Os comboios fantasma da linha do Oeste

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Comboio
É uma automotora desta série que liga cinco vezes por semana Caldas a Coimbra, mas que não pode ser utilizada por passageiros

De segunda a sexta-feira a CP faz circular dois comboios entre Caldas da Rainha e Coimbra que vão vazios e que se justificam por necessidade de rotação do material. Gastam gasóleo, pagam taxa de uso (portagem ferroviária), levam maquinista e revisor e até dariam ligação a outros comboios da linha do Norte, mas a empresa não admite que levem passageiros.

A CP chama-lhes “marchas especiais”. São comboios previstos no seu horário interno e realizam-se de segunda a sexta-feira entre Caldas e Coimbra. O horário, na verdade, é pouco apetecível: o ascendente sai depois das 21h30 das Caldas e chega a Coimbra antes da meia-noite e o descendente sai daquela cidade por essa hora e chega às Caldas à 1h45 da manhã.
Mas atenção: qualquer destes comboios permitiria boas ligações a Aveiro e Porto, bem como ao comboio internacional para a Beira Alta, Salamanca, Madrid, País Basco e fronteira francesa de Hendaya. Das Caldas para qualquer um destes destinos, bastaria uma única mudança em Coimbra.
Por outro lado, para o Porto, o último comboio em horário comercial sai das Caldas às 16h15. Convenhamos: dava jeito que o das 21h30 não fosse um comboio fantasma e pudesse também levar passageiros.
Em sentido contrário o comboio que chega às Caldas à 1h45 permitiria que o último Alfa Pendular que sai do Porto às 20h47 lhe desse ligação em Coimbra. Assim, da Invicta para as Caldas o último comboio continua a ser às 17h45.
Então por que não transforma a CP estas duas marchas em comboios regulares com serviço de passageiros?
Eis a resposta da empresa: “as marchas existem por necessidade de rotação das unidades UTD 592 – se este material deixar de fazer serviço na Linha do Oeste, as marchas deixarão de ser necessárias. Nessa circunstância, caso fossem transformadas em comboio com serviço de passageiros no período em que estão em vigor, integrando o horário comercial, ainda que a procura registada não o justificasse, seria sempre complicada a sua supressão. Além disso esta conversão implicaria a existência de paragens comerciais adicionais aquelas que actualmente são feitas no regime de marcha, reavaliação do canal de circulação, pelo que o actual horário seria necessariamente alterado.”
É certo que a procura àquela hora seria sempre reduzida, mas a verdade é que qualquer receita para a empresa, ainda que reduzida, constituiria um ganho. Vejamos os custos.
A CP tem de pagar o ordenado ao maquinista, mas também ao revisor que, mesmo sem passageiros, tem de fazer parte da tripulação do comboio (por imperativo regulamentar).
Além destes custos fixos, há os varáveis. Uma Unidade Tripla Diesel da série 592 gasta cerca de 225 euros em gasóleo entre Caldas e Coimbra. E a CP tem ainda de pagar a taxa de uso (portagem ferroviária) à Infraestruturas de Portugal (antiga Refer) que é de 0,85 euros por quilómetro até Bifurcação de Lares e de 1,91 euros por quilómetro daí até Coimbra, o que perfaz 136 euros.
Quer isto dizer que estes comboios vazios (um em cada sentido) custam à CP, por dia, pelo menos 722 euros (14.440 euros por mês). Por isso, por poucos que fossem os passageiros, qualquer receita seria bem vinda (além de que tal fomentaria também um eventual acréscimo de receita na linha do Norte).
Contudo a CP diz que “a análise da viabilidade e pertinência de transformação de marchas técnicas em comboios comerciais, nos vários pontos do país, não pode ter por base unicamente o factor dos custos  que já lhe estão associados”.
E com estes argumentos a empresa amputa-se a ela própria de ter mais uma ligação de ida e volta entre Caldas e Coimbra e com boas ligações à linha do Norte.