Editorial – Não há médicos. Ponto

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Na entrevista que esta semana publicamos com a directora do Agrupamento de Centros de Saúde Oeste Norte e na peça onde citamos o bastonário da Ordem dos Médicos (que visitou o CHO) constata-se que os graves problemas de que padece a Saúde na nossa região se resumem, em última instância, à falta de médicos.
Tanto Ana Pisco na ACES Oeste Norte, como Elsa Baião no CHO, deparam-se com uma dificuldade tremenda em contratar profissionais de saúde, sobretudo médicos, para os centros de saúde e hospitais da região. Pode-se dizer que o problema é transversal a todo o país, que a concorrência dos privados leva muitos destes profissionais a ir trabalhar para clínicas e hospitais com melhores condições de trabalho e melhores salários. Pode-se dizer também que é grande a concorrência no estrangeiro, onde os médicos encontram igualmente melhores remunerações e desafios mais atractivos. E pode-se também dizer – porque aí radica a raiz do problema – que tudo vai ter a Centeno, isto é, à indisponibilidade das Finanças Públicas para investir no Serviço Nacional de Saúde (o termo “investir” não é inocente – a Saúde deveria ser encarada como um investimento e não como uma despesa).
Pode-se dizer tudo isso, mas também é certo que o Oeste não é propriamente uma região deprimida e desertificada do interior de Portugal, onde seria compreensível que técnicos qualificados não quisessem trabalhar e viver. Caldas da Rainha está a uma hora de Lisboa e insere-se numa região com boa qualidade de vida, com um clima agradável, perto do mar, com boas praias, boa gastronomia, uma vida cultural que não sendo deslumbrante também não é indigente, bons acessos rodoviários e segurança nas ruas. É difícil perceber por que não consegue atrair especialistas nem jovens médicos em início de carreira.
É certo que nem Ana Pisco nem Elsa Baião têm muito dinheiro para lhes pagar, nem grandes condições de trabalho para lhes oferecer. Basta entrar na UCSP das Caldas da Rainha ou em algumas salas de espera do CHO e ver o ambiente deprimente que ali se vive, com utentes amontoados, sentados em filas de cadeiras de plástico (ou em pé por falta de lugar), esperando por consultas que tardam horas, para não falar nos meses que já esperaram para as obter.
Hoje os médicos querem desafios mais aliciantes nos grandes hospitais centrais de Lisboa, Porto ou Coimbra e não estão dispostos, com os salários oferecidos no público, a irem trabalhar para mais longe. E quando vão, acabam por se ir embora no próximo concurso ou então optam pelo privado. Que o diga a directora do ACES Oeste Norte que se queixa da dificuldade em fixar estes profissionais. Como se não bastasse, nem sequer consegue abrir vaga para suprir as necessidades (pediu vagas para dez médicos e só lhe deram três, os quais, provavelmente, acabarão por se ir embora ao fim de alguns meses).
A consequência de tudo isto é 16% da população do Oeste Norte não ter hoje médico de família, é não se conseguir marcar uma simples consulta no centro de saúde, é um Serviço Nacional de Saúde a caminhar para atender apenas os pobres, os idosos, os indigentes e todos os que não conseguem aceder aos serviços de saúde nos privados. É, no fim de contas, o Estado a falhar na sua missão de assegurar os direitos sociais à população.