A festa da História está de volta a Óbidos e continua a atrair milhares de visitantes

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A animação é garantida por diversos grupos participantes, oriundos de vários pontos do país

Até domingo celebra-se em Óbidos o casamento entre D. Afonso e Dona Urraca, o mote desta edição do Mercado Medieval. Música, torneios, encenações e gastronomia levaram à vila aproximadamente 75 mil pessoas nos primeiros quatro dias de evento.

De férias na região, Cláudia Sousa e André Duarte escolheram a tarde do passado sábado para “mergulhar” na História no Mercado Medieval de Óbidos. Junto à tenda das aves admiravam as corujas, falcões, mochos e até urubus que, familiarizados com a multidão, mantinham-se imóveis à curiosidade dos visitantes. O casal já tinha visto parte do torneio, que ainda decorria, e preparava-se para descobrir mais curiosidades do passado neste evento “com muita diversidade e, sobretudo, uma aposta no rigor do que seria a vivência daquela época”, comenta André Duarte. O jovem casal, oriundo da região do Porto, já tinha ouvido falar do mercado e considera que, apesar de considerar “alto” o valor do bilhete (10€), a “oferta é muito grande e variada, aliada a um cenário natural que, só por si, vale a pena uma visita”.

Diariamente há demonstrações de cetaria (arte de treinar aves para a caça), muito utilizada na Idade Média

Enquanto seguiam caminho rumo à cerca, Francisco Salvador, que por estes dias é D. Francisco da França, continuava a apresentar o torneio medieval e a avaliar qual o melhor cavaleiro… ainda que muitas vezes indo contra a vontade do público. Os torneios são compostos por combates a cavalo e apeados. Se os primeiros imprimem um maior impacto e ação, os segundos traduzem-se num “confronto direto e o povo gosta disso”, conta o mestre de liça. A anteceder os torneios há demonstrações e convidam o público para experimentar, por exemplo, o peso da espada e a fazer alguns movimentos, e depois há demonstrações de cetaria (arte de treinar aves para a caça), muito utilizada na Idade Média.
Francisco Salvador, agora participante mas que foi o responsável pela criação do Mercado Medieval em Óbidos, quando desempenhou funções de adjunto do presidente da Câmara, Telmo Faria, revela que este é o seu “evento predileto, é quase como se fosse um filho”. Por outro lado, sente que as pessoas estão sedentas de estar juntas e participar em convívios. “Quando, nas apresentações, digo que é tão bom voltar, depois de dois anos afastados por causa da peste, as pessoas batem palmas, é um sentimento geral, o querer conviver”, salienta.

A tecedeira Maria da Lã aproveita o material proveniente da tosquia

Ainda do lado de fora da cerca, encontra-se uma das novidades desta edição, o mercado da lã, que se desenvolve desde a ovelha até à curtição das peles, o aproveitamento do leite para queijos e da lã para fios de várias cores. Adélia Duarte é Maria da Lã, a tecedeira que aproveita o material proveniente da tosquia, limpa-o e enrola-o em fios. À Gazeta das Caldas conta que o que sabe, aprendeu a ver a mãe fazer, nos seus tempos de criança e vivia numa aldeia, com ovelhas, cuja lã era aproveitada para fazer as suas vestes. “Ainda tenho meias feitas pela minha mãe, que agora são uma relíquia, assim como uma peça de linho da sua última semeadura”, lembra, enquanto enrola os fios e vai explicando o processo aos curiosos que param frente à sua banca. Este é um dos espaços dinamizados pelos “Ofícios com história”, entidade formadora e curadora desta edição, que conta com 20 mestres e ofícios, uma granja com mais de 20 animais e uma equipa de 50 animadores de rua oriundos de vários pontos do país.

Escultura de três toneladas

O escultor Carlos Oliveira a trabalhar ao vivo

Na edição, que tem como grande enfoque o casamento entre D. Afonso e Dona Urraca de Castela, a monarca está em destaque na peça de grandes dimensões que está a ser feita ao vivo pelo escultor Carlos Oliveira. Ao todo, pretende utilizar três toneladas de barro no busto que contará com cerca de 2,8 metros de altura. Na soalheira tarde de sábado, o artista tinha de molhar o barro com frequência para o conseguir trabalhar, uma dificuldade de quem “trabalha na rua”, mas que não o desmotiva, antes desafia. Por esta altura já tinha utilizado perto de 1900 quilos de barro na peça, cuja estrutura foi feita em madeira e depois levou uma primeira camada de barro e palha, que é uma fibra natural. No final, quando estiver terminada, vai levar uma outra camada, com barro, estrume de vaca, óleo de peixe e óleo de linhaça, que funciona como isolamento natural, permitindo-lhe perdurar no local o máximo tempo possível, como um marco deste medieval e um novo local a visitar. Para além do trabalho artístico, Carlos Oliveira passa também muito do seu tempo a explicar o que faz e como o faz, divulgando a sua arte.
O Cortejo dos Penitentes, a Romaria de São Sebastião e os acampamentos militar, civil e religioso são outras das novidades deste mercado, dedicado às “Festas, Romarias e Peregrinações”, animado por cerca de 350 figurantes, distribuídos por 12 grupos de música, 10 de teatro, seis de dança e quatro de artes circenses.
A edição deste ano envolve um investimento de 400 mil euros. De acordo com a organização, nos primeiros quatro dias de evento, cerca de 75 mil pessoas deslocaram-se à vila, entre pagantes, munícipes, convidados e visitantes. A maioria dos visitantes (cerca de 75%) são portugueses, mas também há bastantes brasileiros, espanhóis e turistas oriundos dos países asiáticos. Tendo em conta o retorno “extremamente positivo” que tem sentido, o presidente da Câmara, Filipe Daniel diz que é “expectável ter o evento totalmente cheio no último fim de semana”. Deixa, por isso, a sugestão para que os visitantes possam deslocar-se ao evento com a devida antecedência, de modo a usufruir desta recreação histórica com calma e em segurança. ■

 

Produtos da Lagoa e segredos gastronómicos são “prato forte”

Mais de duas dezenas de coletividades dão “vida” às tabernas e tascos do evento, que envolvem cerca de 600 voluntários

Os comensais têm mais de duas dezenas de tabernas à escolha com o melhor da gastronomia da região

Mais de duas dezenas de coletividades aproveitam o Mercado Medieval para angariar receitas. As ameijoas e os chocos apanhados na Lagoa de Óbidos são o ex libris da Taverna de Nossa Senhora da Piedade, do Vau, dinamizada pelo grupo de animação da igreja e cuja verba angariada destina-se a financiar as obras de restauro naquele templo.
“As pessoas procuram-nos pelos produtos da Lagoa”, conta Manuela Pinto, acrescentado que as ameijoas têm sido fáceis de arranjar, assim como o choco, embora não haja não tanto como nos anos anteriores, mas as enguias tem sido impossível, razão pela qual não fazem parte da ementa deste ano.
A estes petiscos juntam-se o bacalhau grelhado, as pernas de frango grelhadas, as espetadas, entre outros, que fazem as delícias dos visitantes. A voluntária destaca a afluência que têm registado desde o primeiro dia. “As pessoas estão desejosas por voltar a conviver”, realça. A poucos metros, a tasquinha do Rancho Folclórico da Capeleira tem como prato característico os caracóis fritos, mas também o coelho assado com um molho especial, é bastante procurado. A estes pratos junta-se a carne grelhada que pode ser acompanhada por poncha. Florentina Santos, presidente do Rancho Folclórico da Capeleira destaca a importância do evento, que diz ser a festa do município. “Trabalhamos, mas também nos divertimos imenso”, partilha.
Um pouco abaixo, no torreão partido, fica o “restaurante” da associação hípica O Cavalo d’Óbidos onde não faltam a ameijoa, mexilhão e berbigão da Lagoa, bem como os grelhados. Para regar estes petiscos a bebida da casa, o ferrador.
O presidente da associação, Óscar Costa, destaca o convívio e considera que o mercado está a funcionar muito bem. “É um balão de oxigénio para as coletividades”, salienta o responsável, que participa no evento desde a sua segunda edição. O funcionamento da Taberna do Cavaleiro – Associação Hípica “O Cavalo d’Óbidos” é assegurado pelos elementos da direção, alunos e pais e também amigos que vêm de propósito para os ajudar. Ao todo, esta edição conta com a participação de cerca de 600 voluntários distribuídos pelas 25 associações e coletividades do concelho que dão vida às tabernas e tascos. ■