Elsa Baião, é presidente do Conselho de Administração do CHO há dois meses e diz que encontrou instalações limitadas, equipamentos obsoletos e a falta de, pelo menos, uma centena de profissionais (20 médicos, 40 enfermeiros e 40 assistentes operacionais). A curto prazo, a nova administração pretende apostar na hospitalização domiciliária, no internamento da Psiquiatria, nos paliativos e criar um laboratório de Anatomia Patológica (análises clínicas), bem como uma zona para cuidados intermédios.
A administradora admite que o CHO “resultou de uma fusão que foi problemática” e que tem de combater a má imagem criada nos últimos anos, mas identifica-lhe potencialidades, entre elas ao nível do termalismo. Considera que faz sentido a construção de um novo hospital no Oeste e que é necessário um consenso em relação à sua localização, mas faz notar que esse processo não é imediato e que a sua criação demorará, pelo menos, uma década.

GAZETA DAS CALDAS – Qual o balanço que faz destes primeiros dois meses de mandato à frente do CHO?
ELSA BAIÃO – Deparámo-nos com instalações com muitas limitações funcionais, em termos de estrutura, o que condiciona muito a capacidade de resposta nas três instituições (Caldas da Rainha, Peniche e Torres Vedras). Isso implica um investimento relevante em termos de obras e de equipamento, que está obsoleto e com necessidades de substituição. A essas carências juntam-se a de recursos humanos que, em determinadas áreas, também condiciona muito a capacidade de resposta. Acresce alguma limitação em termos de resposta informática porque hoje em dias os hospitais funcionam com base em aplicações informáticas e há aqui também uma série de constrangimentos nessa área, que depois condiciona as rotinas no dia a dia.
Tudo isto significa que nesta fase temos que fazer um esforço para aumentar o número de recursos humanos, o que é um problema tendo em conta que temos muita dificuldade em contratar médicos.
Neste momento há dificuldade em conseguir captar médicos para os centros hospitalares. Claro que aqui, tendo em conta que há alguma distância relativamente aos grandes centros, essa dificuldade de resposta em captar e reter os profissionais aumenta, pelo que temos que fazer aqui algum investimento para assegurar que há condições básicas para desenvolver uma resposta adequada.

G.C. – Já conhecia o CHO? Qual a ideia que tinha deste centro hospitalar?
EB – Conhecia muito mal. Quem está de fora tem a ideia de que é um centro hospitalar que resultou de uma fusão que foi problemática, mas que em Portugal não é caso único pois houve uma série de fusões que não foram bem aceites e que demoraram muito tempo até se consolidarem. Também tinha a noção de que era uma instituição com grandes carências, o que se confirmou.
Penso que isso também derivou do facto do hospital não ter passado para outro estatuto jurídico mais cedo [de unidade do Sector Público Administrativo para Entidade Pública Empesarial]. Isto porque os outros hospitais que tiveram essa oportunidade, designadamente antes da crise, conseguiram captar muitos recursos humanos pois tinham a hipótese de diferenciar vencimentos e tinham outras ferramentas para incentivar as pessoas no dia a dia de trabalho. Conseguiram desenvolver um trabalho muito importante que aqui também estava muito limitado pelo estatuto jurídico que o hospital tinha.

G.C. – O facto de não ser EPE veio limitar o desenvolvimento do CHO?
E.B. – Sim. Muitos hospitais conseguiram-se desenvolver nessa fase e este terá agora que apanhar o comboio…

FALTAM PELO MENOS 100 PROFISSIONAIS NO CHO

G.C. – Disse-nos logo no início que entre as principais carências estão a de profissionais e algumas carências físicas? O que é preciso no CHO?
E.B. – Faltam essencialmente médicos, assistentes operacionais, enfermeiros e técnicos de diagnóstico e terapêutica.

G.C. – Quantos?
E.B. – Quando chegámos, uma das nossas primeiras tarefas foi elaborar um mapa de pessoal e aí identificámos que precisaríamos, pelo menos, de mais 20 médicos, 40 enfermeiros e 40 assistentes operacionais. Isto são números mínimos e foi isso que foi identificado e incorporado na proposta de orçamento de recursos humanos para o ano que vem.

G.C. – Esta insuficiência de meios humanos está a condicionar o funcionamento dos hospitais?
E.B. – Claro que condiciona o funcionamento e muitas vezes implica horas extraordinárias. O trabalho não fica por realizar, mas é realizado com limitações e com recurso a outras formas de pagamento e outro tipo de contrato.

G.C. – E acaba por sair mais caro…
E.B. – Sim, em algumas situações sai mais caro.
Relativamente aos médicos temos estado a desenvolver esforços para abrir uma bolsa de recrutamento, que ainda não está aberta porque temos que dar sequência a uma série de procedimentos legais. Neste momento não temos também autonomia para contratar, mas ainda assim vamos abrir a bolsa e pedir as autorizações necessárias para recrutar médicos em regime de contrato de trabalho. Nunca vamos conseguir prescindir, num período inicial, das prestações de serviço porque vão ser todos necessários.
Também já abrimos uma bolsa de recrutamento para enfermeiros e para assistentes operacionais, numa tentativa não só de substituir as pessoas que estão ausentes de forma prolongada, como também reforçar o hospital nesta fase complexa e mais exigente, que é o período da gripe.
A nossa perspectiva é também de criar alguma diversificação em termos de carteira de serviços do hospital. Queremos criar novas valências e apostar em novas áreas e por isso precisamos também de mais pessoas.

G.C. – E que novas áreas são essas?
E.B. – São a hospitalização domiciliária, o internamento da Psiquiatria, os paliativos. Queremos que isso seja num futuro a curto prazo. Assumimos o compromisso de que faríamos a hospitalização domiciliária até meados do ano que vem. Será numa fase inicial com um número de vagas muito limitado.
Em termos do internamento de Psiquiatria lançámos agora o concurso para a obra, que demorará alguns meses a ser construída. Talvez no final do ano que vem, inícios de 2020, conseguiremos abrir o internamento de Psiquiatria, que funcionará em Peniche e servirá toda esta área de influência, com 15 camas.
Também vamos tentar apostar na área dos cuidados paliativos, criar alguma área específica para internamento deste doentes e acho que também temos que apostar no apoio domiciliário a estes doentes, que é um problema crescente e uma área onde a necessidade é muito grande.
Queremos também criar um laboratório de Anatomia Patológica. Já temos um médico disponível, que trabalha connosco, mas como nesta fase não temos instalações próprias, está a desenvolver o trabalho noutro hospital. Mas queremos trazê-lo para cá e criar o laboratório.
Depois da obra das urgências das Caldas estar concluída, há a perspectiva de criar uma zona para cuidados intermédios, que consiga assegurar a resposta aos doentes críticos de uma forma mais efectiva, evitando a transferência de tantos doentes para os hospitais da zona de Lisboa.

G.C. – E quais são as potencialidades do CHO?
E.B. – Uma das maiores potencialidades são os nossos profissionais, pessoas competentes e dedicadas, que trabalham em prol da população, não obstante os obstáculos que têm que ultrapassar no seu dia-a-dia.
Também há áreas de diferenciação em que poderemos tentar apostar, dando-lhes alguma força e vitalidade que perderam nos últimos anos. A Medicina Física tem uma tradição longa e acho que é uma área que temos que acarinhar porque é uma área de diferenciação muito específica nesta vertente do Hospital Termal e que não existe noutras zonas do país. Também a Pneumologia tem uma tradição longa com o Hospital do Barro e a Ortopedia, que também era uma área de excelência e que poderá continuar a sê-lo.
Há algumas áreas em que vamos tentar criar alguma diferenciação e para isso estamos a prever criar centros de responsabilidade integrados. No fundo funcionam como unidades autónomas de gestão, que vão ter outras possibilidades em termos de contratação de recursos e de captação de profissionais e de trabalhar por objectivos.

COMBATER A MÁ IMAGEM DOS ÚLTIMOS ANOS

G.C. – Pretendem que haja uma colaboração estreita com a autarquia, que irá gerir o Hospital Termal?
E.B. – Acho que hoje em dia teremos sempre que trabalhar em conjunto e complementaridade com outras entidades. Com a Câmara e também com os agrupamentos de centros de saúde. Estamos a trabalhar algumas parcerias que nos permitam gerir melhor os doentes que são comuns.
Pretendemos também trabalhar em complementaridade com outras entidades da região e institutos aqui à volta e que nos possam dar um apoio porque a saúde cada vez mais é um problema de todos e em que todos temos que colaborar para encontrar as melhores respostas.

G.C. – Já reuniu com a autarquia, com as concelhias caldenses e com entidades locais. Qual foi a percepção com que ficou dessas reuniões?
E.B. – Já reuni pelo menos com aquelas onde estão localizadas as unidades do centro hospitalar. O objectivo é reunir com os restantes, mas ainda não conseguimos.
Há uma grande preocupação em todas estas autarquias pelo facto do hospital ter uma imagem menos boa perante a comunidade. Temos que tentar combater essa imagem e dar alguma credibilidade ao centro hospitalar, trabalhando mais em conjunto com a comunidade e fazê-la perceber que o CHO tem muito potencial e que está a trabalhar no sentido de dar uma resposta adequada à população.

G.C. – O CHO é composto por três hospitais embora a sede seja nas Caldas. Faz sentido que assim continue?
E.B. – Acho que a sede estar nas Caldas foi uma decisão que teve por base a tradição que a cidade tem ao nível da saúde e por ter o Hospital Termal. Nessa perspectiva pode fazer sentido, se bem que o hospital das Caldas e o de Torres têm níveis de diferenciação muito semelhantes, pelo que não me parece que ser aqui ou lá tenha algum tipo de implicação.
Para nós não tem nenhum tipo de consequência porque vamos passando por todas as unidades de uma forma mais ou menos equilibrada. O facto da sede ser nas Caldas tem a ver com essa tradição e é mais uma questão administrativa do que técnica, porque as respostas vão-se fomentando, de acordo com as necessidades, em cada uma das unidades, e a resposta do Conselho de Administração também é sempre de acordo com as necessidades. Vamos tentando estar presentes em todas as instituições.

Um novo hospital faz sentido, mas até lá…

G.C. – Acha que deve ser criado um novo hospital no Oeste?
E.B. – Um novo hospital faz sentido. É um desejo já com algum tempo e que faz sentido tendo em conta estas limitações estruturais e funcionais do CHO. Neste momento investir em termos estruturais nestas unidades custa muito dinheiro e a principal mais valia não será essa.
Um novo hospital permitirá criar condições e instalações adequadas às necessidades da medicina actual e permitirá reter e captar muito mais médicos.