Sonho cor-de-rosa de João segue vivo e contagiante

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Dário Almeida e Patrícia Gonçalves junto aos troféus que o filho já conquistou, incluindo esta camisola de campeão nacional | Joel Ribeiro

O sonho cor-de-rosa de João Almeida continua no Giro D’Italia e já provoca um contágio geral. Gazeta das Caldas foi conhecer as raízes do ciclista e perceber como está a família a viver este momento

Encerrámos esta edição da Gazeta das Caldas na terça-feira e este foi, até então, o dia mais espetacular de João Almeida no Giro D’Italia, apesar do jovem de 22 anos já levar a mítica camisola rosa no dorso há seis etapas consecutivas.
Após o dia de descanso da semana, os principais candidatos à vitória atacaram na última subida do dia, mas depois de ter passado algumas dificuldades na etapa 9, João Almeida respondeu em grande nível. Além de defender, atacou e acabou até por ganhar tempo à concorrência, mostrando que a precoce liderança da Deceuninck Quick-Step não é fruto do acaso, nem a forma como atacou a corrida desde o seu início é fogacho de um jovem sedento de mostrar valor, é mesmo a de um ciclista muito promissor a mostrar todo o valor que tem e a querer afirmar-se numa das melhores provas do mundo. É preciso não esquecer, como próprio João Almeida fez questão de relembrar várias vezes, esta é a primeira corrida de três semanas que faz e as reações que terá a partir do décimo dia serão uma incógnita, mas enquanto as pernas responderem, já não há dúvidas que o objetivo do ciclista caldense será a apontar ao topo.

Desde novo, sempre a bicicleta
João Almeida nasceu nas Caldas da Rainha, em agosto de 1998, filho de Patrícia Gonçalves e Dário Almeida. No ambiente familiar, o ciclismo não esteve muito presente, embora todos gostem de andar de bicicleta e o pai até goste de assistir às provas.
Mas o gosto de João Almeida sempre se inclinou para as duas rodas movidas a pedais. A mãe conta que teve a primeira bicicleta por volta dos 8 anos, “era cor de laranja, do Action Man” e que João sempre gostou de andar. Nas férias com os avós, a presença da bicicleta era obrigatória. E quando passou para o quinto ano, pediu aos pais para não o levarem à escola de carro, porque preferia ir de bicicleta. “Era algo que como mãe, não me deixava tranquila, mas era perto. Há uma pequena ladeira que era preciso subir para chegar à escola e uma das auxiliares depois até me dizia que ele chegava menos cansado que os colegas que iam a pé”, recorda Patrícia Gonçalves. Era já um sinal da capacidade que João Almeida viria a evidenciar para andar de bicicleta a outro nível.

“Há uma pequena ladeira que era preciso subir para chegar à escola e uma das auxiliares dizia-me que ele chegava menos cansado que os colegas que iam a pé”
Patrícia Gonçalves

Foi por volta dos 12 anos que convenceu os pais a experimentar o downhill. “Ela era franzino, ainda é, eu disse-lhe que era melhor experimentar outra modalidade do ciclismo”, recorda Dário Almeida. Mas o conselho só foi ouvido após uma queda mais dura.
A passagem para o ciclismo de BTT e estrada chegou através da Ecosprint. Contudo, longe estavam de pensar os pais que aquela escolha fosse tão acertada em relação ao futuro do filho. “A ideia não era isto, era para ele se divertir, estar fora de casa e ter convívio social, até porque em Portugal muito poucos conseguem ser profissionais de ciclismo”, refere Patrícia Gonçalves.
Quando passou para a estrada, a capacidade demonstrada moldou os sonhos de João Almeida, que passou a ter a mira focada em tornar-se profissional, e já com uma equipa em mente. “O sonho foi sempre a Quick-Step, ficou muito contente quando surgiu a oportunidade”, agora está a viver o sonho e a fazer sonhar todos os portugueses.

A-dos-Francos de rosa
Não é só a família de João Almeida que está orgulhosa do que o ciclista está a fazer em terras transalpinas. A Junta de Freguesia de A-dos-Francos lançou um repto aos fregueses, e a todos os munícipes caldenses, para vestirem as casas com adereços cor-de-rosa nas janelas, ou nas varandas, e tirarem fotografias que possam ser partilhadas pela Junta, de modo a chegarem ao jovem ciclista, como forma de apoio.

João Almeida iniciou-se no ciclismo na equipa caldense Ecosprint | DR
Único cadete da Ecosprint, mudou-se para o CC José Maria Nicolau, do Cartaxo | DR
De regresso ao Oeste abraçou nos juniores o projeto do SCE Bombarralense | DR
O fim da equipa bombarralense levou-o para a Bairrada, para ARC Roriz | DR
A entrada nos Sub-23 levou-o para Itália, para a Unieuro Trevigiani-Hemus | DR
No ano passado passou para a Hagens Berman-Axeon,júnior team da Deceuninck | DR
No primeiro ano de profissional, ainda com 21 anos, passou à Deceuninck Quick-Step | DR
Quase todo o percurso de João Almeida tem associadas as camisolas de campeão nacional e da seleção nacional | DR

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


“Mostrou potencial desde o início”

José Pedro Fernandes é um venezuelano estabelecido nas Caldas da Rainha e foi o primeiro a aperceber-se do enorme talento de João Almeida. Nunca teve dúvidas de que chegaria longe e acredita que o melhor ainda está para vir.
José Pedro Fernandes viu a dar os primeiros passos a aspirante de ciclista ainda quando João Almeida tentava a sorte no downhill e convidou-o para integrar aa equipa caldense Ecosprint, da qual é o promotor.
“Desde o início mostrou ter potencialidades”, diz José Pedro Fernandes.
O técnico recorda as longas conversas com os pais sobre o seu enorme potencial. “Eles não acreditavam”, exclama.
O treinador destaca em João Almeida o jovem educado, bom aluno, o atleta inteligente, humilde e trabalhador. “A personalidade do atleta é importantíssima, ele trabalha muito e tem todo o mérito do percurso que está a fazer”, sublinha.
Um dos episódios que mais impressionou José Pedro Fernandes foi a conquista do primeiro título de campeão nacional, em 2014, no escalão de cadetes. “Ele estava no pelotão e havia uma fuga com cerca de 5 minutos de avanço. A dada altura o João saiu, passou o grupo intermédio, ninguém conseguiu apanhar-lhe a roda, apanhou o ciclista que ia sozinho na frente e ganhou. Foi impressionante”, recorda.
A necessidade de crescer levou João Almeida para outros clubes, mas nunca esqueceu as raízes. A oficina de José Pedro Fernandes recebe a visita do pupilo com frequência, e as conversas antes das provas são frequentes.
José Pedro Fernandes confidencia que, na véspera do contrarrelógio de arranque do Giro, João Almeida lhe disse a hora a saía e para ficar atento. “Percebi que ele ia dar tudo”, exclama.
Habituado a esperar o melhor de João Almeida, sem limites, o treinador não tem dúvidas que isto é só o começo. “Vai dar muitas alegrias a Portugal”, afirma.
O técnico acredita que João Almeida irá motivar outros jovens a seguir a modalidade e acrescenta que António Morgado pode seguir-lhe os passos.

José Pedro Fernandes descobriu João Almeida e levou-o para a Ecosprint | DR