Utente esteve 96 horas em maca num corredor no Hospital das Caldas

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Idosa de 76 anos foi deixada numa maca durante quatro dias

Uma septuagenária entrou no serviço de urgência na sexta-feira e ficou até terça-feira numa maca no corredor da unidade hospitalar caldense

Uma septuagenária entrou no serviço de urgência do Hospital das Caldas da Rainha na sexta-feira, dia 11 de junho, e ficou numa maca durante quase cinco dias. A utente deslocou-se à unidade hospitalar para fazer análises e, dada a falta de potássio, foi de imediato enviada para as urgências. O problema é que, após dar entrada nas urgências, a idosa foi colocada numa maca num corredor do hospital caldense, de onde só acabou por sair na terça-feira, dia 15 de junho. Entretanto, haviam passado quatro dias e quatro noites e a idosa continuava na maca.
À Gazeta, o filho desta idosa disse estar “desesperado”, procurando expor a situação.
“A minha mãe está há 96 horas sem descanso, de um lado para o outro, numa maca num corredor. É uma vergonha e há mais pessoas nessa situação. Isto não se faz”, acusou Tiago Santos.
A idosa queixava-se de não conseguir descansar, com a frequente passagem de pessoas nos corredores, mas também a luz e o barulho constante. Acresce que a maca acabava por ter de ser constantemente movida de sítio.
“A minha mãe é uma pessoa perfeitamente lúcida e apenas está a levar potássio, porque nas análises se percebeu que estava com os níveis baixos. Esta é uma situação que já se arrasta há alguns anos”, esclareceu Tiago Santos, que declarou, ainda, que, provavelmente devido aos constrangimentos inerentes à pandemia, a operação de que a idosa necessita tem-se vindo a atrasar no tempo.
Já há duas semanas a mãe de Tiago Santos deslocara-se ao hospital por causa desta situação e, desta feita, foi novamente necessário aumentar os níveis de potássio da septuagenária.
“Os nervos afetam a tensão dela, que sobe. Depois, com a tensão alta não lhe podem dar potássio”, explicou.
A idosa não podia ir para casa, porque a situação poderia levar a paralisias e a situação torna-se dramática. “Não a posso levar para o privado, porque o hospital não se responsabiliza se ela sair dali”, fez notar.

Tiago Santos já tinha contactado a administração do Centro Hospitalar do Oeste, a própria Polícia de Segurança Pública. 9 O Centro Hospitalar do Oeste serve a população de um total de nove concelhos, porque inclui parte dos municípios de Alcobaça e de Mafra. 10 foi o número de horas que a idosa passou numa maca, no corredor do Hospital das Caldas da Rainha e até o provedor do utente para tentar que a mãe fosse transferida. E foi já na terça-feira, dia 15 de junho, e após uma reunião com a administração da unidade hospitalar, que o filho foi informado de que a progenitora iria ser, finalmente, internada.

“Não tenho razão nenhuma de queixa dos profissionais de saúde, que sei que fazem o seu melhor”, realçou Tiago Dinis, lamentando que existam situações deste tipo e que se deixe chegar o serviço a estes limites.

Questionado pela Gazeta das Caldas, o Conselho de Administração do CHO explicou que “nas últimas semanas, tem-se verificado uma afluência acima da média para a época do ano em causa”. A esse facto acrescem as “dificuldades de disponibilização de vagas de internamento, o qual se encontra condicionado pelas necessidades decorrentes do COVID-19”, o que “tem conduzido a uma acumulação de doentes no Serviço de Urgência”.

A estes fatores junta-se também a obra do Serviço de Urgência, que “tem impacto no espaço disponível”.

Segundo o CHO, “a afluência agora verificada pode decorrer da diminuição drástica da procura verificada no pico da pandemia e no decurso do estado de emergência, com protelamento das deslocações ao Hospital, o que poderá ter determinado um agravamento das situações clínicas”.

Ainda assim, “o Serviço de Urgência nunca esteve encerrado, pois pela missão que desempenha nunca pode encerrar”. O que aconteceu foi que “perante o excesso de doentes acumulados, foi solicitado ao CODU (Centro de Orientação de Doentes Urgentes) o encaminhamento de doentes críticos, transportados pelas respetivas ambulâncias, para outras instituições, de acordo com a necessidade de cuidados dos mesmos”.

O CHO já ativou o plano de contingência do verão, “o qual prevê a ativação de camas de internamento adicionais, de modo a garantir capacidade de resposta tanto ao Serviço de Urgência como ao internamento”.

Em resposta à Gazeta o CHO refere que “apesar das suas limitações estruturais, da pandemia e das obras em curso, o Serviço de Urgência tem feito um claro esforço para responder a todos os utentes que a ele recorrem, com notória sobrecarga diária dos seus profissionais,  com recurso a trabalho extraordinário e a prestadores externos”.

E acrescenta ainda que “pela pandemia Covid e necessidade de garantir proteção de contágio a utentes e profissionais com criação de circuitos independentes, foi imperioso criar dois espaços de urgência distintos– uma urgência geral e outra respiratória – no espaço atribuído à urgência geral. Nos últimos dias, com a aparente diminuição dos casos suspeitos de Covid, o maior afluxo tem sido registado na urgência geral, condicionando desta forma a capacidade de resposta da mesma”.