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Museu promoveu reflexões no 25 de Abril

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Primeira sessão de trabalho do projeto “Memórias que nos unem” juntou cerca de 80 pessoas no dia 27 de abril Primeira sessão de trabalho do projeto “Memórias que nos unem” juntou cerca de 80 pessoas no dia 27 de abril Primeira sessão de trabalho do projeto “Memórias que nos unem” juntou cerca de 80 pessoas no dia 27 de abril Primeira sessão de trabalho do projeto “Memórias que nos unem” juntou cerca de 80 pessoas no dia 27 de abril

Museu Nacional da Resistência e Liberdade, em Peniche, lançou o projeto “Memórias que nos unem”, dedicado a preservar a História dos familiares dos presos políticos da ditadura

Os pais de Álvaro Pato eram ambos funcionários do PCP (o pai era mesmo membro do Comité Central) e viviam na clandestinidade desde 1947. Álvaro passou o primeiro ano e meio de vida com eles, mas depois foi viver com o avós para Vila Franca de Xira.

Tinha 11 anos quando o meu pai foi preso”, vindo para Peniche, de onde só saiu nove anos depois. “Eu vinha religiosamente quase todos os fins de semana” para o visitar, conta à Gazeta das Caldas, recordando que a viagem demorava quatro horas de autocarro para cada lado, com uma visita de uma hora. “O meu tio Abel tinha um carro e fazíamos o roteiro de ir a Caxias, visitar a companheira do meu pai – que também foi presa, com ele e a minha irmã Isabel -, e depois a Peniche”. Apesar de ser um sacrifício grande, a visita era “um objetivo muito importante, porque mantínhamos viva a relação familiar com os nossos pais”. Desses tempos recorda que “a hora da visita era normalmente conflituosa com o guarda, que não nos deixava falar de outros assuntos que não a bola e assuntos de lana caprina, porque assim que percebiam que a conversa era dirigida para outros fins cortavam a visita”.

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Também se lembra das lutas travadas pelos presos na cadeia pela melhoria das condições de vida, mas também pela visita comum. “No parlatório tínhamos que gritar para ser ouvidos pelo preso que estava do outro lado do vidro e da rede”, lembra, notando que uma das grandes lutas foi precisamente pela realização de uma visita comum anual, pelo Natal, “que permitia um beijo ao familiar, que era algo proibido pela ditadura, não se podia dar um beijo ao familiar que estava preso”, recorda. No seu caso, teve essa possibilidade apenas uma vez em nove anos, quando o pai foi operado, em Caxias.

O seu pai foi libertado em novembro de 1970. “Fui buscar a ordem de libertação a António Maria Cardoso, porque após o suicídio da companheira dele houve um movimento para a libertação do meu pai, com um abaixo-assinado que, só de familiares, contava com 66 assinaturas”. Isto numa altura em que, apesar de ter sido condenado a seis anos e meio, estava preso há nove e “as medidas de segurança iam-se prolongar por mais três anos”. Depois veio a Peniche buscá-lo. “Foi o dia mais feliz da vida dele, de certeza, e um dos mais felizes da minha vida, mas o dia mais feliz da minha vida foi a minha libertação, à meia-noite de 27 de abril de 1974”. É que, apenas quatro anos depois, foi também ele preso político. Em jovem tinha-se envolvido na luta académica como estudante, foi expulso e foi compulsivamente para a tropa, mas ao fim de um ano desertou e passou à clandestinidade como funcionário do PCP. Cerca de um ano depois foi preso na zona do Barreiro. “Estive preso em Caxias 11 meses e, felizmente, não vim para Peniche porque não cheguei a ser condenado, dado que veio o 25 de Abril e fui libertado pelo movimento dos capitães de Abril”, conta. “Há 52 anos, a esta hora, ainda estava preso, fui libertado depois da meia-noite”, recorda. Tinha então 24 anos.

Álvaro Pato foi um dos participantes no Fórum “Memórias que unem”, promovido pelo Museu Nacional de Resistência e Liberdade, no dia 26 de abril. O objetivo é criar um projeto com os descendentes dos presos políticos para preservar as suas memórias. Neste primeiro encontra participaram cerca de 80 pessoas, que alinhavaram ideias de formas de colaboração. Este antigo preso político veio ao fórum veio acompanhado da mulher, filhos, netos (de sete e 11 anos), cunhada e sobrinha. “Queremos que as memórias do que vivemos não se apaguem”, afirmou, elogiando o projeto, que possibilitará “mostrar a realidade do que foi a ditadura fascista, o que foram as prisões de Peniche, de Caxias, do Tarrafal, do Porto, de Angra do Heroísmo e das então colónias”. Até porque “é necessário não apagar estas memórias para que as novas gerações saibam o que é uma ditadura”, que “mata as oposições, o meu tio Carlos morreu em Caxias, na prisão, em 1950, deixaram-no morrer na cela”. Daí que considere que “temos a obrigação, enquanto memória viva ainda, de transmitir às gerações vindouras. que o 25 de Abril fez-se à custa de muitos sacrifícios, de mortos, prisões e torturas, mas que mereceu a pena esse dia de Liberdade da qual continuamos a usufruir”. E, para lhes transmitir, basta contar a realidade que viveram e passar a mensagem de que, apesar de vivermos em Liberdade, esta “não é um dado adquirido, temos que continuar a lutar por ela”

A diretora do Museu, Aida Rechena, explicou que, além dos presos políticos, os familiares têm memórias só deles “e é dessas memórias que o museu precisa”. É que esta unidade museológica “precisa de registar memórias para as preservar para o futuro”, frisa, assumindo que gostava de ter uma biografia de cada um dos presos políticos. “Temos 10 biografias de presos políticos e 12 de filhos, esse é o nosso universo de registo”, fez notar. Mas, além das biografias, pretendem também reforçar o acervo do museu, seja com objetos ou documentos digitalizados. “Este museu tem pouco acervo, temos três pequenos contentores de plástico com 2200 peças, que para um museu não é nada”. Dessas, 900 são pequenos autocolantes pós-25 de Abril e 700 são os livros da biblioteca de presos.
O objetivo é que este seja um projeto participativo e que possa verter-se num livro ou documentário.

Durante o encontro partilharam-se histórias. Há quem tenha apagado da memória aquilo por que passou e outros que arrumaram estas memórias em “gavetas” que causam sofrimento quando se abrem e que, por isso, ficaram fechadas durante anos. A mãe de um dos presos, por exemplo, enlouqueceu com a clandestinidade e o afastamento da família. Alguns partilharam como a vida na clandestinidade afetou a sua personalidade, outros mostraram correspondência, com algumas cartas que nunca foram entregues e que só leram depois da Revolução, na Torre do Tombo. O barulho do ferrolho da porta da prisão é uma memória comum à maioria.

As comemorações do 25 de Abril no Museu Nacional da Resistência e Liberdade incluíram uma conversa entre presos políticos e jovens, um concerto, mas também a celebração do segundo aniversário da inauguração deste equipamento.

Livro sobre A Fuga de 1960
“A Fuga de 1960”, da autoria da historiadora Alice Samara, que retrata a célebre evasão do grupo de presos políticos da prisão de alta segurança no Forte de Peniche, entre os quais o dirigente histórico comunista Álvaro Cunhal, foi lançado no dia 25 de abril pelo Museu Nacional Resistência e Liberdade. O livro, de 128 páginas e escrito em português e inglês, com design gráfico de Gisela Fernandes, aborda em pormenor aquele que foi um dos episódios mais marcantes da resistência ao Estado Novo. Entre a informação inédita está a reprodução das fichas prisionais de cada um dos evadidos, à guarda da Torre do Tombo, a par da entrevista feita em 2021 pelo MNRL a Maria Otília Jorge Alves, filha de José Jorge Alves, o guarda da GNR que foi peça-chave na evasão que abalou o regime ditatorial de Oliveira Salazar. Destaque ainda para a reprodução dos testemunhos sobre a fuga de Domingos Abrantes, Jaime Serra e Joaquim Pires Jorge.

Alice Samara, que colaborou na instalação do MNRL na Fortaleza de Peniche, destacou na ocasião a importância das novas gerações terem a noção do que se passou durante a ditadura e chamou a atenção para o que se passou sobretudo em Peniche, “porque, aqui, não havia uma prisão como as outras”.

A diretora Aida Rechena, que coordenou a obra com uma tiragem de 500 exemplares, revelou que, até final do ano, serão editados mais dois livros: um sobre os 500 anos da história da fortaleza, do ponto de vista arqueológico, e outro infantojuvenil sobre a história da filha de um preso político.

Lançamento do livro sobre a célebre fuga de 1960
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