Mestre Tavares ensinou olaria de roda no Cencal

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O mestre Joaquim António Ramalho Tavares iniciou o seu percurso como oleiro há 45 anos, ainda muito novo com o mestre Velhinho, também de S. Pedro do Corval no Alentejo.
No Alentejo havia uma tradição, como nas Caldas da Rainha, da aprendizagem destas técnicas da modelação à roda com os mestres cerâmicos que guardavam os saberes consigo.
Agora, mestre Tavares foi convidado a ensinar as formas tradicionais no Cencal  onde mostrou a 16 formandos como a cerâmica é a área que permite um constante aliar entre a inovação e a tradição.
Presentemente estas acções já não são frequentadas por jovens que abandonavam a escola, como acontecia durante a primeira metade do século passado, mas sim por jovens formados em cursos superiores das áreas criativas ou por profissionais de outras áreas.

“Venho de S. Pedro do Corval [Alentejo] e há 47 anos que trabalho nesta área, aprendi o que sei com o mestre Velhinho, quando tinha apenas 13 anos”. Palavras de Joaquim Tavares que hoje se divide entre o seu trabalho na cerâmica, a homeopatia e o tratamento natural com plantas.
“Correu tudo muito bem, o grupo é muito bom, tenho aqui alunos fantásticos”, disse o ceramista que veio do maior centro oleiro da Península Ibérica onde actualmente existem 22 olarias. Ainda há alguns anos, eram 36.
“Nós, os mais velhos vamos tentando manter as tradições mas não há aprendizes que queiram dar continuidade à olaria…”, disse este autor. Mestre Tavares conversa com Gazeta das Caldas enquanto molda o barro e o coloca na roda. Sem nunca parar a conversa, é com  grande destreza que das suas mãos, começa a surgir uma peça na roda.
“Faço qualquer tipo de peça: desde miniaturas com dois a três centímetros até às grandes talhas”, disse o oleiro que também foi encontrando outras áreas de interesse ligadas às plantas naturais (que o próprio cultiva) e à fisioterapia. “Quando chega alguém que precisa de tratamento, largo a roda e vou tratar da pessoa”, explicou. Joaquim Tavares vê o futuro da cerâmica um pouco sombrio e a crise, “infelizmente, não vai passar tão depressa”. Em S. Pedro do Corval “trabalhamos sobretudo com a cerâmica regional que é a que as pessoas pedem mais. Só que andamos a vender cada vez menos e também há gente menos honesta que depois não paga…”, contou.
Durante esta formação, mestre Tavares ensinou primeiro a centrar o barro na roda – que é um dos primeiros passos a dar por quem  quer aprender olaria. Logo em seguida, trabalha-se  sobre qual é a melhor forma de colocar as mãos no barro, para que possam começar a aparecer as diferentes peças.
Segundo Jesus Sheriff, coordenadora destas acções de formação de cerâmica do Cencal, ao todo participaram nesta 16 formandos. O ciclo de Grandes Mestres Oleiros Portugueses começou no ano anterior e contou já com o próprio mestre Velhinho que ensinou a fazer as grandes talhas, peças de cerâmica que antigamente tinham a função de guardar os cereais.
“Este ano introduzimos uma novidade que foi o desafio ao mestre Tavares pedindo-lhe para utilizar a porcelana na roda”, contou a responsável. O mestre Tavares aceitou a tarefa e todos os formandos estava a trabalhar este material, menos vulgar na olaria, e a produzir interessantes peças oláricas.
“Temos actualmente a decorrer sete acções de cerâmica em simultâneo, logo é um momento muito interessante”, disse a formadora, satisfeita com a actual procura pela formação nesta área. Nos últimos tempos, além dos ceramistas e artesãos, as acções de formação têm também atraído designers, arquitectos, pintores, professores ligados às artes visuais e muitos alunos e ex-alunos da ESAD.cr.
“Retornar à cerâmica”

Veio do concelho de Porto de Mós e, em miúdo, aprendeu a trabalhar com cerâmica. “Depois desisti e agora aos 51 anos estou a pensar retomar a cerâmica, pois fiquei sem emprego”, disse João Santos. Anteriormente trabalhou em fábricas de cerâmica e mais tarde foi motorista. Há pouco tempo voltou a mexer no barro numa Feira Medieval “e vi que ainda não tinha perdido o jeito e resolvi vir aprender um pouco mais”.
Carla Cardoso é professora de Educação Visual e costuma aperfeiçoar os seus conhecimentos sobre cerâmica no Cencal, área que também já leccionou. “Neste momento ainda tenho a esperança de continuar a ensinar”, disse a professora que não foi colocada. Gosta de voltar ao Cencal pois “sou sempre bem recebida”. A docente acha que o mestre Tavares “sabe transmitir o saber que tem, e isso é algo que nem toda a gente consegue”, rematou.
Jorge Carreira estuda na ESAD e é de Guimarães. Fez a licenciatura em Design Industrial e agora frequenta o mestrado em Design de Produto. “Já fiz outras formações no Cencal  de iniciação à Olaria e agora vim aproveitar os conhecimentos com mestre Tavares”, disse o participante de 29 anos, muito interessado em aprender as técnicas tradicionais de cerâmica.
Além da cerâmica, também está a tirar um curso de Marcenaria pois como designer tem interesse em conhecer os vários materiais.
“Estou há cinco anos nas Caldas, a estudar na ESAD e já tirei várias formações na ESAD”. Palavras de Eneida Tavares, 22 anos que veio experimentar a olaria. Também está a tirar marcenaria e uma outra acção de cerâmica. “Quanto mais ferramentas tivermos, mais independentes podemos ser”, disse a jovem que se encontra a frequentar mestrado na escola de artes caldense.
“Há 28 anos que trabalho em cerâmica e como tenho a intenção de trabalhar ao vivo no Algarve, venho aperfeiçoar conhecimentos”, disse Helena Sousa que tem o seu atelier próprio em Leiria. Além da ter frequentado várias acções no Cencal também aprende no pólo da Marinha Grande onde tem feito trabalhos de recuperação onde une a cerâmica e o vitral.

Natacha Narciso
nnarciso@gazetadascaldas.pt