DOP Óbidos valorizada com ligação a Lisboa

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Algumas das marcas mais antigas que ainda são comercializadas pela Companhia Agrícola do Sanguinhal

Mudança em 2009 da Estremadura para a Comissão Vitivinícola de Lisboa trouxe impulso aos vinhos de Caldas, Óbidos, Bombarral e Cadaval

Os vinhos com DOP (Denominação de Origem Protegida) registaram na campanha 2019/2020 uma das mais produtivas dos últimos 10 anos, com um volume que só é superado pela excecional campanha de 2011/2012.
A produção obtida a partida da produção vinícola de 2019 ficou muito próxima de atingir os 4 mil hectolitros, o que representou um aumento de 33,2% em relação à campanha anterior, na qual não chegou aos 3 mil hectolitros.


O tipo de DOP Óbidos mais produzido é o tinto ou rosado, que representam cerca de 58% do total, enquanto os brancos representam cerca de 42%.
O resultado das campanhas depende muito das condições climáticas, que influenciam tanto a quantidade de uva produzida, como a qualidade do néctar a que dão origem. Mas é notória a aposta que os produtores locais estão a fazer na qualidade dos seus vinhos.
A campanha 2019/20 foi, assim, uma das mais produtivas dos últimos cinco anos, superando em 6 hectolitros a de 20015/16. Desde então, a produção de DOP Óbidos tinha caído em três campanhas consecutivas, sobretudo ao nível dos tintos e rosados.
A produção de vinhos brancos na região manteve-se equilibrada e até com um aumento (11,9%) na campanha de 2017/18, na qual, ao contrário do que é habitual, foi mesmo superior à dos vinhos tintos e rosados.
Já a evolução dos tintos tem sido mais inconstante e, depois de uma quebra de 38,5% na campanha de 2018/2019, corrigiu nesta última campanha com um aumento de 83,9%.
Alargando o período de análise à última década, apenas por uma vez a campanha de 2019/20 foi superada, com os 5125 hectolitros produzidos em 2011/12. Esse foi outro ano em que a produção de brancos superou a de tintos.
Nesta última década, a campanha menos produtiva foi a de 2013/14, com 2365 hectolitros.
Os DOP Óbidos são produzidos numa área geográfica que abrange parcialmente os concelhos de Óbidos, Caldas da Rainha, Cadaval e Bombarral, sendo estes dois últimos aqueles em que a produção é mais significativa. E, neste momento, constituem a segunda maior região a produzir vinho no âmbito da Comissão Vitivinícola da Região de Leiria, estrutura que provém da mudança de nome da Região da Estremadura para Lisboa. À boleia de nova legislação, os vinhos da região passaram a ser certificados pela Comissão Vitivinícola da Região de Lisboa, criada em 2009, o que se tornou vantajoso para os vinhos produzidos nas Caldas da Rainha, Óbidos, Cadaval e Bombarral, mas também para os vinhos de outros concelhos do Oeste, nomeadamente Alcobaça, também de grande tradição, incluída na DOP “Encostas D’Aire”.

Algumas das marcas mais antigas que ainda são comercializadas pela Companhia Agrícola do Sanguinhal

Espaços carregados de história produzem vinho de qualidade inegável

Bons exemplos
A Companhia Agrícola do Sanguinhal (Bombarral) é a mais antiga empresa da região a vinificar. Proprietária da Quinta do Sanguinhal, é gerida pela família Pereira da Fonseca e, além das vinhas, tem recantos que a diferenciam, como as caves de envelhecimento.
A entidade é proprietária da Quinta do Sanguinhal e produz, também, os vinhos das Quintas das Cerejeiras e de S. Francisco, que representam mais de 90% dos vinhos DOC Óbidos engarrafados até hoje e vendidos em Portugal e em mais de 15 países.
Carlos Pereira da Fonseca, sócio-gerente e neto do fundador da Companhia Agrícola, aplaude a “mudança” dos vinhos da região para Lisboa. “Foi um sucesso”, afiança o empresário, destacando o que considera ser uma região “muito rica do ponto de vista agrícola”.

Um dos vários vinhos regionais de Lisboa produzidos pela Quinta do Gradil (Cadaval)

Produzindo duas dezenas de vinhos, a Companhia Agrícola do Sanguinhal é um nome incontornável no setor e o Quinta das Cerejeiras Grande Reserva 2018 – Branco foi, de resto, considerado pelo crítico Aníbal Coutinho, o melhor vinho branco produzido na região de Lisboa em 2020. O vinho obteve, ainda, a medalha de ouro no Concurso de Vinhos do Crédito Agrícola e da Associação dos Escanções de Portugal.
Ali bem perto, no Cadaval, a Quinta do Gradil é outro espaço carregado de história e ligação ao vinho. Propriedade do grupo Parras Wine, a empresa levou a cabo uma operação de rebranding, integrada num investimento orientado para o futuro da empresa. Este trabalho envolveu um levantamento histórico, que protege para memória futura a ligação ao vinho. A investigação permitiu ficar a saber da ligação aos Marqueses de Pombal, de que até agora pouco se sabia, para além da existência da pedra de armas que remete para a família Marquês de Pombal e que está afixada no frontão da fachada principal do icónico palácio amarelo.
A Quinta do Gradil está situada no concelho de Cadaval, ocupando uma área de 200 hectares dos quais 120 plantados com vinha. As mais antigas referências à quinta remontam a 14 de fevereiro de 1492, razão pela qual a empresa decidiu, na operação de renovação da imagem corporativa que levou a cabo no final do ano passado, passar a ostentar aquele número no logótipo.
O grupo fatura 50 milhões de euros/ano e tem diversificado a atividade, investindo em vinhas no Alentejo, mas também em Alpiarça. “Temos os melhores vinhos na relação qualidade/preço e conseguimos juntar bom tempo, boas praias, enoturismo, gastronomia e bons vinhos”, considera Luís Vieira. proprietário do Parras Wines.

Da terra e da vinha

A Casa Agrícola Nicolau, no Cadaval, tem 20 hectares de vinha

Outra das entidades de referência no concelho é a Casa Agrícola Nicolau, uma empresa familiar dedicada à produção de vinhos desde 1980, que possui 20 hectares de vinha e 15 hectares de pomares.
Dedica-se, também, ao enoturismo, tal como sucede com a generalidade destes espaços emblemáticos da região.
Outro desses espaços é a Quinta da Várzea da Pedra, no Bombarral, gerida pelos irmãos Alberto e Tomás Egídio, que se dedica ao vinho e à fruticultura, ou não fosse esta uma região de excelência para a produção de Pera Rocha do Oeste e Maçã de Alcobaça. Mas hoje é de vinho que falamos e, por isso, aproveite e beba com moderação o néctar dos deuses que nesta região se produz com décadas de sabedoria de famílias ligadas ao setor. ■