Democracia pandémica ou pandemia ademocrática?

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Fernando Mora Ramos
encenador e diretor do Teatro da Rainha

A pandemia vulgarizou o estado de emergência, a suspensão das liberdades banalizou-se — por necessidade, acreditamos. Se por um lado medidas extraordinárias tornadas ordinárias são profilácticas, por outro a suspensão de direitos fundamentais, socialmente vitais, introduz uma perversão no sistema cujas consequências não podemos medir — se um nascido pós abril nada sabe do fascismo, como temos visto, submerso numa cultura dominante centrada em insignificâncias lúdicas, imaginemos um nascido em democracia pandémica instituída? Que cabeça será a sua? Esta é a forma do futuro próximo? Se as grandes narrativas que faziam sonhar mundos melhores estão hibernando, a pandemia é a chegada de um tempo de gestão apocalíptico, uma negação de qualquer futuro, o peso de um presente regressivo e opressor destrutivo de toda a individualidade e intimidade — o teletrabalho é o fim dessa liberdade no espaço íntimo que já antes a televisão destruía, há décadas, pelos modos da sua programação e estatuto de veículo de tráficos, pela centralidade que ocupava nos espaços domésticos, religião vencedora e voz privilegiada de comércio ideal.

Se políticas públicas são a libertação deste estado, como já observámos, o modo como certos privados lucram com o que vai acontecendo, também com a cumplicidade desta governação de cabotagem, mostra que o sistema, no meio da entropia — controlada —, lucra onde pode lucrar, basta ver os empórios farmacêuticos e a economia nova gerada pelo desastre. A vida económica que se afunda afunda-se, o capitalismo não é de afectos, o sistema gera nova formas de exploração e desigualdade de modo sistémico, é por isso que é sistema.
O fim do mundo parece estar aí, como Beckett previu no seu Jogo do fim, mesmo que a devastação nuclear se tenha convertido num inimigo invisível que acorda em nós para liquidar o nosso sistema imunitário e a vida.
A grande questão, hoje, das liberdades, passa por sabermos que só reforçando o poder da ciência na decisão política, neste contexto de hipercontrolo policial e desnorte, poderemos reaver a possibilidade de um exercício das liberdades que, na democracia pré pandemia, já sofria desvios de qualidade evidente no ambiente que se respirava no que a faz mapear e transparecer, a sua pele mediática — a vida duplamente confinada agora nas paredes da casa e no espaço dos ecrãs o que será? Que democracia resistirá a esta pandemia e porventura às que aí vêm? Que fazer? ■

José Aurélio
Grito
Bronze
1971