
António José Correia
Ex-Autarca
Há histórias que começam antes de qualquer pódio, antes de qualquer campeonato, antes até de qualquer reconhecimento. Começam em casa. Começam com pais que acreditam.
Hoje, quando olhamos para o surf português ao mais alto nível, há um dado que merece reflexão. Na época de 2026, pela primeira vez, na elite mundial da World Surf League, Portugal está representado por duas atletas: Francisca Veselko e Yolanda Hopkins.
Duas mulheres. Nenhum homem.
Mais do que uma curiosidade, este facto revela uma transformação profunda. O surf no feminino ganhou espaço, visibilidade e reconhecimento. Mas esse caminho não se fez sozinho. Fez-se com talento, com persistência, com equipas técnicas competentes e, quase sempre, com o apoio decisivo das famílias.
Em outubro de 2016, na praia de Supertubos, em Peniche, durante uma etapa da World Surf League, participei na apresentação de um livro infantil da autoria de Filipa Leandro. Integrado na coleção “Vem Surfar com a Pipa, Jaime e Kika”, o livro ligava o universo das crianças ao mar, ao surf e aos sonhos.
À nossa volta estavam famílias, jovens, surfistas, comunidade. E, entre eles, uma jovem que começava a dar os seus primeiros passos nas ondas. Hoje, essa jovem — Francisca “Kika” Veselko —, filha da autora, compete ao mais alto nível mundial.
Também no percurso de Yolanda Hopkins encontramos esse suporte essencial. Filha de um pai profundamente ligado ao mar, cresceu entre praias e ondas, num ambiente onde o oceano fazia parte da vida quotidiana. Com o apoio da família, e com grande determinação, construiu o seu caminho, combinando essa base com uma forte autonomia, que a levou a procurar as melhores condições para evoluir e competir ao mais alto nível.
Mas estas não são apenas histórias de talento. São, sobretudo, histórias de acompanhamento, de estímulo e de presença. São histórias de pais.
No caso do mar e do surf, isso é ainda mais evidente. São atividades que exigem tempo, disponibilidade, confiança e, muitas vezes, sacrifício familiar. Mas são também espaços de crescimento, de liberdade e de construção de carácter.
Em Peniche, ao longo dos últimos anos, foi possível criar um verdadeiro ecossistema ligado ao surf. Um clube local particularmente ativo tem desempenhado um papel fundamental, sendo hoje um dos parceiros mais dinâmicos do Centro de Alto Rendimento de Surf. E, por aqui, também, com um forte envolvimento dos pais.
Quando famílias, escolas, clubes e instituições trabalham em conjunto, criam-se condições para que o talento possa emergir e crescer. E é assim que se constroem percursos de excelência.
Hoje, quando vemos jovens portugueses a afirmarem-se no panorama internacional, devemos olhar não apenas para o resultado, mas para todo o caminho que os trouxe até aqui — um caminho feito de apoio familiar e de oportunidades criadas no território.
Num tempo em que tantas vezes se valorizam resultados imediatos, importa reconhecer estes processos longos, silenciosos e persistentes. Porque é neles que se constrói o futuro.
Entretanto, de 22 de outubro a 1 de novembro, em Peniche/Supertubos, na 11.ª e penúltima etapa do circuito mundial, se tudo lhes correr bem — como esperamos e desejamos —, as nossas Yolanda e Kika aqui estarão a competir. Será uma oportunidade única para conhecermos ainda melhor o seu surf, o seu percurso e a sua história de vida.
Toca a agendar!







