi a carta fui logo telefonar para Portugal a dizer que sim senhor. Em Abril estava nas Caldas e no dia 1 de Maio de 1976 iniciei a minha carreira como taxista.
Já não me lembro do primeiro serviço que fiz, mas recordo-me bem do carro, um velho Mercedes, já com 30 anos, tão velho que eu até recusava serviços para Lisboa para não correr o risco de ficar pelo caminho. Tinha o bloco do motor e a cabeça do motor rachados e passava a tempo a pôr-lhe água.
Não demorou muito tempo até ir ao Abílio Flores comprar um carro novo – um Peugeot 504, que me durou sete anos. Depois comprei um Mercedes 240/8, que me durou oito anos. E acabei a minha vida profissional ao volante de um Mercedes 200D carroçaria 124 que comprei em 1992. É verdade que os carros que fui comprando foi sempre a melhorar. Mas também era para isso que se trabalhava e um homem nesta profissão tem de ter boas máquinas para se sentir confortável, para não avariarem e que agradem aos clientes.
Mas voltemos a Maio de 1976. Nesse tempo o quilómetro era pago a 3 escudos (1,5 cêntimos) e uma bandeirada na cidade custava 15 escudos (7,5 cêntimos). E o gasóleo também me lembro: era a 3$60 (1,8 cêntimos) o litro. Velhos tempos…
Nessa altura havia 21 taxistas na cidade. Hoje são 23 e eu ainda me surpreendo como é que há trabalho para tantos táxis. Porque as coisas mudaram muito. Hoje toda a gente tem carro, os transportes públicos são melhores…
Mas em 1976 havia mais trabalho. Ao sábado não parávamos toda a manhã a ir levar e trazer as senhoras que iam às compras à Praça da Fruta. Os serviços eram quase todos no concelho, mas de vez em quando íamos a Peniche, à Nazaré, às vezes a Lisboa.
Os taxistas iam para as três praças das Caldas: no topo da Praça da Fruta, na rua Eng. Duarte Pacheco e na estação de caminhos-de-ferro. Aquilo na estação ferroviária agora está meio morto, mas antigamente dava muito serviço. Nós sabíamos os horários dos comboios e íamos para lá. Havia sempre alguém que precisava de um táxi. E então à noite, na automotora que chegava de Lisboa às 2h00 da manhã, era quase garantido que havia sempre alguém.
No Verão havia os autocarros internacionais que vinham de França com emigrantes. Paravam na Rodoviária e havia sempre serviços aqui para as redondezas. Famílias carregadas de malas e de saudades, que vinham cansados da viagem, mas muito felizes por chegarem à terra.
Nesta profissão não há horário fixo. Cheguei a trabalhar 24 horas seguidas. Enquanto havia serviços, trabalhava-se. Às vezes vinha de Lisboa à meia-noite, via a praça sem nenhum carro e punha-me lá só para não a deixar vazia porque dava mau aspecto.
E, é claro, também havia aqueles dias em que a gente estava horas e horas seguidas ali parada e não aparecia ninguém nem o telefone da praça tocava.

A IMPORTÂNCIA DO TELEMÓVEL

O que mais mudou a vida de taxista nos últimos 30 anos foi uma invenção chamada telemóvel! Foi o melhor que nos podia acontecer. A partir de certa altura já não era preciso estar ali tanto tempo à espera pois os clientes telefonavam-nos directamente. No fim da minha carreira, havia dias em que nem chegava a encostar o carro na praça pois fazia o serviços todos pelo telemóvel.
Quando fiz 65 anos reformei-me porque já tinha direito à reforma, mas continuei a trabalhar. Só parei aos 73 anos. Teve de ser. Comecei a ficar com cataratas e a ver cada vez pior. Surgiu-me uma oportunidade e cedi a minha quota. Lembro-me do último serviço que fiz num dia de Abril de 2003. A minha última viagem foi ir buscar uma senhora a Lisboa para o Casal do Rei, ali ao pé dos Vidais. Chovia copiosamente. Depois… como se costuma dizer, “fechei a loja”.
Às vezes ainda vou ali visitar o pessoal na rua Eng. Duarte Pacheco. Não se pode dizer que o mundo dos taxistas seja de grande camaradagem e de muita cooperação. Não. Aquilo são sete cães a um osso e às vezes havia conflitos entre os colegas.
Eu fui 12 anos delegado da ANTRAL (Associação Nacional dos Transportadores Rodoviários em Automóveis Ligeiros) e uma das coisas que sempre tentei foi a de evitar que autorizassem mais alvarás para as Caldas para não haver mais concorrência.
É que o serviço tem vindo a ser cada vez menos. Antigamente não só havia menos gente com carros, como as estradas do concelho eram uma desgraça e nem sequer havia autocarros. A gente fazia serviços para tudo o que era aldeia e casal. As estradas eram de terra batida, cheias de buracos. O que a suspensão do carro sofria! E no Inverno tudo cheio de lama. Uma vez, em 1976, fiquei atolado num buraco ali no Casal da Crocha e foi o Vasco Oliveira que me foi lá tirar com uma corda amarrada ao carro dele. Nesse tempo, no Bairro dos Arneiros as ruas nem alcatroadas eram e os esgotos corriam a céu aberto. E fora da cidade, as estradas eram tão más que para ir à Benedita ou a Rio Maior demorava-se quase uma hora.
Mas agora não há terra que não tenha serviço de autocarros. E com o Toma nem entendo como é que ainda há alguém que ande de táxi.
Eu, nos últimos anos, ainda trabalhei com companhias de seguros e empresas de assistência em viagem, mas estas últimas pagavam mal e pagavam quando queriam. Desisti.
Em 27 anos de serviço, só tive três multas, nenhuma delas grave. E acidentes só tive dois e nenhum grave: num fui o culpado, no outro fui inocente.
Se me perguntarem se a vida de taxista dá para enriquecer, eu respondo que não. Dá para viver porque faz-se dinheiro todos os dias, mas para ficar rico, ai isso é que não. Tem é a vantagem de quem trabalha por conta própria – não há patrão e não estamos sujeitos a horários fixos.