O três em um da Sociedade Musical e Recreativa Obidense: banda, orquestra ligeira e orquestra juvenil

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A Banda do SMRO no auditório municipal da Casa da Música | Beatriz Raposo

Celebram o 64º aniversário em Julho, mas há registos de actuações desde 1885. Hoje a banda da Sociedade Musical e Recreativa Obidense (SMRO) tem 50 elementos, dos 10 aos 70 anos. Além da banda, a colectividade apresenta uma formação para orquestra ligeira e outra para orquestra juvenil. A frequentar a Escola de Música encontram-se 35 alunos.
Com uma agenda preenchida de actuações, a SMRO destaca-se ainda pelas actividades que proporciona aos seus músicos. E que vão além fronteiras: nos últimos dois anos viajaram até Espanha e Itália. A tudo isto junta-se uma entrada em 2016 em grande, com a gravação do primeiro álbum da Banda e a conquista de prémios no concurso de bandas Ateneu Artístico Vilafranquense.

Os ânimos do ensaio estão mais exaltados que o costume. Aproxima-se o concurso Ateneu Artístico Vilafranquense e a banda quer fazer mais (e melhor) do que há dois anos e levar Óbidos ao pódio. Feito que, semanas mais tarde, acabaria mesmo por alcançar e logo em dose dupla: no dia 8 de Maio, a filarmónica da SMRO recebeu o Prémio Tauromaquia e o 2º lugar na Prestação Sinfónica da 3ª Categoria em competição.
A assistir ao ensaio estão meia dúzia de pessoas, entre eles Fernando Simão, que ainda há cinco anos se encontrava do outro lado, atento aos gestos do maestro. Aos 86 anos, recorda com lucidez a data da sua primeira aula de solfejo. Estávamos em 1943 e, nesse tempo, a banda era o único entretenimento de quem morava na aldeia. A televisão estava a 10 anos de distância e em Pinhal não existiam cafés. “Vinha a pé até Óbidos, por um caminho que não tinha luz nem estrada e onde às vezes havia desacatos entre os músicos de Óbidos e A-da-Gorda”, conta o antigo trompetista, que ainda hoje acompanha a banda para todo o lado.
Nascido numa família numerosa (oito irmãos), Fernando Simão passava o dia a trabalhar na fazenda. Em dias de actuação podia vestir uma roupa mais bonita e a mãe preparava-lhe um farnel especial. “É que em minha casa comia-se sopa, peixe frito e sardinha assada”. Da primeira vez que tocou numa festa Fernando também não se esquece: foi na Roliça, tinha 15 anos.
Oitenta e cinco porcento dos músicos da banda tem familiares na banda. Até há bem pouco tempo tocavam lado a lado três gerações da família Pereira. O avô Américo, o filho Carlos e o neto Luís. Faleceu o primeiro, há menos de um ano. “Hoje os miúdos têm sorte porque podem conciliar a banda com as academias e os conservatórios. Quando entrei para a banda, há 38 anos, era o meu pai quem ensinava todos. Das 17h às 19h a nossa casa transformava-se numa escola”, recorda Carlos Pereira. Na memória guarda ainda o concerto mais marcante: a primeira vez que Luís se estreou na bateria e pai e filho actuaram em conjunto.
Quando o saxofonista integrou a filarmónica, os instrumentos dos músicos mais antigos passavam para os mais novos, numa altura em que os instrumentistas não recebiam o mesmo por actuação (hoje, a banda actua de graça e o dinheiro vai para os cofres da colectividade). “Preferimos amealhar em conjunto para depois podermos fazer bons passeios, como as vezes em que fomos a Valência e Staffolo”, diz.

Um maestro novo e cheio de ideias

Carlos Pereira descreve João Raquel como “um rapaz novo, que chegou à banda há dois anos e apresentou um repertório espectacular”.
Assim que assumiu o comando da filarmónica, o maestro prestou-se a escutar as opiniões dos instrumentistas e lançou novos desafios, desde a participação em concursos de bandas à gravação de um CD ou viagens ao estrangeiro. “É muito importante estimular os músicos a fazerem coisas novas pois é isso que os mantém motivados”, explica João Raquel, salientando que a banda toca um pouco de tudo (música clássica, pop, ligeira e até… heavy metal). A apresentação de temas portugueses tem sido outra forte aposta deste colectivo.
Bernardo Rodrigues, presidente da SMRO, destaca que uma das medidas mais corajosas levadas a cabo pela recente direcção foi precisamente a contratação de um novo maestro. “Uma decisão difícil mas que fez parte do novo espírito da sociedade, que quer inovar, fortalecer a união de grupo, melhorar as condições de trabalho e assegurar que, além de uma casa de música, é também um local em que os músicos têm acesso a experiências culturais únicas”. Como exemplo, Bernardo Rodrigues destaca as vezes em que a Orquestra Juvenil participou em visitas culturais e organizou piqueniques antes das actuações. “Alguns dos jovens não teriam tido estas oportunidades se não pertencessem à banda”, frisa.
A Sociedade Musical e Recreativa Obidense apresenta três valências: uma banda e duas orquestras. Sem esquecer a Escola de Música, onde os aprendizes aprendem as primeiras notas. Da escola pulam para a orquestra juvenil, desta para a banda e da última para a orquestra ligeira. Antes de ficarem “efectivos” passam por um processo de estágio. Há ainda um quarteto de saxofones.
“Mas atenção, não é por um músico integrar a banda que deixa de actuar imediatamente na orquestra juvenil”, exemplifica o maestro, sublinhando que “não existem rivalidades nem preferências por nenhuma das valências”.
Para João Raquel, a componente social da SMRO é tão ou mais importante que a sua vertente musical. É que, segundo o maestro, os melhores músicos em conjunto são aqueles que, fora dos palcos, são também grandes amigos.
Na orquestra juvenil, o repertório é comprado em função do gosto dos aprendizes e não do maestro. “Tocamos o que eles gostam, como Adele, Lady Gaga, Queen ou Deep Purple”, refere João Raquel.

Rivalidade saudável entre bandas

Tal como no futebol, também nas bandas filarmónicas se conhecem rivalidades. Principalmente dentro do mesmo concelho. Na opinião de Bernardo Rodrigues, as bandas de Óbidos comunicam cada vez melhor, promovendo-se antes uma “rivalidade saudável”. “Vê-se que existe maior abertura, que nos damos de forma mais descomplexada e esse respeito é muito bom”, sublinha.
É meia noite e chegamos ao final do ensaio. O mais normal é que alguns dos músicos fiquem por mais um tempinho, aproveitando para beber um copo, comer umas pevides ou simplesmente pôr a conversa em dia. O ambiente vivido entre todos – rapazes e raparigas, jovens e menos jovens – é de amizade, havendo a certeza que o grupo é tanto melhor devido à qualidade individual de cada um dos músicos e que cada um dos músicos é tanto melhor por pertencer à banda.

trombone copiar

Trombone

Pertencente à família dos metais, consiste num longo tubo de três segmentos e que tem numa das extremidades o bocal e na outra uma campânula. Existem dois tipos de trombone: o de pistão, em que o som é regulado por válvulas, e o de vara, no qual um mecanismo deslizante controla a emissão sonora.
As suas principais características são um tubo cilíndrico cujo diâmetro se mantém constante ao longo de toda a sua extensão, uma extensão mecânica que produz o encurtamento/alongamento do tubo principal (nos trombones de vara) e uma campânula que, no caso dos trombones de vara, se estende proporcionalmente com a parte articulada numa proporção de 1/3.
Os 3 tipos de trombone mais utilizados são os trombones alto, tenor e baixo e destes o tenor é o mais comum.