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Uma caldense na Torre do Tombo

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Joana Beato Ribeiro
Arquivista

Há muito que procuro informações sobre uma senhora ilustre da minha freguesia. Vi-a muitas vezes nas fotografias de casamento dos meus pais. Era admirada por ambos, especialmente pelo meu pai, que só muda de tom para falar de um pequeno conjunto de pessoas: a minha bisavó “Sansa”, a minha tia Joana, os meus avôs, o seu padrinho e a “Super (Homem)”.

Esta foi a alcunha de Deolinda Margarida Ribeiro (1920-1999) que perdurou na cidade. Foi a primeira (mulher) caldense a concluir uma licenciatura, em Ciências Histórico-Filosóficas em Coimbra, com a tese “A Acção da Rainha D. Leonor na Vida Portuguesa”, mas o seu percurso profissional ainda revela surpresas.

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Nascida no Chão da Parada, onde viveu quase toda a vida e para onde fez questão de voltar, foi emancipada pelo pai em 1940 e rumou a Coimbra, de onde data de 1941 a primeira carta que mandou a Fernando da Silva Correia. Até 1945 fala do curso, do cansaço dos exames, do “descontentamento geral” com os pontos e solicita a interceção em seu nome junto dos professores, a maioria conhecidos deste antigo aluno de Coimbra, como é o caso de Joaquim de Carvalho. A escolha da rainha D. Leonor para uma investigação mais aturada, pode ter sido influenciada por este seu mecenas, a quem Deolinda ofereceu os seus préstimos como paleógrafa, com vista a decifrar o manuscrito de Jorge de São Paulo, pois “teria ensejo de aperfeiçoar e desenvolver os conhecimentos” que, com gosto, adquirira no curso.

Licenciada, começou rapidamente a procurar colocação no Ensino Técnico, esperando que o “toque mágico” de Fernando da Silva Correia lhe garantisse trabalho, pois valorizava a independência financeira. Em 1946, conseguiu colocação na Covilhã, onde demorou a habituar-se “aos usos e costumes da gente e ao aspecto estático, pesado e triste da paisagem.” Sentiu como nunca “saudade do mar” e só a surpreendeu “A neve [que] apareceu nos píncaros, como se uma chuva de pétalas de flores brancas lhes viesse emprestar, com a sua cor e os seus perfumes, um pouco de beleza e de alegria.”

Dois anos depois, estas dificuldades não estavam ultrapassadas, sentindo especial “amargura pela maneira como os altos poderes tratam uma classe” – a dos professores. Considerava-os “votados ao ostracismo”, após largos sacrifícios para garantir a aprendizagem e o exercício de uma profissão nobre.

No início da década de 1950, a correspondência menciona cargos na Torre do Tombo e na Biblioteca Nacional, que levariam Deolinda a afastar-se temporariamente da docência. Entrou em 1955 como terceira conservadora no arquivo nacional, cargo de que pediu exoneração em 1961, quando iniciou um estágio na Escola Comercial Patrício Prazeres, em Lisboa. Procurou incessantemente voltar às Caldas, lecionando em vários lugares, como o Externato Ramalho Ortigão e a Escola Bordalo Pinheiro. No Chão da Parada recorda-se bem a sua proximidade com a terra.

Aos seus tempos na Torre do Tombo, parece relacionar-se a obra “Assembleia de Mulheres” de Natália Nunes (1964) e a personagem Conceição da Encarnação. A autora foi também conservadora desse arquivo entre 1957 e 1968, o que leva a pensar que foi essa instituição que lhe serviu de inspiração. O livro faz um retrato desse “mulherio, essas «doutoras»” que estavam a “invadir” o mercado de trabalho. Conceição da Encarnação, provinciana – “até parece que ainda traz uma crosta de terra agarrada à pele…” -, envergava “um fato prático autenticamente de homem”, calçava “sapatos de sola de borracha” e não escondia o seu «vício dos livros».

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