Máquinas de António Veiga Leitão expostas no Porto

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Exposição deste autor está patente na Casa Guerra Junqueiro até setembro

Conhecido como “o homem dos papagaios da Foz”, faleceu em 2013, mas tem as suas criações em exposição na cidade Invicta até ao mês de setembro

Conhecido como o homem dos papagaios da Foz, António Veiga Leitão era “um homem singular, até peculiar”. Quem o diz é quem com ele trabalhou. O autor, nascido no Porto em 1929 e que faleceu nas Caldas em 2013, laborou durante 30 anos na Fábrica ROL (antecessora da Schaeffler) como chefe dos Serviços Técnicos/Comerciais. Parte da obra está exposta no Porto até setembro.

António Veiga Leitão na oficina caldense onde dava largas à sua imaginação e onde criava as suas máquinas

Carlos Gouveia, Carlos Branco e Manuela Barroso são três pessoas que trabalharam com António Veiga Leitão e sublinham que se tratava de “uma pessoa afável e muito educada”. Foi o primeiro chefe de Carlos Branco que acrescentou que António Leitão “era um homem de esquerda, exigente no trabalho, sem deixar de se preocupar com os outros”. A mesma opinião é partilhada por Manuela Barroso, que não esquece as festas de Natal da empresa, animadas musicalmente por António Leitão, que tocava serrote.
E Carlos Gouveia contou que, se não fosse a persistência de António Veiga Leitão, teria ficado sem uma viagem de regresso dos Estados Unidos, onde tinha ido ao serviço da ROL, num Natal nos anos 1980.

António Veiga Leitão era um homem singular, muito preocupado com os outros

Dedicou vários anos à pesquisa e à criação de papagaios que lançava na Foz

Um inventor nas horas livres
Era nos seus tempos livres que António Veiga Leitão se dedicava à investigação e à construção de máquinas. Dedicou-se ao desenho, desde o técnico até ao retrato, sem esquecer o desenho de esquemas e mecanismos para a construção de máquinas e engenhos voadores.
Parte desse espólio inventivo está agora patente na Casa Guerra Junqueiro, no Porto, na exposição “Obliquação da Gravidade”, que tem curadoria de Nuno Faria e do artista Filipe Feijão. Este último foi vizinho de António Veiga Leitão e deu a conhecer ao curador o espólio daquele autor, conhecido nas Caldas como “o homem dos papagaios da Foz do Arelho”, dado que era habitual encontrá-lo naquela praia, lançando os seus objetos voadores ao vento.
Nuno Faria, que é também docente na ESAD, ficou “fascinado”com as criações. Com apoio da família de António Veiga Leitão tratou de selecionar as peças para expor no Porto, cidade de onde o “inventor” era natural.

Enquanto programador, Nuno Faria gosta de sondar percursos menos conhecidos. E apesar de António Veiga Leitão não ser um artista “há todo um trabalho artístico no que ele fazia pois sempre desenhou as suas criações”.
No texto sobre a mostra, Nuno Faria afirma que no trabalho criativo deste autor “há um método que é, por um lado, rigoroso e meticuloso, conceptualizado ao extremo, através do cruzamento de diversos campos disciplinares, e, por outro lado, integralmente baseado na artesania, no fazer, na bricolagem e ancorado no culto do detalhe, que por vezes permanece oculto à vista desarmada”.
No universo criativo que António Veiga Leitão construiu “tudo se relaciona com tudo, tudo está ligado por uma lógica de migração de formas, de temas e de símbolos. Nesse sentido, o trabalho autoral “constitui-se como uma espécie de cosmogonia, em que o artista tenta recriar as leis universais que regem as relações entre os seres, não sendo estranho que entre os temas a que mais tempo dedicou estejam a astronomia, a aerodinâmica e a sustentabilidade, através de uma forte preocupação com as energias renováveis (em particular eólica e solar)”.
Para o curador, a exposição “está a ser um verdadeiro sucesso, sobretudo entre os mais jovens” e como tal apesar de inicialmente prevista para terminar em junho, foi decidido prolongá-la até setembro. A mostra integra o documentário “A Máquina” realizado pela neta de António Veiga Leitão, Mafalda Marques. Em 15 minutos é possível conhecer melhor este autor-inventor, ouvindo o próprio. ■