Crianças do ensino básico aprendem a salvar vidas

0
516

FotoAccaoFormacaoUma equipa de enfermeiros do Hospital das Caldas está a dar formação sobre suporte básico de vida a todas as crianças que frequentam o 4º ano no concelho das Caldas da Rainha. O projecto “Aprender SBV…início de um percurso”, que já foi premiado, nasceu há três anos e contempla perto de 1800 crianças.
Os voluntários pretendem dar-lhe continuidade, numa vertente de cidadania, até porque a paragem cardíaca súbita é a principal causa de morte na Europa e o início imediato das manobras de suporte básico de vida aumenta a probabilidade de sobrevivência.

Fátima Ferreira
[email protected]

O convite para ir à escola da filha dar uma lição sobre Suporte Básico de Vida (SBV) alertou-o para a temática. Numa pesquisa mais aprofundada sobre o assunto, o enfermeiro na urgência pediátrica e coordenador da VMER das Caldas da Rainha, Nuno Pedro, apercebeu-se que a idade sugerida para começar esta formação é a partir dos 10 anos e, juntamente com outros colegas, decidiu avançar com um projecto nas Caldas da Rainha.
Corria o ano de 2014 e chegaram a perto de 700 alunos do 4º ano de todo o concelho. O projecto repetiu-se em 2015 e está a decorrer este ano, faltando apenas o Agrupamento de Escolas Raul Proença e as escolas privadas, para alcançar um total de perto de 1800 alunos com conhecimentos em SBV. Este consiste num conjunto de técnicas, sem a utilização de equipamentos, que permitem a manutenção da vida até à chegada de ajuda especializada.
Em cada acção, de cerca de duas horas, há uma parte teórica, onde falam com as crianças sobre quais as causas para a paragem do coração, quando ligar e o que dizer quando accionam o 112, a posição lateral de segurança e as massagens. Segue-se uma componente prática, com os alunos divididos em grupos e, com a ajuda de bonecos, a aprender a fazer a reabilitação. No final apresentam um vídeo do INEM que mostra uma situação real, em que duas meninas conseguem salvar uma pessoa que entra em paragem cardiorrespiratória.
A expectativa é sempre grande entre os mais novos e Nuno Pedro destaca que este é um conhecimento essencial no seu futuro. Garante que não precisam de reter tudo, mas que ficam com algumas ferramentas bastante importantes, assim como com noções de cidadania.
“Há estudos em Portugal que mostram que é nos intervalos das aulas que disparam as chamadas falsas no INEM”, conta o responsável, que quer consciencializar os mais novos da relevância do número de emergência, assim como daquilo que podem fazer até chegar o socorro.
Nuno Pedro destaca que, fisicamente, aos nove ou 10 anos as crianças não conseguem virar um adulto de lado ou fazer-lhe massagens no coração, mas que apreendem com bastante facilidade a informação e depois podem transmitir aos familiares.

Projecto premiado

“O SBV é muito importante porque pode salvar uma vida”, realça o enfermeiro, salientando que podem ter a VMER mais diferenciada, mas esta demora a chegar e se não têm a primeira resposta adequada, por vezes já não há muito a fazer. E não faltam exemplos com e sem sucesso. Nuno Pedro falou de três casos na região, em que a VMER demorou cerca de 20 minutos a chegar, mas em que os primeiros socorros prestados foram fundamentais para o desfecho. No primeiro caso, a criança caiu dentro de uma fossa séptica e, como ninguém fez nada, quando chegaram estava morta. Já num segundo caso, em que uma criança se afogou num recipiente de água, houve uma pessoa que a abanou, permitindo depois à VMER reanimá-la. Uma terceira criança caiu numa fossa séptica de uma pecuária, mas o pai quando a encontrou iniciou logo o suporte básico de vida, que depois continuado com o trabalho dos profissionais, permitiu que a criança recuperasse por completo.
O  projecto “Aprender SBV…início de um percurso” já foi distinguido com o prémio de excelência no concurso Cuidar 2014 patrocinado pela Ordem dos Enfermeiros – Delegação Centro.
No ano passado, Ana Tavares, Nuno Pedro e Joaquim Urbano, que integram a equipa, publicaram um artigo científico sobre esta temática na Revista Portuguesa de Saúde Publica.
“Não há ainda nada feito nesta matéria em Portugal e, por isso, é importante arranjar indicadores e fazer produção científica e até legislativa”, defende Nuno Pedro, que gostaria de, como tese de doutoramento, estudar as crianças portuguesas para perceber a partir de que idades têm competências físicas e cognitivas para fazer o suporte básico de vida.
O  projecto “Aprender SBV…início de um percurso” tem como parceiros a Câmara das Caldas (que adquiriu algum do equipamento utilizado e garante a deslocação da equipa às escolas fora da cidade), a Liga de Amigos do Centro Hospitalar de Caldas da Rainha, Fundação Portuguesa de Cardiologia e o Conselho Português de Reanimação.