Futuro do Convento de S. Miguel será decidido este ano

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O convento de S. Miguel, propriedade da OesteCIM não acolhe atualmente qualquer atividade

Já foi a residência de frades franciscanos e chegou a acolher membros da família real. Foi propriedade privada, depois da Câmara de Óbidos e atualmente pertence à Comunidade Intermunicipal do Oeste (OesteCIM). Nos últimos anos, o Convento de S. Miguel tem estado fechado, abrindo portas apenas para eventos, como a Exposição de Presépios das Gaeiras ou outra iniciativa cultural ou solidária, mas a proprietária do espaço tem “na agenda” para este ano de 2021 uma decisão quanto ao seu futuro.
A Câmara de Óbidos foi dona do espaço entre 1984 e 1994, ano em que o vendeu à então Associação de Municípios do Oeste (AMO), que tinha por objetivo ali fazer a sede, juntamente com a criação de um museu e um centro de apoio a atividades económicas, mas que nunca se viria a concretizar. Como a autarquia “tinha uma dívida à AMO”, vendeu o edifício por 120 contos (600 euros), liquidando-a”, explicou à Gazeta o presidente da Câmara de Óbidos, Humberto Marques, acrescentando que o convento está classificado no Plano Diretor Municipal como espaço museológico.
A associação de municípios fez uma candidatura a fundos comunitários, que permitiram o restauro do edifício, bastante degradado e alvo de diversas pilhagens, assim como do espaço envolvente.
A intervenção foi feita entre 1998 e 2000 e de acordo com a Direção-Geral do Património Cultural, as obras de reabilitação e restauro incluíram também a “construção de raiz do edifício lateral direito, devido ao seu elevado estado de degradação”. Essa parte do imóvel, e coro da Igreja, foi depois alugada à empresa Águas do Oeste, enquanto que na área restante viria a ser desenvolvida uma incubadora de base tecnológica, denominada ABC – Apoio de Base à Criatividade, propriedade da autarquia obidense, que arrendou o espaço por uma década.
A incubadora começou a funcionar em 2009, com oito empresas instaladas. Aquando da inauguração do espaço, Gazeta das Caldas referia que as empresas na área das indústrias criativas teriam apoio à incubação, com um banco de horas, com serviços especializados às empresas nas áreas jurídica, financeira e contabilística.
“O espaço agora remodelado conta ainda com auditório, recepcionista, serviço de correio, acesso a telefone, fax e Internet. Vai ser aberto concurso para a concessão da cafetaria, em que a equipa será responsável pela organização de eventos como exposições, mostras, atividades desportivas e de lazer”, adiantava.
Durante cinco anos, aquele espaço foi a rampa de lançamento da estratégia da OBITEC, que culminou em 2015 com a passagem para os Edifícios Centrais do Parque Tecnológico de Óbidos, uma obra orçada em mais de 5 milhões de euros.
Também a empresa Águas do Oeste deixou o local, que nos últimos anos apenas é ocupado por eventos pontuais. Um desses casos é a Grande Exposição de Presépios das Gaeiras, que ali junta milhares de peças, feitas nos mais diversos materiais, e que atrai milhares de pessoas durante a quadra natalícia.
Este ano não se realizou devido à pandemia.

Reavaliação aumenta preço
Recentemente o deputado comunista na Assembleia Municipal de Óbidos, José Rui Raposo, questionou o autarca sobre a situação em que está o convento de S. Miguel.
Humberto Marques explicou que, em finais de 2013, aquela autarquia negociou com a OesteCIM a aquisição do imóvel por cerca de 550 mil euros, a serem pagos no prazo de dez anos. No entanto, as eleições autárquicas desse ano ditaram uma nova presidência da comunidade intermunicipal, que decidiu reavaliar o convento e que resultou em 1,5 milhões de euros.
“Falei com os meus colegas sobre o assunto e disse-lhes que por esse valor o município não estaria interessado em adquirir o convento”, explicou o autarca, que considera que o imóvel não tem esse valor económico. O autarca realça, ainda, que a classificação de interesse municipal restringe a utilidade que possa vir a ter. Mas Humberto Marques mostra-se “preocupado com a degradação do edifício” e iz aguardar a “diligência do presidente da OesteCIM para conversar sobre o assunto”. ■

História de um monumento marcante para a região

O convento de S. Miguel foi inicialmente construído no Arelho. A 29 de setembro de 1569 (dia do Arcanjo S. Miguel), foi lançada a primeira pedra e terá sido fundado pelo Cardeal Infante D. Henrique. E, apesar de o Arelho se afigurar como o local ideal para esta ordem religiosa se instalar, as más condições climáticas, sobretudo as humidades marítimas, ditaram a transferência do convento para as Gaeiras. O desejo é alcançado quando D. Dinis de Lencastre, Alcaide de Óbidos e Comendador da Ordem de Cristo e sua mulher, D. Isabel Henriques, ambos devotos da Ordem, oferecem o novo convento e compram o terreno nas Gaeiras. A construção tem início em 1602 e, quatro anos mais tarde, já se faziam ofícios religiosos na capela-mor, refere a junta de freguesia das Gaeiras na sua página.
A nível arquitetónico, a sua construção é tipicamente a de um convento franciscano. A fachada da igreja tem uma galilé coberta, situando-se ao fundo de um adro de romaria. Ladeando a porta estão dois nichos de azulejos com figuras representativas de atos religiosos: à esquerda o monge franciscano-capucho, de olhos vendados, cadeado na boca e fechadura no peito e, à direita, uma representação de S. João Baptista. Sobre a janela do coro, também em azulejos, as figuras de S. Roque e S. Barnabé e, em pedra, uma escultura de S. Miguel do século XVIII. Na portaria, numa espécie de altar, um grupo de imagens de barro, em tamanho natural, representam a morte de S. Francisco. O pátio interior é composto por pilares simples, com uma fonte central e com uma pequena capela de teto em abóboda pintada e com um altar. A igreja é constituída por dois altares laterais, coro com cadeirado e púlpito e, no retábulo do altar-mor, há uma pintura seiscentista representa S. Miguel, ladeada por ornamentos de talha dourada, descreve o mesmo site.
O edifício tinha também as habituais dependências conventuais, como é o caso das oficinas, dormitório, capela, pátio interior e espaço exterior, que convidava os monges a um passeio de reflexão. Havia ainda uma horta, pomares de fruta e uma fonte. ■

 

A incubadora de base tecnológica foi inaugurada em 2009 e funcionou naquele espaço até 2015
Imagem do imóvel em 1998, em elevado estado de degradação e antes de sofrer a intervenção de requalificação
O monumento tem albergado nos últimos anos a grande Exposição de Presépios das Gaeiras, que conta com milhares de peças feitas nos mais diversos materiais