Silos, a cativar criativos há 10 anos e a querer expandir para novos espaços

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Nicola Henriques é o mentor deste projecto de ateliers por onde já passaram 340 alunos da escola de artes caldense | Natacha Narciso

O Silos Contentor Criativo celebra a primeira década. Ao todo já passaram pelos ateliers daquele projeto que dá um novo uso a um edifício industrial em pleno centro da cidade

Há dez anos, o Silos Contentor Criativo surgiu como projeto académico da disciplina de Design de Ambientes. Um dos mentores, então aluno daquele curso da ESAD, Nicola Henriques, acabou por ficar ligado à iniciativa até à atualidade, tendo deixado a sua outra vertente profissional, o ensino da Educação Física. Uma década depois, conta que se dedica aos ateliês “a 120%” e acrescenta que este é um projeto muito “mãos na massa” em que o próprio espaço “se vai adaptando às necessidades de quem nele trabalha”.
Longe vão os primeiros dias da iniciativa, iniciada em 2010, em que o edifício industrial foi inicialmente ocupado por um grupo de 20 alunos. Estabeleceram-se em sete ateliês que assinalaram o início de uma segunda vida do edifício da Moagem Ceres, que laborou naquele local, entre 1966 e 2003.
Os primeiros seis meses foram de experimentação e ficaram “felizes com coisas como a instalação da internet num espaço que não laborava há perto de uma década”, disse Nicola Henriques, recordando que antes da instalação do Contentor Criativo este espaço tinha aberto as portas apenas para a realização de exposições de finalistas da ESAD.
O que o grupo inicial fez foi “a criação de um território de sonho”, disse o coordenador deste projeto, pelo qual já passaram 340 alunos da ESAD.

“Um dos principais objetivos deste projeto é a fixação de criativos neste território”

São muito poucos os que ficam apenas três meses a trabalhar naquele local que é o tempo mínimo de duração do contrato. O período médio de permanência é de nove meses, “mas são vários os que se mantêm três e até quatro anos a laborar neste espaço”, esclarece o responsável.
Atualmente, os cinco dos oito pisos do Contentor Criativo albergam 21 ateliês que têm, em média, 25 metros quadrados.
Os preços do arrendamento cifravam-se nos 150 euros mensais mas conseguiram baixar o valor “para os 105”, referiu o mentor, explicando que dentro de um mês passarão “a ter um total de 26 espaços de trabalho”.
E quem trabalha actualmente nos Silos? “Alunos que estão a frequentar a licenciatura, os que já a terminaram e que estão a entrar em mestrado”. Outros formaram-se noutras paragens e “depois vêm desenvolver trabalho para cá”, contou o coordenador. Somam-se ainda estudantes que, por causa da covid, tiveram que regressar às Caldas e que encontraram nos Silos um espaço de trabalho. Alguns acabaram, até, por optar por integrar os mestrados da ESAD.

“Há projetos que nascem nos Silos e que regressam de forma autónoma”

Ao longo de uma década, diz o coordenador do projeto, o trabalho “tem valido a pena” e são várias as entidades com quem os Silos estabeleceram parcerias: a incubadora Partnia, instalada num dos pisos, assim como a ESAD, a Câmara, as Uniões de Freguesias e a Misericórdia.

Covid obriga a adaptações
Por causa da pandemia, o projeto teve que se adaptar. A área de co-work foi transformada em estúdios individuais.
Uma parte da atividade dos Silos estava relacionada com os eventos e que, neste momento, estão suspensos. E por causa da covid-19 não há concertos, peças de teatro, performances nem conferências.
“Optámos por realizar alguns eventos em espaço público como uma simbólica largada de balões em forma de agradecimento aos profissionais de saúde” disse Nicola Henriques, acrescentando que se fizeram ainda exposições de fotografia na praças da Fruta e do Peixe.
Nos Silos Contentor Criativo há atualmente um estúdio musical, ateliês de várias áreas. Ali trabalham artistas plásticos, arquitetos, elementos que trabalham em teatro, em design gráfico, em cerâmica e vidro, em design de produto, cerâmica e modelação e em ativação social.
“Somos uma plataforma que pretende fixar criativos neste território”, sintetizou o promotor, acrescentando que não são “uma incubadora de negócios” e também não são “um projeto académico”. “Ou seja, estamos a meio caminho”, disse.
Para Nicola Henriques é importante que os criativos “façam parte da estratégia da própria cidade de modo a fixarem-se neste território”. Inclusivamente alguns dos projetos que nasceram no Contentor Criativo acabam por se autonomizar e regressar àquele edifício. Além disso, tem o espaço envolvente onde antes se encontravam instalados laboratórios e anexos da própria fábrica de moagem e que, neste momento, se transformaram em espaços de produção de várias áreas. A Vícara, por exemplo, pertenceu ao Contentor Criativo, esteve em Leiria e agora regressou aos Silos. Dedica-se à comercialização de produtos de designers que vivem e trabalham na região e alcançam públicos internacional.
O Silos Contentor Criativo também trabalha com alunos do programa Erasmus e com redes internacionais de trabalho voluntário com a Work Away.
“Em novembro do ano passado tivemos 16 voluntários de vários países que vieram trabalhar connosco nos Silos para melhorar as condições de quem aqui trabalha”, contou o mentor, explicando que vieram da América Latina e de vários países da Europa, tendo trocado trabalho de melhoria do espaço por dormida e alimentação. “Pertencemos a uma rede de turismo criativo e há três anos que a integramos desenvolvendo projectos”, contou o coordenador explicando que não faltam iniciativas que relacionam novas tecnologias, estágios, programação cultural e ativação social que serão apresentados em breve.

Expandir para a cidade
Está ainda previsto o regresso do Bazar à Noite, iniciativa de venda de design e artesanato que teve sete edições “muito bem sucedidas e que não podem cair no esquecimento”. Está prevista para voltar a decorrer no espaço urbano das Caldas antes do Natal. “Sentimos que este é um momento em que nos estamos a preparar para acrescentar a esta estrutura física mais-valias”, disse Nicola Henriques.
No próprio espaço prevê-se a instalação de mais uma unidade de restauração que será uma cantina criativa que se destina a suprir as necessidades que os nossos residentes. O espaço vai aliar refeições rápidas com programação cultural.
“Estamos a explorar a possibilidade de fazer crescer o projeto para mais um espaço físico”, disse Nicola Henriques, que prefere não revelar localizações. Explica, no entanto, que o Silos Contentor Criativo “quer crescer mais na malha da cidade” e conta para tal com os parceiros.

O projeto ocupa cinco dos oito andares da antiga moagem Ceres | DR
O arrendamento dos ateliers, de 25 metros quadrados, custa 105 euros por mês | DR