O presidente da associação, Filipe Daniel, junto a um hidrante nas baixas de Óbidos

Desde inícios de Junho que os produtores podem regar com água da barragem do Arnóia. A rede de rega já começou a funcionar para os beneficiários das baixas de Óbidos, que abrange 534 agricultores. O bloco da Amoreira deverá estar concluído ainda este ano. O aproveitamento hidroagrícola consistiu num investimento de perto de 28 milhões de euros, que contempla a barragem, os dois blocos de rega, estação elevatória e a rede viária e os produtores consideram que já na próxima campanha ver-se-ão benefícios do projecto

Remonta a 1976 o desejo de se criar um aproveitamento hidroagrícola na região. Mais de quatro décadas depois, os agricultores começam, finalmente, a utilizá-lo. Pelo meio houve mudanças de planos, paragens, reajuste, visitas de governantes ao local e muitos anos de espera.
O aproveitamento hidroagrícola foi pensado, numa primeira fase, para cerca de 1570 hectares, envolvendo um investimento na ordem dos 45 milhões de euros. No entanto, a dificuldade de financiamento devido à dimensão do projecto levou a uma reformulação, baixando o valor em mais de 2 milhões de euros e passando a ter uma extensão de 1300 hectares. Também houve uma redução ao nível da rede viária e da rede de aproximação à parcela.
A albufeira da barragem foi criada em 2005 e, nove anos depois, arrancou o novo projecto da rega, que inclui os blocos de Óbidos, com 1048 parcelas e que beneficia 534 produtores, e da Amoreira, com 533 parcelas e 339 beneficiários. Ao todo são cerca de 900 os beneficiários deste regadio, que terão água em melhores condições para regar culturas essencialmente frutícolas (70%) e hortícolas (30%).
O bloco de Óbidos, que abrange cerca de 740 hectares, já tem o projecto concluído e desde o início do mês que é possível regar com água da barragem. Está a ser entregue, através da assinatura do contrato de concessão, a estação elevatória e o bloco de rega da rede de Óbidos à Associação de Beneficiários do Plano de Rega das Baixas de Óbidos, que passa a ter autonomia para gerir o aproveitamento hidroagrícola. De acordo com o presidente da associação, Filipe Daniel, as pessoas estão a aderir, até porque “há uma necessidade muito grande de água, e de boa qualidade”. Para além disso, ao longo dos encontros que têm tido com os beneficiários têm procurado demonstrar a redução de custos de energia que podem ter regando através do hidrante (ponto de saída de água). “Os agricultores gastavam mais dinheiro, era menos cómodo, tinham o problema da água poder ser salobra ou ter salinidade e estarem sempre dependentes da quantidade existente”, explica, destacando que, dos hidrantes sai água filtrada da albufeira.
O custo da água varia entre os 3 e os 5 cêntimos por metro cúbico, um valor reduzido, assumido pela associação, que pretende contar com uma “grande adesão das pessoas ao regadio para poder constatar a sua mais valia”, refere o responsável.
As pessoas mais próximas dos hidrantes têm mais facilidade, porque a passagem de tubos é inferior, enquanto que as parcelas mais distantes acarretam um custo para fazer a ligação.
No entanto, como houve um excedente de dinheiro do projecto, a associação acredita que está “praticamente” garantida a rede de aproximação à parcela, que permite levar a água desde o hidrante até ao local que é preciso regar, o que deverá acontecer já no próximo ano.

REGIÃO PODE DUPLICAR O PIB AGRÍCOLA

Filipe Daniel considera que já nesta campanha é possível ver frutos desta rega, pois existem pomares que estavam de sequeiro ou eram regados com água de fraca qualidade. Destaca, ainda, que este aproveitamento hidroagrícola permite à região duplicar o seu PIB agrícola, através do aumento da produção e da qualidade dos produtos produzidos.
O projecto integra, ainda, uma rede viária, com o asfaltamento em algumas estradas agrícolas e a colocação de tout-venant noutras, cuja indicação é feita em conjunto com as freguesias de Santa Maria, S. Pedro e Sobral da Lagoa, Amoreira, Vau, Pó e Roliça (que são as contempladas pelo perímetro de rega), e as Câmaras de Óbidos e Bombarral.

APROVEITAMENTO DE ENERGIAS RENOVÁVEIS

Entre os projectos da associação de regantes está o aproveitamento de energias renováveis para garantir o funcionamento da estação elevatória e respectiva rede de rega. De acordo com Filipe Daniel, a energia representa 60% do custo do regadio.
Moinhos eólicos ou uma mini-hidrica são possibilidades, mas o aproveitamento da energia solar, através de painéis fotovoltaicos flutuantes será das mais válidas, tendo em conta que estes também permitirão reduzir a evapotranspiração da água da albufeira. Outro dos objectivos será a limpeza da albufeira da barragem, que já tem 15 anos, para retirada de sedimentos e de algumas árvores que estão na sua orla. No entanto, esta infra-estrutura está no domínio da Agência Portuguesa do Ambiente e ainda não foi feito o plano de enchimento, que permitirá, no futuro, fechar as suas comportas e permitir um maior armazenamento de água.
No futuro a associação de regantes quer estender o perímetro de rega e chegar a mais agricultores, equacionando para isso aumentar o reservatório ou fazer outro, mais pequeno. Pretende também prestar serviços, do ponto de vista do aconselhamento e da utilização da rede de rega e criar uma parceria com o Parque Tecnológico e Centro de Gestão de Óbidos. Um dos processos que quer retomar é o do emparcelamento, que estava previsto no início do projecto, mas que depois não se veio a concretizar.