Em janeiro, a Urgência de Pediatria teve uma redução de afluência na ordem dos 77% em relação ao mesmo período em 2020. Desde o início da pandemia, foram testadas 2 mil crianças, das quais 40 deram positivas. Na maioria, eram assintomáticas

A sala de espera dos doentes covid, devidamente assinada

É segunda-feira de manhã e na sala de espera da Urgência Pediátrica do hospital das Caldas da Rainha reina o silêncio. As cadeiras azuis ainda a cheirar a novo estão livres e as coloridas pinturas que “forram” as paredes não têm quem as aprecie enquanto se espera por vez para entrar. Durante essa manhã, até às 10h30, apenas tinham chegado três crianças para serem atendidas, entre elas uma com sintomas que podem ser de covid-19 e que entrou num circuito separado. Este é um dia normal no período de pandemia, mas muito diferente do que seria um dia habitual nas Urgências de Pediatria antes de o novo coronavírus transformar o dia-a-dia.
“Numa segunda-feira, teríamos 30 a 40 crianças na sala de espera”, conta a diretora do Serviço de Pediatria, Luísa Preto, reconhecendo que acabam por ser muito “poupados” com a pandemia.

“É um serviço seguro, com circuitos bem definidos. Não há motivos de receio”

Luísa Preto

A pediatra explica esta falta de afluência com o medo de as pessoas se deslocarem ao hospital, mas também a diminuição das doenças respiratórias, fruto do uso da máscara e da interrupção das aulas presenciais. E os números que apresenta não deixam dúvidas: em janeiro de 2019 foram atendidas 27.106 urgências pediátricas no hospital das Caldas, enquanto que no ano passado esse número desceu para mais de metade, num total de 12.963. E se em janeiro do ano passado foram atendidos nas Urgências Pediátricas 4.839 casos, no passado mês de janeiro apenas foram àquele serviço 1.130 doentes.
“As pessoas não devem ter medo de vir ao hospital quando têm necessidade. Os circuitos estão perfeitamente definidos e é seguro”, não se cansa de dizer a diretora do serviço, enquanto mostra os circuitos devidamente identificados para doentes covid e não covid.

40 casos positivos
Desde o início da pandemia, há quase um ano, foram feitos cerca de dois mil testes no serviço, tendo sido registados 40 casos positivos. Uma situação que, na esmagadora maioria dos casos, não é alarmante, porque é uma doença benigna, que se consegue curar com um anti-pirético (medicamento para tratamento da febre). Há, no entanto, uma situação particular, que ocorre três a quatro semanas após a doença e que é chamado de “síndrome multissistémico inflamatório” e que pode originar situações graves nas crianças, nomeadamente o internamento nos cuidados intensivos.
“Já tivemos uma criança de 10 anos com essa patologia, foi transferida para Lisboa e estamos à espera de, nesta fase, podermos vir a ter mais alguns”, salienta Luísa Preto, lembrando que durante o mês de janeiro já registaram mais casos.
O caso doeste menino foi o mais grave e o único que necessitou de internamento, enquanto que a maioria dos casos, de bebés desde os 10 meses até adolescentes, chegou por terem tido contacto com outros infetados e por sintomatologias como febre e situações respiratórias. Os jovens já se apercebem das implicações da doença e, quando o resultado do teste é positivo, alguns desencadeiam uma sintomatologia ansiedade. Luísa Preto salienta que esta é uma doença com repercussões a nível psicológico e não tem dúvidas que, se para os adultos, “é muito difícil, para as crianças e adolescentes é ainda pior porque precisam do contacto com os outros”.

O enfermeiro Francisco Neto, com o equipamento de proteção, preparado para fazer um teste à covid-19 a uma jovem

Redimensionamento do serviço
A diminuição das idas à Pediatria e o aumento dos casos positivos à covid-19 levaram a que parte daquele serviço tenha sido ocupado pela cirurgia de adultos, cujo espaço, por sua vez, passou a albergar o covidário. Ficaram com algumas camas no internamento, mas estão a trabalhar sobretudo na Urgência, também porque entendem “que é melhor tratar uma criança em ambulatório do que submetê-la a um internamento, que é mais agressivo”.
O medo de levar as crianças às Urgências e às consultas presenciais não tem registado uma relação direta com o agravar da doença pois, como explica a pediatra, a maior parte das situações de febre nas crianças são benignas e não acarretam riscos, até mesmo quando os sintomas podem ser de covid-19.
O redimensionamento do serviço não tem sido fácil reconhece a enfermeira-chefe, Helena Lindinho, referindo-se à mobilização de pessoal (enfermeiros, assistentes operacionais e médicos), para outros serviços de adultos.

“Vamos fazendo o nosso melhor e adaptando às circunstâncias”

Helena Lindinho

“As equipas estão um pouco espartilhadas e tiveram de integrar outras, nomeadamente da cirurgia e da urgência de adultos”. Também ela, ao fim de 35 anos a cuidar de crianças, tem estado a trabalhar com adultos. “Não é fácil, mas vamos fazendo o nosso melhor e adaptando às circunstâncias”, conta.
As jovens pediatras Catarina Gomes e Inês Melo estavam de escala na Urgência Pediátrica na manhã de segunda-feira, mas, quando requisitadas, têm ido prestar auxílio a adultos que se encontram na zona de transição respiratória, com sintomas de dificuldade respiratória e a aguardar teste à covid 19. “É um paradigma diferente”, reconhece Catarina Gomes, acrescentando que, apesar de tudo, conseguem ajudar, pois estão habituadas a tratar de doentes respiratórios. Fora da zona de conforto, as médicas encontram motivação na possibilidade de tratar os doentes, mas também de ajudar os colegas, que têm tido mais trabalho do que elas no serviço de pediatria. “Achamos que faz sentido ajudar nesta luta”, remata Inês Melo. ■

A síndrome rara provocada pelo vírus nas crianças

Um menino de 10 anos residente numa freguesia das Caldas da Rainha desenvolveu uma síndrome rara e grave em reação ao novo coronavírus, que o fez estar durante mais de uma semana nos cuidados intensivos.
A fita da história remonta a novembro, quando os avós testaram positivo e o menino, juntamente com os pais, ficou em isolamento noutra casa. A 13 de dezembro começou a ter febre e vómitos e, como tem uma doença crónica, a mãe levou-o à Urgência Pediátrica do hospital das Caldas. Fez teste à covid-19 para ser internado, esteve a soro, fez análises e, como estas acusavam uma pequena infeção, à noite foi para casa com medicação.
Voltaria ao hospital no dia seguinte e soube que o teste do dia anterior tinha dado negativo, como, aliás, dariam os três que fez ao longo do processo. Nessa segunda-feira ficou internado e com febre, dores de barriga e abdominal, o que levou os médicos a pedir mais exames. Com a situação a piorar, na quarta-feira, o menino foi transferido para a unidade de Cuidados Intensivos do Hospital de Santa Maria onde, tendo em conta o seu historial, concluíram tratar-se de um síndroma inflamatório pós covid. Ali ficaria internado até 23 de dezembro, quando pôde regressar a casa.
“Só conseguiram perceber que ele tinha tido covid quando fizeram o teste serológico”, conta a progenitora, a quem foi dito que por norma, as crianças são assintomáticas. “A nossa “sorte” foi ter ido muito cedo com ele para o hospital”, recorda a mãe, salientando que os primeiros sintomas que a criança teve foram febre e vómitos, o que numa situação normal não leva de imediato a criança ao hospital.
O menino “agora está bem” e a única recomendação que trouxe foi a de não poder fazer exercício físico nos próximos seis meses, a par de exames ao coração, uma vez que as crianças que desenvolvem esta síndrome podem ficar com sequelas a nível renal e do coração.
“Foi tudo muito rápido”, conta a mãe, acrescentando que os médicos disseram-lhe que, de todos os meninos que trataram com este síndrome nos Cuidados Intensivos, ele foi o que teve uma recuperação mais rápida”. Olhando para trás, reconhece que foi “muito complicado” e que só quem passa por esta situação consegue dar o devido valor. “Estamos na UCI preocupados com a situação do nosso filho, mas depois olhamos para o lado e vemos cada coisa…”
Como os testes deram sempre negativos e a criança não desenvolveu nenhum dos sintomas associados à doença, esta mãe nunca pensou que se tratasse de covid-19. Agora, “qualquer coisa estou alerta”, disse, recordando que há três semanas houve uns dias em que o filho tinha os olhos mais inchados e ligou de imediato para a cardiologista, mas estava tudo bem. ■