José Correia – Chegou o carteiro

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• 79 ANOS
•  CASADO, 4 FILHAS E 3 NETOS

notícias das Caldas
“Não invejo o trabalho dos meus colegas de agora. As relações hoje são mais impessoais.”

Conheço as ruas, travessas e becos desta cidade que vi crescer. Acompanhei a expansão do Bairro da Ponte e do Bairro dos Arneiros, vi a Encosta do Sol a alargar-se e surgirem os novos bairros a nascente, a poente, a norte e a sul. Conheço as ruas e houve um tempo em que até conhecia as pessoas que nelas moravam e os números de polícia. Um tempo em que eu calcorreava a cidade com o saco na mão, à chuva e ao sol, às vezes com água a entrar no pescoço e a sair nos calcanhares, outras a transpirar e a desejar que o giro acabasse para entregar a última carta e voltar à estação dos correios.
Fui carteiro até perfazer 35 anos e três meses de serviço. Reformei-me com 66 anos em 2003. Se me perguntarem se tenho saudades, direi que sinto a falta da camaradagem entre os colegas, de uma profissão que hoje já não é igual, mas da qual sempre me orgulhei.

Eu era para ser sapateiro, mas afinal fui para carteiro. Nasci em 31 de Janeiro de 1937, no Casalinho, no concelho de Rio Maior, mas perto da fronteira com o concelho das Caldas. Fiz a 1ª classe na escola da Mata, mas depois fui acabar a primária na Moita de Alvorninha. Não quis estudar. O meu pai era caseiro na Quinta das Quebradas (freguesia de Alvorninha) e passei a ajudá-lo.
Aos 15 anos vim para as Caldas aprender o ofício de sapateiro na oficina do Zé Pequeno, ali na rua do Cais (hoje rua Adelino Soares de Oliveira). Mal sabia eu, quando lá entrei, que ele viria a ser o meu sogro pois, quatro anos mais tarde, casei com a filha dele, a Maria Alice Santos, com quem tive quatro filhas.
Na altura, o aprendiz de sapateiro que era eu ainda foi trabalhar um ano para a oficina da sapataria Félix, mas entretanto eu tinha-me inscrito nos correios e de vez em quando chamavam-me para distribuir cartas quando algum carteiro faltava.

O MEU PRIMEIRO GIRO

Em finais de 1958, tinha eu 21 anos, consegui entrar para os CTT como carteiro supranumerário. Ainda não pertencia ao quadro, mas já trabalhava todos os dias. Até aos domingos! Porque como o meu giro era de sete horas e a semana era de 48 horas, eu fazia distribuição do correio ao domingo.
Lembro-me do meu primeiro giro: começava na Rua Alexandre Herculano, ia para a Rua Diário de Notícias, atravessava a Mata para o Avenal e acabava no Bairro Albano. O correio chegava-nos por volta das nove da manhã quando passava o comboio-correio. Traziam os sacos com os objectos postais desde a estação de caminho-de-ferro e nós abríamo-los, dividíamos tudo por giros e depois cada carteiro subdividia o seu giro por ruas e números de porta.
Depois ala para a rua e não podíamos regressar à estação enquanto não entregássemos as cartas todas. Naquele tempo os carteiros estavam sujeitos a uma disciplina que era quase militar. Nem podíamos ter um botão desabotoado! Uma farda para o Verão, outra para o Inverno. Mas no tempo do frio e das chuvas nem uma capa tínhamos direito. Apanhei muitas molhas e havia dias que ficava encharcado dos pés à cabeça.
Fui a exame para carteiro efectivo em 1959 e em Julho de 1960 passei ao quadro como carteiro de 3ª classe. Ganhava à volta de 750 escudos (3,75 euros). Tinha-me casado um ano antes e lembro-me que pagava 180 escudos (90 cêntimos) de renda de casa.
Em 1969 pedi uma licença ilimitada, que era uma coisa a que os funcionários públicos tinham direito. É que os correios naquela época eram do Estado e não passava pela cabeça de ninguém que um dia viriam a ser um negócio privado.
O emprego era duro e eu ganhava 50 escudos (25 cêntimos) por dia. Cá fora fui para chauffer de táxi e já ganhava 70 escudos (35 cêntimos) ao dia. Depois fui trabalhar para a loja de electrodomésticos do Horácio Tomé onde já me pagavam 100 escudos (50 cêntimos) escudos por dia. E como a gente gosta sempre de ganhar mais, acabei por me empregar na Matel, a fábrica de cassettes, onde trabalhava da meia-noite às 8h00 e me pagavam 150 escudos (75 cêntimos) por dia.
Mas depois deu-me na cabeça e em 1972 fui para a Alemanha. Estive lá quase quatro anos a trabalhar numa fábrica de alumínios em Grevenbroich entre Colónia e Dusseldorf. Quis levar para lá a minha mulher e as minhas filhas, mas como ela não quis ir, acabei por regressar.
Dois anos antes tinha-se dado o 25 de Abril.  Soubemos pelos alemães que na fábrica comentavam com os portugueses que tinha havido qualquer coisa, mas nós não sabíamos muito bem alemão. Só à noite, na televisão, é que percebemos o que tinha acontecido.
É verdade que o 25 de Abril influenciou a minha decisão de regressar. Em 1977 voltei para os CTT. Agora ganhávamos mais, tínhamos mais direitos, os trabalhadores eram mais valorizados. Respirava-se mais liberdade do que nos tempos em que aquilo era quase uma disciplina militar.
Nunca saí das Caldas. Até me reformar, em 2003, esta estação de correios foi sempre o meu posto de trabalho. Se bem que, na verdade, a maior parte do meu trabalho era feito na rua (com excepção de um curto período antes da reforma em que ajudava as chefias na logística).
Também foi entre 1977 e 2003 que vivi o maior período de mudanças nos Correios. Começou logo com a separação entre a distribuição e o atendimento ao público. E depois passaram o tempo a fazer reestruturações, a mudar as chefias. Enfim…

A PÉ 24 QUILÓMETROS POR DIA

No meu regresso à vida de carteiro uma das primeiras coisas que fiz foi comprar uma moto para não ter de fazer a pé o giro de S. Gregório e Fanadia. É que havia percursos a pé levados da breca. Por exemplo, em 1969 cheguei a fazer um giro apeado de 24 quilómetros. Saía das Caldas da Rainha direito ao Coto, passava pelos Casais da Ponte, Salir de Matos, Guisado, Barrantes. E depois voltava para trás, passava por Salir de Matos para abrir a caixa do correio lá na tasca e vinha acabar o giro nos Casais da Serralheira. E éramos quase obrigados a saber o nome das pessoas todas nas aldeias porque não havia nomes de ruas nem números de porta.
Vinte e quatro quilómetros a pé todos os dias. Felizmente não ia muito pesado porque naquele tempo levávamos para aí umas 30 ou 40 cartas para aquele giro. Mas também vendia selos, recolhia cartas, fazia registos, recebíamos textos para telegramas… Um carteiro era um autêntico posto de correios ambulante.
Por isso, na década de setenta passei a andar de mota, mas a expensas minhas porque só anos mais tarde é que os CTT passaram a pagar aos carteiros uns quantos cêntimos ao quilómetro.
Em 1977 o correio para as Caldas já vinha num camião desde o Entroncamento. Mais tarde passou a vir de Lisboa. Em 1978 foi quando introduziram o código postal, para as máquinas em Cabo Ruivo (Lisboa) poderem ler o correio. Assim os objectos postais já chegavam cá em caixas divididas pelos respectivos códigos e era mais fácil separar o correio. Em 1998 acrescentaram mais três dígitos ao código postal para se poder fazer a separação por giros.
De todas as mudanças a que assisti nesta empresa, algumas já depois de reformado, a que mais me fez confusão foi a privatização dos CTT. Se afinal a empresa até dava lucro e proporcionava dividendos ao Estado, ou seja, a todos nós, porque foram vendê-la?
Ainda por cima os serviços pioraram muito. Hoje só olham para o correio azul, correio verde, correio expresso. O correio normal quase foi posto de parte. Hoje uma carta em correio normal chega a demorar cinco ou seis dias de Lisboa para as Caldas. Antigamente, antes destas invenções, a maior parte do correio em Portugal demorava um dia a chegar ao destino.
Também é certo que os tempos são outros. Hoje já quase não há cartas escritas à mão. É tudo correspondência institucional, das empresas. Por isso a chegada do carteiro também já não é tão desejada como antigamente, como é descrita naquela canção do António Mafra “Chegou o carteiro”.

OS AEROGRAMAS DA GUERRA COLONIAL

Lembro-me na altura da guerra colonial quando distribuíamos os aerogramas dos soldados às mães e às namoradas. A ansiedade e a alegria com que os recebiam!
Uma vez entreguei um aerograma a uma rapariga e quando ela foi a abri-lo, como eram feitos com um papel muito fininho para pesarem pouco, descobriu que estava outro aerograma colado. Foi a ver e esse também era do namorado, mas dirigido a outra. Ela disse-me ‘isto fica entre nós e eu vou tratar do assunto’. Ela acabou o namoro, a senhora já faleceu e eu nunca contei a ninguém quem era.
No Natal a correspondência então era um pandemónio. Eram malas e malas de cartas e nós trabalhávamos fora de horas para poder entregar tudo. Às vezes até tinha de me chegar com os envelopes aos postes de iluminação pública para poder ler os endereços. Num fim de tarde de Dezembro, já era de noite, toco à campainha de uma casa para entregar uma carta e aparece-me uma senhora com um fervedor porque pensava que era o leiteiro (naquele tempo vendia-se o leite na casa das pessoas). Eu disse cá para mim: ‘É pá! Vai mais é para casa, que isto já não são horas de andar a distribuir correio’.
Quando comecei a trabalhar havia dois advogados nas Caldas. Sei-o bem porque eles recebiam muitas cartas. Eram o Dr. Asdrúbal Calisto e o Dr. Ataíde Correia (que até fez parte da Assembleia Nacional). Também havia meia dúzia de médicos na cidade, que recebiam muita propaganda dos laboratórios. Mas o maior utente dos correios dos Caldas era o Thomaz dos Santos – recebíamos e expedíamos todos os dias uma mala com correspondência da firma. A SEOL (Sociedade Eléctrica do Oeste) também tinha muitas cartas e, claro, às sextas-feiras a Gazeta das Caldas.
Não posso dizer que tenho saudades dos dias de chuva, em que eu chegava do giro completamente encharcado, com água a escorrer desde a cabeça até aos pés. Ou dos dias de Verão em que palmilhava quilómetros a carregar a mala. Mas tenho saudades da malta que trabalhava comigo. Em 1959 éramos só nove. Quando me reformei éramos mais de 30. E, no entanto, hoje uma pessoa vai aos correios e fica lá horas à espera de ser atendida. Ainda noutro dia, quem tirasse uma senha, tinha cem pessoas à frente.
Não invejo o trabalho dos meus colegas de agora. As relações hoje são mais impessoais.
Dantes o carteiro, apesar de trabalhar muito, ainda tinha tempo para dar dois dedos de conversa na aldeia com os utentes. Mas hoje em dia um carteiro atravessa uma aldeia e ninguém dá por ele.
Depois de me reformar passei uns dias um bocado difíceis. Foram muitos anos de actividade. Depois acostumei-me: passei a ler os jornais, inclusive a Gazeta das Caldas, a ir mais vezes ao café e a dar uns passeios de bicicleta. Hoje vou ao ginásio com regularidade. Como sempre tive uma vida muito activa, a andar quilómetros todos os dias, faz-me bem este exercício que faço pelo menos três vezes por semana.

notícias das Caldas

Chegou o carteiro
Manhã cedo segue a marcha
sempre na mesma cadência
e lá vai de caixa em caixa
metendo a correspondência
para uns são alegrias
para outros tristezas são
o carteiro não tem culpa
é a sua profissão

Chegou o carteiro
das nove p´ras dez
a vizinha do lado
de roupão enfiado
chegou-se à janela
em bicos de pés
e logo gritou:
“Traz carta p´ra mim?”
e o carteiro que é gago
espera um bocado
e responde-lhe:
“Não não não não não
não não não trago nada
só só só só só
só trago o pacote
da sua criada”

(refrão)

E o sr. Roque desespera
pelo vale que nunca vem
vai sentindo infelizmente
como faz falta o vintém
para uns são alegrias
para outros tristezas são
o carteiro não tem culpa
é a sua profissão

(refrão)

Quando o carteiro se atrasa
os protestos são em coro
as garotas ansiosas
por notícias do namoro
para umas são alegrias
para outras tristezas são
o carteiro não tem culpa
é a sua profissão

(refrão)

Conjunto António Mafra