No Moledo acontece um casamento perfeito entre a arte e a história

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No espaço de uma década, a arte de rua ajudou a dar nova vida a uma pequena aldeia da Lourinhã. A história do amor de Pedro e Inês é visível em várias peças artísticas espalhadas pelas ruas de uma localidade que, de repente, está a ganhar uma nova vida

Esta bem podia ser uma história de amor, até porque termina num casamento perfeito. Na última década, a arte e a história passaram a fazer parte da paisagem natural da pequena aldeia de Moledo, que, através de um projeto de intervenção cultural e social, tem vindo a ganhar uma nova vida, com o incremento do turismo e o crescente interesse de forasteiros em adquirir habitação.
Reza a lenda que foi em Moledo, onde D. Pedro I teria uma Casa de Caça, que D. Inês Castro terá tido três dos quatro filhos do amante. Passados tantos séculos, esse amor proibido continua a suscitar interesse. E nesta pequena localidade do concelho da Lourinhã as marcas dessa paixão estão bem visíveis, através de instalações que a retratam através da arte.

A aldeia tornou-se num verdadeiro centro artístico, exibindo um circuito de escultura e arte pública que não deixa ninguém indiferente, além de uma programação cultural regular, que resulta, em grande parte, da simbiose que os artistas conseguem produzir com a população local.
“Trabalhamos muito com a comunidade”, assevera João Leirão, um alentejano de Évora que, em 2010, aterrou no Moledo para auxiliar uma colega de mestrado a completar uma obra. Gostou tanto da aldeia que acabou por ficar na Lourinhã. E também devido ao amor, já que por ali casou. Mas ficou, sobretudo, por amor ao que encontrou.
“A aldeia estava num processo de degradação acentuado”, mas um protocolo da Junta de Freguesia com a Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa “permitiu começar a fazer renascer a aldeia”, recorda o escultor, aludindo ao projeto de arquitetura que foi, então, desenhado e que “acabou por ficar na gaveta”, porque custava um milhão de euros e estávamos em plena intervenção da troika.

“Nos últimos anos, temos visto muita gente a visitar e a comprar casa na aldeia e até nos arredores. Isso é reflexo da atividade cultural intensa que tem sido desenvolvida”

João Leirão

O projeto procurava evitar a desertificação e, apesar de não ter sido possível de concretizar, abriu caminho a uma alternativa: os alunos de mestrado em escultura pública de Belas Artes foram, então, convidados a vir para o Moledo fazer residências artísticas, cabendo à Junta oferecer estadia, oficinas e materiais.
A parceria vei a revelar-se muito frutuosa. E os impactos já se fazem sentir, a diversos níveis.
“A instalação de algumas peças permitiu limpar certas áreas da aldeia e, nalguns casos, permitiu até mostrar rochas antigas e outros espaços”, assinala João Leirão, o curador ou programador do Moledo, que não esconde o contentamento pelos impactos da atividade cultural de uma aldeia que, ainda assim, mantém a identidade própria.
“Há uma ligação muito forte com a população, que recebeu os artistas de braços abertos. Muitas vezes são os próprios funcionários das serralharias que trabalham as peças dos artistas e isso demonstra como a parceria tem surtido efeitos”, nota o funcionário da Câmara Municipal da Lourinhã, que já conhece praticamente todos os habitantes da localidade. E até os estrangeiros, que ali decidiram instalar-se.
“Nos últimos anos, temos visto muita gente a visitar e a comprar casa na aldeia e até nos arredores. Isso é reflexo da atividade cultural intensa que tem sido desenvolvida”, advoga o alentejano de sotaque carregado, que explica que “no espaço de dois anos, a aldeia ganhou uma oferta de 50 camas no alojamento local”, o que é “muito significativo” para uma aldeia com pouco mais de 400 habitantes.
“Estamos com grande expetativa para ver o que dizem os novos Censos, porque permitirá comprovar esta tendência de aumento populacional”, nota o artista.

Arte de rua
Num território que ainda apresenta vestígios do Neolítico Superior e com tantos atrativos, a Câmara da Lourinhã decidiu mostrar o Moledo, no passado sábado, aos participantes do roteiro imersivo no concelho no âmbito da Rede Cultura 2027 Leiria. E quem participou não pôde disfarçar a surpresa ao deambular pelas ruas de uma aldeia que apresenta inúmeras peças alusivas a Pedro e Inês, um amor vivido ali bem perto, na Serra d’El-Rei e que está perpetuado nos imponentes túmulos no Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça.
As instalações são assinadas por alunos da Faculdade de Belas-Artes de Lisboa e também da Escola Artística António Arroio, bem como de artistas convidados. Estão inseridas em edifícios, alguns em ruínas, ou espaços públicos da aldeia, sendo resultado de residências artísticas que culminam numa rota de arte urbana.
Há, ainda, outros apontamentos que merecem uma nota, como os trabalhos de Martinho Costa, artista que reside nas Caldas da Rainha, e que pega em fotografias icónicas de Artur Pastor e, depois, pinta essas imagens em papel nas paredes, mesmo nalgumas paredes em ruínas. E nem a chuva destrói o trabalho.
Esta é mais uma prova, tal como defende João Leirão, de que “a arte pode transformar uma terra”. Moledo é, sem dúvida, um bom exemplo para esta tese.

Vereador João Serra valoriza “projeto de cidadania”

João Serra, vereador do Turismo e Competitividade da Câmara Municipal da Lourinhã, olha para a intervenção no Moledo como “um projeto de cidadania”, que começa a dar frutos, mas que tem ainda muito por crescer.
Para o autarca, foi possível construir na última década um projeto “com uma evolução da base para o topo, onde as parcerias têm um papel essencial”, o que “muito honra” a autarquia.
“Neste caso, podemos dizer que a cidadania influenciou positivamente os órgãos de decisão e hoje em dia continuamos a pugnar pela melhoria do projeto”, frisa o autarca, dando como exemplo a instalação de audioguias na aldeia.
O vereador destaca, por outro lado, o facto de a temática Pedro e Inês ter passado a fazer parte das prioridades da Câmara, o que resulta da leitura que a intervenção no Moledo acabou por ter no território na ação da autarquia. Porém, João Serra observa que este sucesso “não pode ser dissociado” da importância que o Dinoparque tem representado para a Lourinhã e par todo o Oeste.

Autarca da Lourinhã destaca o facto de no Moledo ter sido implementada uma estratégia com evolução da base para o topo, onde as parcerias têm um papel essencial

“Queremos catapultar isto para outro nível, trazer mais pessoas à região, mas sobretudo dar mais qualidade de vida aos residentes, ganhar coesão territorial e que as pessoas passem a gostar do seu cantinho”, sublinha o autarca, notando que os habitantes “estão hoje mais ligados ao seu território precisamente devido à cultura” e essa é uma conquista que deve ser, agora, exponenciada.
“Nos últimos três anos, foi no interior do concelho que tivemos mais crescimento no alojamento local e esse é também um sinal que não podemos descurar”, frisa João Serra, para quem a região deve trabalhar em conjunto, com projetos como o Geoparque do Oeste, por forma a que todos os concelhos “possam sair a ganhar” com uma estratégia concertada no turismo.
“Somos mais do que sol e mar. A paleontologia traz muitos milhões e somos a capital dos dinossauros, mas queremos mais. E o Oeste tem a ganhar com esta diversidade, porque quem vem à Lourinhã também vai às Caldas ver Bordalo e esse é um vetor importante de desenvolvimento”, sustenta o vereador.