Sai um café e uma Gazeta para a mesa do canto

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Vários jornais regionais podem ser comprados no coração da capital, desde o mês de novembro

O quiosque de A Brasileira, em Lisboa, passou a vender exclusivamente jornais regionais. A Gazeta das Caldas é um dos dois títulos do distrito da iniciativa que pretende colocar o país à mesa do café

Existe agora, em pleno Chiado, no topo da rua Garrett, uma alternativa à A8 para uma rápida ligação Lisboa-Caldas. Desde 13 de novembro que o histórico café A Brasileira, no coração da baixa, trocou os jornais nacionais e tabaco para passar a vender exclusivamente publicações de imprensa regional — e a Gazeta das Caldas é uma delas. E há dias até o Presidente da República comprou um exemplar de todos os títulos que ali são vendidos.
A entrada é vigiada por Fernando Pessoa, mas é Ernesto Miguel Silva o homem a procurar para, através dos jornais, conhecermos o caminho para qualquer ponto do país. Afinal, são poucos os que conhecem tão bem os cantos à casa como ele. Miguel habita o quiosque de madeira há três décadas, desde que o tio, então proprietário do estabelecimento, o contratou para ali trabalhar depois de o grande incêndio dos Armazéns do Chiado ter deixado o negócio dos pais praticamente sem clientes.
Trinta anos depois de viver rodeado do mundo, Miguel Silva assume-se fã da ideia de estar rodeado por menos títulos, mas mais aconchegado pelo país. “Como a esmagadora maioria das pessoas de Lisboa não é de cá, esta é uma boa maneira de fazer com que estas sintam que as suas costelas estão aqui representadas”, diz à Gazeta, acrescentando que, enquanto bom conhecedor de Portugal, nunca viu nada assim. “É uma ideia completamente inovadora. Vê-se o jornal da região na própria região, mas por exemplo, não vejo o jornal de Arouca à venda no Algarve, não vejo o jornal de Leiria à venda em Trás-os-Montes”, acrescenta.

Regresso ao passado
A conversão do quiosque numa banca de imprensa regional faz parte de uma série de iniciativas que a nova gerência do estabelecimento quer levar a cabo para “fazer da Brasileira aquilo que ela foi no passado: um ponto de encontro cultural”.
As palavras são de Sónia Felgueiras, responsável pelo marketing, que explica que a ideia de passar a vender exclusivamente títulos de imprensa regional surgiu nesse âmbito. “Achámos que havendo um quiosque a 30 metros, maior até, e com capacidade para ter mais diversidade de publicações, não fazia muito sentido, num espaço que, sendo pequenino, é nobre, vendermos jornais nacionais como os outros quiosques. A história d’A Brasileira não é só d’A Brasileira, é do mundo. O fundador era de fora, de Alvarenga, em Arouca, e, na verdade, muitas das pessoas que vivem em Lisboa não são de lá. Achámos que seria muito interessante trazer o país para a Brasileira, pôr o país à mesa do café, e isso seria possível através da imprensa regional que conta histórias que a imprensa nacional não conta, não chega a esse nível de detalhe”, revela
Para já, conta, o primeiro impacto tem sido bastante positivo, mesmo tendo em conta os tempos de restrições vividos em Portugal e, em particular, em Lisboa. São vários os curiosos, os que chegam para ver e os que chegam para comprar com a promessa de um regresso na semana seguinte.
Leiriense de gema, Sónia não esconde o orgulho de ver dois títulos do distrito de que é natural em destaque num dos lugares mais emblemáticos da cidade. “Há aqui uma imprensa paralela que está viva e bem viva e que sobretudo agora, nesta época pós-covid, em que as pessoas, acredito, vão dar mais valor às origens, acho que ainda faz mais sentido dar-lhes a oportunidade de estarem mais próximas de casa”, diz, confessando a sua curiosidade pelos que, tal como ela, se deslocam até à Brasileira para se colocarem a par das notícias do distrito de Leiria.
Provavelmente, serão clientes como muitos outros que chegam para comprar o jornal da sua região e que se perdem a comentar as notícias de lá “com o senhor Miguel, como se ele conhecesse a terra de toda a gente”. “Faz um pólo de conversa de café, literalmente”, sorri. ■ Tomás Albino Gomes