50 anos de Abril assinalados com teatro no CCC e mostra de arte da Raul Proença

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O público, alunos da Rafael Bordalo Pinheiro, estavam no meio do espaço de atuação.

Uma peça de teatro inovadora e uma exposição de alunos de artes relembraram que Abril é para ser celebrado todo o ano

Quem entrou no pequeno auditório do CCC, a 7 de junho, era convidado a sentar-se no meio da sala, que tinha a plateia de cadeiras recolhida.
Alunos da Secundária Rafael Bordalo Pinheiro encheram o espaço, decorado com mobiliário, livros e documentos de outrora. E quando o espetáculo começa, os atores estão a representar entre os elementos do público, distribuindo-lhes panfletos.
“Em Silêncio” da Kind of Black Box teve cenários, atores e público numa encenação que resultou de textos de Teresa Sobral. A autora incluiu excertos de várias testemunhas e referências a várias fases da história contemporânea portuguesa onde não faltam a história das prisões como o Tarrafal ou do Forte de Peniche, a guerra colonial, os movimentos de independência dos países africanos, a Pide, os presos políticos, a campanha de Humberto Delgado, os movimentos dos estudantes, a luta contra o regime, as fugas a salto, entre tantas outras referências, até chegar à Revolução de Abril.
Há imagens reais que passam numa tela e que intercalam com a arte da representação. O espetáculo também conta com músicos que atuam ao vivo, oferecendo aos espectadores uma experiência para todos os sentidos. A preparação deste espetáculo começou há 10 anos, “quando via os livros de história dos meus filhos que quando se chegava ao Estado Novo era tudo tratado superficialmente”, disse a autora à Gazeta das Caldas. Teresa Sobral decidiu então que iria criar um espetáculo sobre este período do qual mal se fala nas escolas.
A autora falou com historiadores, militares, presos políticos, entre outros protagonistas para criar a peça “Em Silêncio”. Esta já foi apresentada nalgumas localidades e, até agora, “temos esgotado todas as salas!”, disse a autora e encenadora da peça que “toca em quase todos os pontos importantes relativos ao tempo do Estado Novo”. A peça é uma co-produção do CCC, Cineteatro Louletano, Teatro José Lúcio da Silva, São Luiz Teatro Municipal e EGEAC, Lisboa. Teresa Sobral gostaria que o espetáculo fosse visto “por todo o país de modo a lembrar as pessoas do horror que é viver em ditadura”. O espetáculo é apoiado pela DGARTES e pela Comissão Comemorativa dos 50 anos do 25 de Abril.

Arte inspirada em Abril
No sábado, 8 de junho, a Galeria de Exposições do Espaço Turismo, acolheu a mostra “Tecer Memórias” da qual consta instalação, fotografia, desenho, escultura, imagem e vídeo da autoria de alunos do 12º ano de Artes Visuais da Escola Secundária Raul Proença. Ana Militão, a docente que coordenou esta iniciativa, deu aos estudantes o tema da Carta e da importância que tinha a troca de correspondência no período que antecedeu o 25 de Abril.
Os alunos inspiraram-se na vida e obra de Manuel Alegre, pois o poeta conta que, sempre que fazia anos, a sua mãe abria a janela do seu quarto e colocava um ramo de rosas vermelhas numa jarra. Quando o político e poeta esteve preso, abriu a carta da sua mãe pelo seu aniversário, caíram do envelope pétalas de rosas vermelhas. E, por isso, professora e alunos criaram uma instalação, patente na Galeria do Turismo, onde consta a “Trova do Vento que Passa” e vários envelopes em cerâmica de onde pendem as pétalas das flores. As cartas que “levam” boas e más notícias estão bem presentes nesta mostra onde se recorda os que combatiam na Guerra Colonial.
As obras resultam do cruzamento de três disciplinas: Desenho, Oficina de Artes e Oficina Multimédia. A iniciativa, que também assinala os 50 anos do 25 de Abril, está ligada ao Plano Nacional das Artes da Raul Proença.
A mostra “Tecer Memórias” está patente na Galeria do Turismo, até ao próximo dia 28 de junho. ■