Médicos querem ser ouvidos sobre a reorganização dos cuidados hospitalares

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O bastonário da Ordem dos Médicos, José Manuel Silva, esteve nas Caldas a 23 de Fevereiro para criticar o Ministério da Saúde por não ouvir a organização que representa no que diz respeito à reorganização dos cuidados hospitalares desta região e também pelo facto de pretender avançar com reformas sem estudos de impactos sobre as populações.
Aos protestos juntou-se o responsável do Distrito Médico do Oeste, Pedro Coito, que analisou a proposta da ARS manifestando uma total discordância.


“É inconcebível e lastimável que um documento que pretende introduzir profundas alterações na actual estrutura da prestação de cuidados de saúde na Região Oeste tenha sido formulado sem qualquer consulta ou informação prévia à Ordem dos Médicos”
. Foi desta forma que Pedro Coito se referiu ao documento da ARLVST, que data de Janeiro de 2012, e que pretende avançar com a reforma dos serviços de saúde no Oeste.
O cirurgião referiu-se ainda “à natureza apócrifa” deste documento (do qual os médicos tiveram conhecimento por contactos pessoais informais) e que tem gerado “uma onda de desinformação” e “uma enorme apreensão e indignação” por parte de várias entidades onde se incluem os médicos. Estes comentários foram feitos em conferência de imprensa, a 23 de Fevereiro, nas Caldas. Acham que o documento é “de uma grande pobreza conceptual e enferma de flagrantes erros de análise”. Para Pedro Coito, não restam dúvidas de que as actuais propostas “conduziriam a um clara degradação dos serviços prestados às populações” e em muitos casos  de “uma significativa limitação do acesso aos cuidados de saúde”.
O médico cirurgião diz que a proposta não inclui índices qualitativos e não tem em conta variáveis como as características das populações servidas. Não foram vistas as condições de trabalho dos profissionais, os equipamentos disponíveis, ou a natureza das patologias tratadas nas diferentes unidades hospitalares. “Comparar as consultas de Torres Vedras, as cirurgias de Alcobaça com as cirurgias das Caldas da Rainha, ou os tratamentos de reabilitação do Hospital Termal com os do antigo Sanatório do Barro, tem o mesmo rigor técnico-cientificio que somar batatas com limões ou dividir laranjas por cebolas”, disse o presidente Distrito Médico do Oeste referindo-se à proposta da ARSLVT.

Uma estrutura “ingovernável”

O médico classificou de “insensata” a formação de um único Centro Hospitalar “com cerca de 120 km na sua maior extensão, uma população de referência de 350.000 habitantes e distribuído”, que ficaria distribuído  por seis unidades hospitalares de pequena e média dimensão.
Segundo aquele responsável, tal estrutura “dificilmente seria governável” e relembrou que esta decisão viria a reforçar ainda mais os problemas colocados pela existência de um único hospital central de referência: o Hospital de Sta. Maria, em Lisboa
A Ordem acha que as populações a norte dos concelhos de Nazaré e de Alcobaça deveriam ter como hospitais de referência os de Leiria e Coimbra, em vez do das Caldas e o Hospital de Sta. Maria. E acrescentou que manter Nazaré e Alcobaça no novo CHO “já provou não ser adequada aos interesses das populações e à qualidade dos serviços prestados”.
Pedro Coito disse ainda que, se esta proposta avançar, milhares de cidadãos terem que percorrer distâncias da ordem dos 120 quilómetros para realizar exames que poderiam fazer no seu local de residência. Por exemplo, um doente residente numa freguesia a norte da Nazaré ou de Alcobaça, teria que se apresentar em jejum, às 8h30, para realizar análises de sangue no Hospital de Santa Maria …em Lisboa.
Prevê-se a existência de uma única Urgência Médico-Cirúrgica no Hospital das Caldas e esta “teria que ter a capacidade para receber uma afluência de doentes que seria superior à de muitos hospitais centrais de Lisboa ou do Porto”.
Trata-se, pois, “de uma ideia delirante” e que traduz falta de conhecimento por parte de quem produziu a proposta.
Os médicos ainda lamentam “a forma quase ofensiva” como se trata o futuro do Hospital Termal pois consideram que o documento “ignora por completo o carácter único da instituição e a qualidade superior do trabalho ali desenvolvido”.
No entanto a Ordem continua a manifestar a sua inteira disponibilidade para colaborar de forma construtiva na reestruturação em curso dos cuidados de saúde desta região.

“Não cedemos na qualidade dos serviços de saúde”

O bastonário, José Manuel Silva, afirma que a Ordem concorda com a reestruturação dos serviços, sobretudo após a abertura do Hospital de Loures. E apesar de cientes da grave condição financeira que o país atravessa, considera que seria essencial um estudo sobre o impacto no Hospital de Torres Vedras após a abertura da nova unidade.
“Manifestamos a nossa profunda preocupação com esta situação, sobretudo pelo interesse dos doentes”, disse o médico.
José Manuel Silva reafirmou que os médicos estão disponíveis “para apoiar quaisquer soluções técnicas” e lamenta o facto de não terem sido ouvidos na elaboração deste projecto.
A Ordem não quer que os médicos sejam vistos como avessos à mudança, mas diz que esta proposta lhes coloca “sérias reservas“.

A medicina desumanizou-se?

No mesmo dia esteve na sede do Distrito Médico do Oeste o psiquiatra Júlio Machado Vaz, que participou na cerimónia de boas-vindas ao novos internos que estão a trabalhar nesta região. Estão inscritos este ano 25 profissionais internos.
O médico veio às Caldas para reflectir sobre a medicina no século XXI e o seu pressuposto básico que é a relação médico-doente.
“A medicina está muito avançada em termos tecnológicos, mas temos que pensar se queremos ser todos super-especialistas, ter uma medicina praticada por técnicos de Saúde”, disse o convidado, acrescentando que “um médico não pode ser só isso”.
Na sua opinião, o  diálogo com o doente e a cabeceira da cama continuam a ser “os locais privilegiados para se fazer um diagnóstico ou planear um tratamento”.
Júlio Machado Vaz diz que quem vê a série “Dr. House” tem que saber que, “apesar de ser uma série magnífica, que eu nunca perco, o que se faz ali não é medicina”. E reforçou a ideia de que é necessário humanizar-se a profissão que, aos poucos, se desumanizou ao mesmo tempo que a tecnologia avançou.
Júlio Machado Vaz fez a tropa nas Caldas e por isso gostou de regressar à cidade, desta vez para reflectir junto aos seus colegas sobre a importância de ser médico.

Natacha Narciso
nnarciso@gazetadascaldas.pt