As super-mulheres não existem

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Gazeta das Caldas
Sandra Perdigão Neves (Altice) e Maria Conceição Pereira (Câmara das Caldas) foram as duas convidadas da palestra organizada pela MBconsulting&Co |Beatriz Raposo

Ser a melhor mãe, a melhor profissional, a melhor esposa, a mais gira, a mais divertida, a mulher mais culta? Tarefa impossível porque não existem super-mulheres. Quem o diz é Sandra Perdigão Neves, directora de operações da Altice, que esteve nas Caldas da Rainha para falar sobre boas práticas de gestão da família e do trabalho, numa palestra que decorreu no CCC e foi organizada pela MBconsulting&Co (empresa de Óbidos que se dedica a serviços de consultoria de comunicação).

O almoço que antecipa a palestra é desde logo propício a que os participantes que se inscreveram na iniciativa troquem dois dedos de conversa. São cerca de 20 mulheres e apenas um homem. Por isso os temas que começam a ser levados para cima da mesa relacionam-se naturalmente com o lado feminino. O ambiente é descontraído e informal, trocam-se experiências e discute-se se não seria melhor que as mulheres fossem mais solidárias umas com as outras. Uma questão que, aliás, também será abordada pelas duas oradoras da tarde: Sandra Perdigão Neves, da Altice, e Maria Conceição Pereira, vereadora da Câmara das Caldas.
“Infelizmente, do lado feminino, sempre houve e ainda há quem censure as mulheres que optam por investir na sua carreira, porque essa vida exige uma disponibilidade que é roubada à família”, diz Maria Conceição Pereira, realçando que as mulheres devem unir-se e ser mais compreensivas entre si.
“Depois também há aqueles casos em que somos olhadas de lado pelas nossas colegas quando alcançamos grandes feitos, como se só o tivéssemos conseguido graças a favores pessoais…”, acrescenta a autarca.
É então fundamental que as próprias mulheres se ajudem umas às outras e assim contribuam para que o papel feminino seja cada vez mais valorizado. Mas Portugal está no bom caminho. “Temos dado sinais importantíssimos ao nível da legislação, com a introdução de quotas na política e nas grandes empresas, há cada vez mais mulheres a saírem das universidades, por isso acredito que cada vez mais vamos ter um impacto significativo na vida social, económica e política do país”, defende Maria Conceição Pereira, lembrando, contudo, que não podemos esquecer que ainda há países do mundo onde a mulher não é sequer considerada.

“QUANDO FAZEMOS UMA ESCOLHA, DIZEMOS NÃO A TODAS AS OUTRAS”

Sandra Perdigão Neves, directora de operações na Altice, acena às afirmações da vereadora caldense e diz convicta que não existem super-mulheres. “Não dá para sermos as melhores mães, as melhores profissionais, as melhores esposas e as mais giras… este é um conflito permanente, principalmente quando nos sentimos capazes em várias áreas, mas temos que aceitar que quando fazemos uma escolha estamos a dizer não a todas as outras”, afirma a empresária, que na Altice tem à sua responsabilidade (directa e indirectamente) cerca de 5.000 pessoas.
Surge então a questão: “Como é que se concilia a gestão de uma grande empresa com a gestão da família?”. No seu caso, Sandra Perdigão Neves é casada e mãe de três filhos adolescentes, entre os 13 e os 17 anos. “Fazendo o que deve ser feito em cada momento, estando em absoluto naquilo que se faz”, explica a convidada, dando como exemplo a altura do dia em que toma o pequeno-almoço com os seus filhos. “Nesse momento estou com eles incondicionalmente, não abro o e-mail, atendo telefonemas ou vejo televisão”, esclarece.

Depois aproveita a viagem de Sintra a Picoas para pôr os telefonemas em dia com familiares e amigos. Mas quando começa a trabalhar, fá-lo a 100%. E para isso, é fundamental ter uma agenda bem desenhada e evitar perder tempo: “se uma reunião está planeada para uma hora, nada justifica que dure mais meia hora porque se deu espaço a conversinhas que não interessam rigorosamente a ninguém”.
Na opinião de Sandra Perdigão Neves, o segredo é programar o dia-a-dia, estabelecendo objectivos para tudo (seja a vida profissional, pessoal ou familiar). “Precisamos de pensar como queremos ser lembradas, quais são as nossas prioridades e que nada deve ser feito só porque sim”, frisa, acrescentando como também é essencial incluir na sua rotina tempo só para si (nem que isso apenas se traduza em andar meia hora todos os dias). E mais: “o descanso é igualmente importante para conseguirmos cumprir tudo aquilo a que nos propomos, porque sem descanso o carácter fica afectado e a nossa paciência também”.

“Os despedimentos colectivos na Altice não passam de rumores”

Numa palestra em que se falou sobre gestão do trabalho e da família, Sandra Perdigão Neves garantiu à Gazeta das Caldas que não vão existir despedimentos colectivos na Altice e que essas foram notícias que saíram para a esfera pública, mas que não passam de rumores. Disse também que quando existe uma necessidade de reajustamento de equipas de trabalho “cabe-nos saber qual é o número certo de pessoas para determinada função, caso contrário há o risco de caírem todas”.
E apesar da “enorme tentação de nos escondermos atrás das folhas de Excel, olharmos só para números, não nos podemos esquecer que cada número representa uma família e que se sempre que se reduzem números essas famílias estão implicadas”. Sandra Perdigão Neves afirma que tem assumido esse papel em todas as empresas que tem trabalhado, mas sempre com a consciência que “não posso pôr em causa tudo o resto”.
Genericamente, a directora de operações da Altice realçou ainda que há formas de despedir colaboradores que evitam deixá-los completamente desamparados. “Podemos dizer-lhes que não há trabalho para eles mas comprometermo-nos a ajudá-los a completar a sua formação ou a ser colocados noutros empregos”, exemplificou.