JACINTO CAMPOS – de motorista da Câmara a encarregado de oficina

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• 74 ANOS
• CASADO, UM FILHO, DOIS NETOS

Participei activamente na infraestruturação e modernização do concelho das Caldas. Levei água, luz, esgotos e estradas alcatroadas a todas as freguesias.

Quer isso dizer que fui um político, um autarca? Não. Fui um simples peão, um motorista de pesados da Câmara Municipal, mas com um contributo importante a acartar terras, sarrisca, alcatrão, postes, cabos e outros materiais por essas terras fora para fazer chegar o progresso a aldeias e casais que viviam isolados. Quando me reformei, já há uns 15 anos que tinha abandonado o volante dos camiões e era encarregado da oficina da Câmara das Caldas.
Quando eu nasci, em 20 de Janeiro de 1942, quase não havia estradas no concelho das Caldas. Andava-se de burro e de carroça. Não havia água canalizada, nem saneamento básico nem electricidade em quase todas as freguesias. Havia poucas escolas e professores para os alunos que as frequentavam. Mas havia muita gente, ao contrário de hoje em que na maioria das aldeias só vivem velhos. A prova de que este era um concelho jovem é que no meu primeiro ano da escola primária, nos Vidais, onde nasci, havia mais de 50 crianças. E também havia escolas primárias na Ribeira e nos Mosteiros. Mas nos Vidais só tinhamos uma professora – Ana da Conceição Benécio – para aquela rapaziada toda. Só quando cheguei à 3ª classe é que veio uma regente escolar para a ajudar. Hoje nem dá para imaginar como é que uma professora sozinha podia ter mais de 50 alunos.
Chumbei por faltas na 1ª classe. Não por ser corrécio ou mandrião, que eu até nem era mau aluno. Mas porque houve um dia 13 de Maio que não foi nada abençoado para mim – apanhei com dois coices de uma égua e fui parar ao hospital de Sto. Isidoro (onde hoje funciona a biblioteca da ESAD), onde fui operado e estive um mês internado.
Saí da escola com 12 anos e fui trabalhar para a agricultura, que lá em casa havia muitas bocas para alimentar – éramos 14 irmãos e não podiam ser só os meus pais a ganhar o sustento para tanta gente.
Às tantas abriu nos Vidais uma casa de bicicletas e eu fui para lá trabalhar na oficina. Ganhei-lhe o gosto e em 1958, com 16 anos, fui para Lisboa trabalhar como aprendiz numa oficina de automóveis. Vivia na Penha da França em casa de uma tia e descia a pé para a Estefânia onde me sujava no óleo em torno dos motores das chapas e carroçarias dos automóveis.
Mas só ganhava 9$60 por dia. Hoje é menos de 5 cêntimos! E acabei por regressar aos Vidais para trabalhar na agricultura.
Em Outubro de 1963 assentei praça em Caçadores 8 em Elvas. Naquele tempo a tropa era obrigatória e dificilmente alguém lhe escapava. Recebo a guia de marcha em casa e lá vou eu de comboio para aquele fim do mundo. Saí das Caldas às nove da noite e cheguei ao quartel à uma da tarde do dia seguinte. Daqui para Alfarelos e depois para o Entroncamento e a seguir para Elvas. Eram tantos mancebos a ir para a tropa que não havia carruagens que chegassem e puseram-nos em vagões de carga, onde íamos a monte, sentados no chão.
Fiz a recruta em Elvas e por lá teria ficado a tropa toda se não tivesse conseguido uma troca para as Caldas. Foi uma sorte, tal como também foi uma sorte não ter ido para a Guerra Colonial porque já tinha tido um irmão que fora mobilizado. O quartel do RI5 era praticamente novo e tinha boas condições. Aproveitei o tempo da tropa para tirar a carta de pesados (na Auto Caldense) e essa foi uma das melhores decisões que tomei porque deu um rumo à minha vida.
Em Dezembro de 1965 passei à disponibilidade e em Janeiro eu era aceite como motorista na Câmara das Caldas. Tinha 24 anos.
Na altura a garagem da Câmara era ali onde é hoje a papelaria Vogal na rua Raul Proença. Nessa altura ainda não havia a que é hoje a avenida 1º de Maio. Só a construímos entre Maio e Agosto de 1969. Eu conduzia uma camioneta Desoto e, às vezes, uma Fargo. Eram ambas já velhas para aquela altura. A Desoto abanava que se fartava e andava aos solavancos. Eu tinha que segurar a alavanca das mudanças para estas não se soltarem. E para que a cabine não batesse na bateria, tive que arranjar um calço de madeira para pôr entre o habitáculo e o chassis.
Mas era com esta camioneta que eu trabalhava das 8h00 às 17h00 a acartar materiais para as obras da Câmara. Lembro-me do meu primeiro serviço, que foi transportar terra para se fazer uma rua a ligar o Bairro dos Arneiros ao Bairro da Ponte. Hoje é a rua Manuel Mafra que até então não existia.

O MUNICÍPIO É QUE FAZIA TUDO

O município naquele tempo é que fazia tudo. Não havia adjudicações a empreiteiros. Construíamos estradas. Por exemplo, a freguesia de Alvorninha só tinha uma estrada empedrada e nós é que fomos para lá abrir caminhos. Lembro-me de algumas datas marcantes: no 16 de Março de 74 andávamos a alcatroar a estrada de Cortém e no 25 de Abril estávamos a alcatroar a estrada dos Mosteiros para Vila Nova.
Também era a Câmara que levava a luz eléctrica às freguesias. Não havia ainda a EDP e isso era um incumbência dos Serviços Municipalizados, tal como era o abastecimento de água e o saneamento básico. A minha vida naquelas décadas foi participar activamente nessa senda de progresso, mas é verdade que foi depois do 25 de Abril que o município teve mais meios para acelerar a infraestruturação do concelho. Nos anos setenta e oitenta é que, verdadeiramente, se rasgaram estradas e se levou a água, luz e esgotos às aldeias todas do concelho, às vezes com a ajuda do Exército, que punha as máquinas ao serviço do povo, como então se dizia.
E não era só nas aldeias. O Bairro dos Arneiros era uma desgraça: um bairro clandestino com esgotos a céu aberto, um cheiro pestilento e mosquitos. Andei lá a transportar materiais para pôr os esgotos.
A Câmara das Caldas tinha na altura seis motoristas das obras e dois para a recolha do lixo. Quando estes estavam de folga era eu que conduzia a camioneta do lixo que, às vezes, era uma simples carrinha de caixa aberta. Uma vez, ao descer ali a rampa dos Silos (R. Filinto Elísio), perdi os travões e só não tive um acidente porque não vinha ninguém no cruzamento. Em vez de virar à direita, conseguir guinar para a esquerda (que era a subir) e parar a camioneta.
Eu, entretanto, tinha-me casado em 1967 com a Alice, que era da Boavista (Alvorninha), mas que trabalhava nos Vidais na casa do Dr. Botelho Moniz (presidente da Câmara na altura). Foi o padre Avelino Rodrigues que nos casou. Soube depois que ele deixou de ser padre e que era um homem contra o regime. Com o casamento deixei a casa dos meus pais e vim viver para as Caldas, para o Beco do Forno. Depois mudamo-nos para a rua 31 de Janeiro onde ainda hoje vivo.
Não fui motorista toda a vida. Um homem também se cansa e chega um momento em que merece uma promoção, por pequena que seja. Em meados dos anos 80 fui promovido a encarregado de oficina, que era ali junto ao Matadouro (hoje Centro de Juventude).  Em fins de 70 a Câmara comprou o edifício da Mattel (antiga fábrica das cassettes) para nele instalar as oficinas. Fui eu que ajudei a montar toda aquela estrutura, que teve um importante papel numa época em que ainda não era moda mandar fazer tudo fora.
Nós tínhamos três serralheiros, três mecânicos, um pintor, um bate-chapas, dois lubrificadores, um torneiro mecânico. Fazíamos a reparação de toda a frota da Câmara com a prata da casa. Uma vez até construímos um Dumper. Não precisámos de comprar o motor, nem a caixa e nem o diferencial porque aproveitamos o que havia de uma caldeira de alcatrão que tinha ardido. A gente aproveitava tudo.
Reformei-me em Setembro de 2000, com 58 anos. E acho que voltei a ser motorista porque agora passo o tempo a levar e trazer os meus netos à escola. Mas também tenho uns pomares nos Casais da Serra, perto de Rio Maior, onde me entretenho um bocado.
Tenho algumas saudades do tempo em que estava mais activo, mas gosto da vida que levo. Sempre tive uma boa relação com o pessoal. Mesmo na Câmara – onde só vinha às vezes para tratar de alguns papéis porque o meu trabalho era na oficina – nunca tive problemas com ninguém.
Apanhei com sete presidentes: Botelho Moniz, Paiva e Sousa (antes e depois do 25 de Abril), Artur Capristano, Manuel Perpétua, Hergildo Velhinho, Lalanda Ribeiro, Major Monroy e Fernando Costa. Dei-me bem com todos.