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Histórias revolução contadas na primeira pessoa

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Carlos Cedoura e João Penteado partilharam as suas memórias numa conversa moderada pelo presidente da Junta de A-dos-Negros, Ricardo Santos

João Penteado e Carlos Cedoura não só viveram o 25 de abril de 1974 como foram protagonistas dos acontecimentos militares que derrubaram a ditadura e deram origem à revolução

O cabo João Penteado era o condutor do primeiro dos dois M47 (carro de combate, blindado, com maior poder de fogo do Exército Português) que se passaram para o lado das forças revoltosas, no Terreiro do Paço, na manhã de 25 de abril de 1974. Um dos “rapazes dos tanques”, como ficou conhecido no livro de Alfredo Cunha e Adelino Gomes, é natural da Amoreira, onde continua a residir, e partilhou o seu testemunho, juntamente com o então furriel de transmissões, Carlos Cedoura, na noite de 23 de abril, em A-dos- Negros, 52 anos volvidos da revolução, da qual foram protagonistas.

Na altura com pouco mais de 20 anos, João Penteado cumpria o serviço militar no Regimento de Cavalaria 7 (RC7), na Calçada da Ajuda (Lisboa). Na noite de 24 para 25 de abril tinha ido pernoitar na casa do cunhado, em Odivelas quando, de madrugada recebe um telefonema para se apresentar no quartel. Pelo taxista que o levou foi tendo conhecimento dos comunicados do MFA. O cabo condutor segue então com o cabo apontador José Acácio Moreira (natural de Salir do Porto), sob o comando do furriel Jorge Clemente, da Calçada da Ajuda para a Ribeira das Naus. É lá, que depois das conversações, acabam por passar para o lado das forças contrárias, depois das conversações do major Pato Anselmo (RC7) com o capitão Salgueiro Maia. “O Pato mal vestido [por estar à civil e com botas de montar calçadas] até chorou”, recorda João Penteado, apesar da superioridade bélica das forças afetas ao regime.

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Ao início da tarde o tanque, de 44 toneladas, ruma à Penha de França, deixando atrás de si um rasto de sinais partidos e carros abalroados, para cercar o quartel general da Legião Portuguesa. Durante o caminho ficaram sem chefe de carro, que “saiu porque estava maldisposto e nunca mais o vi”, recorda João Penteado, referindo-se a Jorge Clemente. O M47 acabaria por ficar longas horas em frente ao quartel, de prevenção, e João Penteado haveria por comer alguma coisa oferecida pelos muitos populares que se iam juntando para ver a revolução acontecer.

A operação clandestina
Mas o golpe militar que derrubou a ditadura no dia 25 de abril não se fez apenas no Terreiro do Paço, com viaturas militares e os soldados na rua. As telecomunicações foram decisivas para o sucesso do golpe levado a cabo pelo Movimento das Forças Armadas (MFA) e o então furriel miliciano Carlos Cedoura, de Peniche, teve um papel decisivo nas operações. Colocado na Escola Prática de Transmissões, chefiava, aos 23 anos, uma equipa de guarda fios que tinha por missão assegurar as transmissões militares na região de Lisboa. Na manhã de 22 de abril foi contactado pelo capitão Veríssimo da Cruz, seu chefe de serviço, informando-o que iam “desenvolver uma ação”, pelo que necessitava de transmissões, assim como da sua intervenção e de cerca de 20 soldados. Não lhes foi dito que trabalho era, mas foi-lhes acenado com a possibilidade de dias de férias (para irem às suas terras) e reforço de comida e bebida, e todos acederam sem perguntas.

A operação clandestina tinha por objetivo a instalação de um cabo telefónico aéreo, que ligaria a central telefónica do Exército ao Regimento de Engenharia, na Pontinha, onde foi instalado o posto de comando do MFA. Eram mais de três quilómetros de cabo, colocados durante a noite e, graças a ele foi possível transmitir as escutas realizadas e o movimento dos revoltosos planear sempre o passo seguinte com acesso a informação detalhada. Quando os mais curiosos os abordavam sobre o que andavam a fazer, Carlos Cedoura respondia que não sabia e que apenas cumpria ordem, mas que “devia de ser por causa do 1º de Maio”.

“Foram horas de angústia”, as que mediaram entre a instalação do cabo, na noite de 24 de abril e o dia seguinte, e que tiraram o apetite ao furriel miliciano que apenas conseguiu jantar “meia omelete”. Já o dia 25 de abril foi passado a ouvir os comunicados, no quartel. A meio da tarde, o capitão Pena Madeira (que chefiou, com Veríssimo da Cruz, a operação de instalação do cabo telefónico até à Pontinha), foi à sua procura, deu-lhe um abraço e felicitou-o.

A conversa com os dois intervenientes na revolução, integrada no evento “A conquista da Liberdade”, foi organizada pela Junta de Freguesia de A-dos-Negros. O presidente da Junta, Ricardo Santos, recordou que esta localidade do concelho de Óbidos tem uma “afinidade grande” com o 25 de Abril, que sempre é comemorado com uma “atenção particular”. “Queremos celebrar o que Abril nos trouxe”, exemplificando com a oportunidade das pessoas estarem juntas numa sessão, e as eleições autárquicas, que “são o expoente da democracia”.

Este foi, aliás, o primeiro momento formal em que aquela autarquia de base quis evocar os 50 anos das primeiras eleições autárquicas, seguindo-se nova evocação no Dia da Freguesia, em julho, e terminando em dezembro com um momento mais solene. No dia 25 de abril, as comemorações incluíram uma tarde cultural e um lanche aberto à população.

A plateia também participou com algumas histórias da sua vivência naquele período
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