Jovens médicos dão resposta a necessidade de cuidados de saúde nas Caldas

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O médico João Machado no consultório em A-dos-Francos, com Mara Marques, que o convidou a integrar o projeto

No âmbito do protocolo estabelecido entre a Misericórdia das Caldas e a ARSLVT, quatro profissionais de saúde garantem cuidados de saúde a parte da população que não tem médico de família

Caldense e a residir no Porto, João Machado percorre, a cada 15 dias, mais de 200 quilómetros para dar consultas na extensão de saúde de A-dos-Francos. Formado em Medicina e a fazer a especialidade em Fisiatria, é um dos quatro médicos que atualmente estão a dar consultas no concelho no âmbito do protocolo celebrado entre a Santa Casa da Misericórdia das Caldas e a Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo (ARSLVT), com o objetivo de assegurar cuidados de saúde primários à população sem médico de família.
O profissional de saúde, de 35 anos, aceitou este desafio como forma de “complementar um bocadinho a minha formação e para não abandonar a medicina geral”, disse à Gazeta das Caldas, no passado sábado, após uma tarde de consulta a pacientes.
Foi através da colega médica e membro da Assembleia Municipal das Caldas, Mara Marques, que ficou a saber do protocolo, e presta serviço na extensão de saúde de A-dos-Francos desde o início do ano. Uma experiência que se tem revelado “muito interessante”, conta o médico, que ali faz um trabalho diferente do quotidiano do hospital, onde trata doentes agudos na Medicina Interna, após ter estado seis meses a trabalhar em Medicina Física e Reabilitação. “A Fisiatria, que tem muita reabilitação, também me ajuda um pouco nas consultas em A-dos-Francos, porque temos doentes com situações musculo esqueléticas que é necessário orientar para a reabilitação”, explica. Por outro lado, destaca que, “poder ajudar pessoas que têm problemas de saúde, se calhar alguns deles bastante graves, e que há bastante tempo que não iam a uma consulta, é muito compensador”.
Na extensão de saúde de A-dos-Francos dá consultas aos sábados, juntamente com outro médico, a utentes desta freguesia e também da do Landal, cuja extensão de saúde permanece encerrada. Os utentes têm, na sua grande maioria, mais de 60 anos e são atendidos em consultas programadas, ou seja, marcadas com antecedência.
João Machado destaca a importância do acompanhamento dos utentes nas unidades de saúde primárias para minorar o problema nos acessos aos cuidados hospitalares. Já conseguiu atender utentes mais do que uma vez, desde janeiro, o que lhe permite avaliar e ver a progressão. Contudo, sente que “ainda há muita gente aqui na zona que não consegue ter acesso a estas consultas e há pessoas que esperam tempo a mais por uma consulta”, revela.

Resposta nas freguesias rurais
A preocupação com a falta de resposta ao nível dos cuidados de saúde primários levou Mara Marques, médica de família, que já trabalhou na Unidade de Cuidados de Saúde Personalizados (UCSP) das Caldas da Rainha, em conjunto com o município, a tentar intervir e encontrar profissionais de saúde disponíveis para dar consultas no concelho. A também membro da Assembleia Municipal e da Comissão Municipal da Saúde, pelo movimento Vamos Mudar, acabou por conseguir arranjar três dos médicos que estão a exercer no concelho. De acordo com Mara Marques a carência de médicos de família é um problema com vários anos e que condiciona os cuidados de saúde à população, desde o adequado acompanhamento ao nível da saúde materna e infantil mas também da população idosa, que apresenta muitas patologias e comorbilidades. “Ao não haver esta resposta dos cuidados de saúde primários, vamos estar sempre a sobrecarregar os hospitais”, explica.
A profissional de saúde faz notar que é nas freguesias rurais, onde existem as extensões de saúde, que se nota mais a falta deste recurso, tendo em conta as distâncias que se têm de percorrer para obter uma consulta. “Uma pessoa que resida na cidade, se não consegue consulta de manhã pode voltar à tarde, ou no outro dia. Mas uma pessoa que vive numa aldeia, muitas vezes sem transporte, tem bastante dificuldade em conseguir ir à sede, nas Caldas, que está distante”, conclui.
Atualmente há quatro médicos a trabalhar no concelho das Caldas ao abrigo do protocolo estabelecido entre a Santa Casa da Misericórdia a ARSLVT, um no centro de saúde das Caldas, outro em Santa Catarina e dois em A-dos-Francos. Ao todo cumprem 90 horas semanais durante 50 semanas.
João Gomes, diretor executivo do Agrupamento de Centros de Saúde (ACeS) Oeste Norte, considera que o protocolo está a correr bem, na medida em que os utentes, mesmo não tendo médico de família, têm acesso a cuidados de saúde. Quer isto dizer que os quatro profissionais de saúde são prestadores de serviços e os utentes não ficam afectos a estes médicos. “Tudo o que venha para colmatar a falha que é o acesso aos cuidados de saúde, é bem vindo”, diz o responsável, que reconhece que esta não é a resposta ideal. “O que se pretende é criar a relação entre equipa de saúde e utente (médico, enfermeiro e assistente técnico com o agregado familiar) e é essa relação de proximidade que cria confiança e o acesso que todos defendemos”, explica.
Tendo em conta a dificuldade no preenchimento de vagas, a solução numa primeira linha deverá continuar a passar pela continuidade destes protocolos. “Nós manifestamos interesse em que eles se perpetuem, até por uma questão de proximidade dos cidadãos aos cuidados de saúde”, explica João Gomes, reconhecendo o que estas horas de trabalho médico, embora bem vindas, ainda não são suficientes para as necessidades deste concelho. ■