Feira do 15 de Agosto perde força mas pode ser salva pelas Tasquinhas

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A feira de 15 de Agosto tem vindo, ano após ano, a perder o seu cariz popular e de mostra regional e está a transformar-se progressivamente numa venda de roupa. Os caldenses continuam a procurar a feira, mas a falta de divertimentos e de condições fazem com que os visitantes sejam menos e os que compram também comprem menos. Agora alguns feirantes sugerem que este evento poderá ganhar força se se juntar às Tasquinhas.
Estas terão sido este ano visitadas por mais de 150 mil pessoas durante os dez dias em que decorreu a sua realização.
Num ano em que muitos portugueses optaram por passar as suas férias mais perto de casa, a 18ª edição da Expotur – Festa de Verão (nome mais pomposo pelo qual são conhecidas as “tasquinhas”) atraiu mais pessoas do que era habitual nos últimos anos.

A feira do 15 de Agosto é uma tradição que continua a perder força

A feira de 15 de Agosto tem vindo, ano após ano, a perder o seu cariz popular e de mostra regional e está a transformar-se progressivamente numa venda de roupa. Os caldenses continuam a procurar a feira, mas a falta de divertimentos e falta de interesse nos produtos à venda fazem com que os visitantes sejam menos e os que compram também comprem menos. A feira das Caldas já foi rainha na região, mas a estagnação parece estar a condená-la. Por isso até há feirantes que sugerem à autarquia para visitar outras feiras da região e aprenderem como se faz.
Quem não se recorda – não foi assim há tanto tempo – do circo visitar a cidade nesta altura do ano e de haver um conjunto de diversões que ocupava uma parte significativa do recinto? Ou ainda da presença de um parque de tractores agrícolas e de automóveis, que, para além da oportunidade de negócio, preenchia o imaginário dos mais pequenitos?
Este ano, quem procurava adrenalina não encontrou grande coisa. Uma pista de carrinhos de choque para crianças e outra para mais crescidos, mais três carrosséis, dois deles para crianças.
Júlio Tavares, proprietário da empresa Diversões Públicas, de Portalegre, é um dos mais críticos em relação a evolução da feira das Caldas. “Venho há mais de 20 anos e quando esta era uma feira recorde de época, fazia-se mais aqui em dois dias do que numa semana nas outras feiras”, recorda.
O empresário critica alguns feirantes e a organização – por falta de controlo – pelo declínio do certame. Queixa-se da ocupação excessiva de espaço pelas bancas, retirando mobilidade. “Este ano falhei com o Canguru [equipamento de diversão pneumático] porque se há um incêndio os carros dos bombeiros não passam”, alertou. Critica ainda a organização por deixar vender marcas falsas e de abuso na utilização da luz por alguns feirantes.
“O carrossel é uma tradição da feira, ainda não faltou nenhum ano, mas se continuar assim pondero não vir no futuro”, declarou.
As farturas são outra grande tradição da feira. Mas Jorge Dias, das Farturas do Cartaxo, é outra das vozes descontentes. “Foi muito mais fraco do que nos outros anos”, atirou rapidamente quando perguntámos se estava satisfeito com as vendas. O vendedor queixa-se de uma organização deficiente e convida a autarquia a visitar outras feiras da região, como Alcobaça e Torres Vedras.

Feira e Tasquinhas numa só?

Esta foi a 19.ª vez que as farturas do Cartaxo vieram às Caldas e Jorge Dias diz que “está sempre tudo igual, menos as vendas, que há 10 anos eram muito melhores”. As principais críticas que aponta são a falta de iluminação, o piso irregular e pouco limpo e a organização dos espaços. Jorge Dias também aponta o dedo a outros feirantes, que “entram e saem constantemente com os carros, montam e desmontam as bancas”. Tudo junto isto “tem afastado as pessoas, que vêm e compram cada vez menos”, salienta. Parte da solução, acredita, seria juntar no mesmo espaço a feira do 15 de Agosto com as Tasquinhas. A verdade é que, na mesma altura, junto à Expoeste, já havia equipamentos de diversão e um ambiente de feira.
No entanto, nem toda a gente saiu insatisfeita com o negócio. Zélia Reis, residente na Usseira, é também presença habitual, quer na feira de 15 de Agosto, quer no mercado semanal das Caldas da Rainha. “O primeiro dia foi bom e o segundo ainda correu melhor”, observou.
Zélia comercializa artigos para a casa, como panos, atoalhados e aventais. São produtos de fabrico nacional aos quais a própria dá um acabamento em bordado, o que confere ao que vende um toque de exclusividade. Notou uma quebra de procura nos últimos anos, mas assistiu a uma retoma este ano, pelo que acredita que o certame é ideal para mostrar este tipo de produto artesanal.
Miguel Cesteiro, comerciante de pronto-a-vestir de Torres Vedras, também ficou satisfeito com o resultado da feira. A meio da manhã de 15 de Agosto tinha a banca cheia de gente para levar os últimos produtos, pelo que a venda “superou as expectativas”, referiu.
“Nem toda a gente compra, mas só de ver a azáfama das pessoas já dá entusiasmo, é uma feira engraçada”, considerou. Mesmo assim, este foi o quarto ano que veio às Caldas e tem notado quebra de ano para ano.

Expoeste recebeu mais de 150 mil pessoas nas Tasquinhas

Mais de 150 mil pessoas terão passado pela Expoeste durante os 10 dias da realização da 18ª edição da Expotur – Festa de Verão, segundo os dados avançados pela organização. Num ano em que muitos portugueses optaram por passar as suas férias mais perto de casa, as “tasquinhas” das Caldas atraíram mais pessoas do que era habitual nos últimos anos.

“Desde há muito tempo que não estávamos tão satisfeitos com os resultados. Este ano a festa foi notoriamente mais participada e ultrapassámos os 150 mil visitantes a que nos tínhamos proposto”, disse, à Gazeta das Caldas, António Marques, director da Expoeste.
Para além de considerar que este ano estavam mais pessoas da região, o responsável entende que o programa de animação desta edição “foi ligeiramente melhor”, o que atraiu mais pessoas. Na sua opinião, como o primeiro fim-de-semana teve muito movimento, as próprias colectividades que participaram fizeram questão em reforçar a sua capacidade de serviço.
Houve noites, como os sábados e o 15 de Agosto, em que terão passado pelo pavilhão da Expoeste mais de 20 mil pessoas, “o que já não acontecia desde as primeiras edições da festa”. No almoço da Festa do Emigrante, dia 13, participaram cerca de mil pessoas.
No palco houve momentos especiais, não só da actuação de artistas e de conjuntos musicais, mas também de homenagens a algumas personalidades e até um desfile de bodypainting. Um dos momentos mais emocionantes terá sido durante o espectáculo da caldense Rebeca, quando subiu ao palco a sua bailarina, Telma Pessoa, que sofreu um grave acidente há uns meses. As duas cantaram, em dueto, o tema “Voltei a viver”.
Também no último sábado, 17 de Agosto, a actuação do grupo As Latinas prolongou-se até à uma da manhã, tal era o entusiasmo.
Segundo António Marques, todas as noites foram de festa e amizade entre todos. “Acaba por ser um ambiente familiar”, considera. Como não há entradas, as pessoas podem entrar e sair sem qualquer controlo “estando mais à vontade, o que não acontece noutros certames do género”, disse.
“Este é o exemplo que as Caldas pode ser um grande pólo de animação da região, pelo menos durante o Verão”, acrescentou ainda o responsável da Expoeste. As últimas noites foram menos quentes do que as primeiras e isso fez com que o pavilhão acabasse por ter um “ar condicionado” natural. No entanto, a direcção da Expoeste continua a falar na necessidade de se investir num equipamento de ar forçado para o pavilhão.
Na cerimónia oficial de encerramento, a 18 de Agosto, subiram ao palco entidades oficiais e representantes de todas as 20 tasquinhas que participaram. A atleta caldense Margarida Reis também subiu ao palco, assinalando a conquista do título de campeã nacional de voleibol de praia – Sub 20.

MARCA OESTE PROMOVIDA NO CENTRO

No encerramento esteve também o presidente da Região de Turismo do Centro, Pedro Machado, entidade que, no âmbito da reorganização do sector, passou a integrar a Serra da Estrela, Leiria/Fátima, Oeste e uma parte do Médio Tejo.
O dirigente salientou a importância de eventos como este para o turismo nacional e também para o associativismo. “A nossa cultura não é só a cultura erudita e clássica. Somos verdadeiramente um povo que tem nas suas tradições e raízes, provavelmente, a sua melhor base da sua cultura”, afirmou.
À Gazeta das Caldas, Pedro Machado admitiu que é “um grande desafio” o facto de a RTC ter passado a contar com 100 municípios. A sua intenção é criar uma coesão territorial “onde existem realidades muito diferentes”. O presidente da RTC garantiu que a marca Oeste irá continuar a ser promovida, associando-a às outras sub-marcas da região Centro. Para além de produtos como o sol e praia, o Oeste vai contribuir com a sua grande aposta no golfe “que era inexistente na região Centro”. Pedro Machado fez ainda um elogio ao trabalho desenvolvido por António Carneiro, à frente da extinta Região de Turismo do Oeste.
Ainda durante a cerimónia de encerramento, o presidente da ADIO, Abílio Camacho, referiu que no próximo ano a direcção da Expoeste pretende melhorar as condições do pavilhão, com algumas intervenções ao nível do som, palco e do ar condicionado. O presidente da Junta de Nossa Senhora do Pópulo, Vasco Oliveira, também interveio este ano, em nome dos seus colegas das juntas, para dar os parabéns pela iniciativa e deixar um apelo à Câmara para continuar a investir nesta festa.
Quem não quis subir ao palco nessa noite, embora tenha sido convidado várias vezes por António Marques, foi Fernando Costa, ex-presidente da Câmara das Caldas. Dias antes, durante a actuação de Mila Ferreira, Fernando Costa (que só esteve na Festa de Verão nessa quarta-feira e no domingo) foi ao palco e fez um discurso que não agradou a algumas pessoas, nomeadamente autarcas da oposição, porque acabou por falar nas eleições autárquicas.
Segundo António Marques, Fernando Costa subiu ao palco “porque é um amigo pessoal da Mila Ferreira” e também por ser “o presidente da Câmara eleito”, tendo em conta que tem o mandato suspenso e até “pode regressar se quiser”. Na sua opinião, as pessoas já estão habituadas “à exuberância” dos discursos do ex-edil caldense.

“As associações financiam-se aqui para o ano inteiro”

A Câmara das Caldas investe 100 mil euros na realização das tasquinhas, mas o retorno directo para as associações que participam será de cerca de 300 mil euros, segundo a estimativa de António Marques. “As associações financiam-se aqui para o ano inteiro”, disse.
Tinta Ferreira, presidente da Câmara em exercício, salientou a forma como todos, dos voluntários aos que vieram visitar e tomar as suas refeições à Expoeste, puderam colaborar com as colectividades do concelho. “A Câmara investe 100 mil euros, mas sai daqui um retorno dez vezes superior”, disse o autarca, na cerimónia de encerramento do certame.
Rute Pancada, presidente da Associação Recreativa do Coto, falou em nome de todas as tasquinhas para reafirmar essa importante ajuda financeira que é a participação neste evento. A dirigente agradeceu à Câmara esta iniciativa e a todos os voluntários que os ajudaram durante estes 10 dias.
As 20 tasquinhas que participaram este ano contaram com a ajuda de mais de mil voluntários, dos quais cerca de 600 estiveram todos os dias do certame. “Há um casal das Trabalhias que está na Alemanha e vem de férias nesta altura para poder estar na tasquinha da sua associação”, exemplificou o director da Expoeste. Como esse casal, há muitas outras pessoas que aproveitam as suas férias para trabalhar pela sua colectividade na Festa de Verão. “É também uma forma de reforçar o voluntariado”, comentou.
António Marques destacou ainda o facto da Festa de Verão contar com a colaboração profissional de uma engenheira alimentar, Susete Estrela, que permite garantir o que é servido durante a Festa. “É uma grande profissional e depois de ter começado nas tasquinhas das Caldas, já participa também nas tasquinhas de Rio Maior e de Santarém”, contou o director da Expoeste.
“De toda a comida que se faz, é congelada uma amostra para que, no caso de haver algum problema, poder-se analisar o que foi cozinhado”, referiu, garantindo que, até hoje, nunca houve qualquer registo de uma intoxicação alimentar na Festa de Verão.

Testemunhos
Maria Teodoro, 61 anos, ex-emigrante em França
Natural de Santa Susana, Maria Teodoro esteve emigrada em França durante sete anos, na década de 70. “Naquela altura passámos a fronteira ‘a salto’ e foi uma viagem que nunca mais repetia, foi uma experiência muito má”, contou. Naquela altura não havia oportunidades de emprego em Portugal e por isso, Maria Teodoro e o seu marido decidiram emigrar.
Durante algum tempo não participou na Festa Emigrante, mas desde há cinco anos decidiu aproveitar o facto de estar a trabalhar na Expoeste, na área da limpeza, para voltar a encontrar alguns amigos. “Aqui encontramos pessoas que estão na Suíça, na Alemanha e noutros países” e é sempre uma festa o reencontro. “Venho pelo convívio, pela comida que é sempre muito boa e pela forma como nos tratam”, concluiu.

António Figueiredo, 66 anos, ex-emigrante em França
Há 20 anos que António Figueiredo voltou de França, onde esteve emigrado de 1966 e 1989. Embora seja natural de Seia, desde que voltou a Portugal que está a morar no bairro dos Arneiros. “Casei com uma rapariga das Caldas e vim para cá”.
Esta foi a primeira vez que participou na Festa do Emigrante e como a entrevista foi realizada antes do início do almoço ainda não tinha nenhuma opinião sobre o evento. “Ouvi falar neste almoço e como nunca tinha vindo, decidi vir experimentar”, contou.

Maria Helena Ferreira, 73 anos, ex-emigrante na Alemanha
Maria Helena Ferreira, nascida nas Caldas da Rainha, voltou há 15 anos da Alemanha, onde esteve algumas décadas para fugir “da miséria que havia no país” quando emigrou. “Agora até parece que está pior porque dantes ainda havia algum trabalho, agora não há nada”, disse. Os dois filhos e três netos acabaram por ficar na Alemanha. “Costumam vir nas férias, mas da maneira que Portugal está, não querem voltar a viver cá”.
Depois de um ano de interregno, Maria Helena Ferreira voltou este ano à Festa do Emigrante. “Venho principalmente pelo convívio. De comida, graça a Deus, não temos falta”, comentou.
A caldense lamenta que durante tantos anos os emigrantes tenham trazido dinheiro para Portugal e agora ninguém os apoia. “Andam é a cortar e cortar no dinheiro que não foi cá ganho”, lamentou.

Marco Carvalheiro, 41 anos, emigrante em Inglaterra
Quando emigrou para Inglaterra em 2006, Marco Carvalheiro, natural das Caldas, estava longe de imaginar a crise que Portugal atravessaria.
“Na altura surgiu uma oportunidade trabalho, através de um familiar que já lá estava e decidi arriscar”, contou. Partiu com a mulher, Helena Carvalheiro, e o filho, André, que agora tem nove anos. Agora é Marco Carvalheiro quem tem também ajudado alguns portugueses a emigrar. Está a trabalhar há seis anos numa grande empresa de distribuição alimentar e tem algum poder de decisão que poderá permitir ajudar quem precisa.
“Ainda agora à entrada da Expoeste, uma senhora que me deu trabalho quando eu era jovem, e que também foi emigrante, veio pedir-me para tentar arranjar emprego para a filha em Inglaterra”, referiu.
Foi com a mulher, o filho e o sobrinho que Marco Carvalheiro participou pela primeira vez na Festa do Emigrante. “Costumo vir às tasquinhas todos anos e por acaso neste mesma tasca, do Nadadouro, onde estamos, porque sou um aficionado por enguias”, comentou.

Adélia Agulha, 69 anos, emigrante em França
Embora esteja já reformada, Adélia Agulha, nascida nas Caldas, continua a viver em França e não tem intenções de voltar de vez a Portugal. Tinha 18 anos quando foi para França e agora sente que toda a sua vida é naquele país, embora costume passar vários meses em Portugal durante o ano. “Eu adoro a França”, afirmou.
Adélia Agulha comentou que não vê muita crise entre os portugueses. “Vejo a toda a gente a viver bem, mas toda a gente se queixa. Os portugueses foram sempre assim”, ironizou.
Na sua opinião, a crise que existe é mundial e não só em Portugal. O mesmo acontece em França. “Nós não temos a culpa e sim quem nos governa”, disse.
Pela primeira vez esteve na Festa do Emigrante e estava muito contente por estar entre amigos, que a convidaram. “Estou a gostar. Só não gosto de ter que estar sempre a levantar-me se quiser comer

Joel Ribeiro
jribeiro@gazetadascaldas.pt

Pedro Antunes
pantunes@gazetadascaldas.pt