Jornalismo deveria ter apoio estatal para ser independente

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A falta de autonomia financeira coloca publicações sujeitas a pressões, sustenta o caldense Ricardo Dias Felner

Ricardo Dias Felner trabalhou no Público durante 11 anos, tendo passado por várias secções desde o Local, a Justiça e a Política. Ao longo daquele percurso, fez o acompanhamento noticioso de São Bento, ou seja, dedicava-se ao dia-a-dia do governo. E foi o responsável pelas primeiras notícias que marcaram o início da queda de José Sócrates, com a investigação das irregularidades do curso obtido na Universidade Independente. Mais de uma década volvida, admite ter sido alvo de pressões.
Na opinião do caldense, as grandes pressões que os jornalistas sentem “são sobretudo de índole política e económica”. O jornalista, de 44 anos, considera que a partir do momento em que os meios de comunicação social estão a perder a sua autonomia financeira, “vão ficando na mão dos poderes políticos e da publicidade que chega através do tecido económico”.
Um dos maiores problemas que os jornais enfrentam hoje “é a falta de leitores em banca” e, não havendo lucro por essa via, “há cada vez uma maior dependência da publicidade”, disse Ricardo Dias Felner.
E há vários exemplos. Quando estava na direção da revista Time Out, “um importante grupo de restaurantes de Lisboa queria fazer depender a entrada de dinheiro na revista em troca de noticiário positivo”. Algo a que se opôs, garante o caldense, referindo que este tipo de interferência nos conteúdos editorias “acontece nos mais variados tipos de publicações”. Atualmente mais dedicado à gastronomia, refere que houve um chef de cozinha que o pressionou abertamente em relação a um conteúdo editorial. Ou seja, “as proposta de alterações de conteúdos vêm de todos os setores de atividade”, especifica.
Para o jornalista, quando surge uma notícia negativa de algo que diga respeito a grandes marcas, “estas são capazes de retirar a publicidade prevista para um ano para jornais e revistas…. E são dezenas de milhares de euros que deixam de entrar…”. Por isso, o modelo de negócio dos jornais de todo o mundo tem de mudar e alguns até já o fizeram. “Hoje, o The New York Times, depois de vários anos de grande crise financeira, vive da subscrição dos leitores”, afirmou. “Esta mudança deu à publicação grande autonomia financeira mas não podemos esquecer que esta tem leitores no mundo inteiro”, garante.

É necessário que haja condições para a que a profissão possa ser exercida de forma independente

 

Financiamento estatal
Para Ricardo Dias Felner, em Portugal é necessário um mecanismo independente de financiamento público do Estado, tal como já se faz com a RTP e com a Lusa.
“É preciso criar condições, do ponto de vista legal, para proteger a profissão e a sua independência”, disse o caldense, que considera que ser jornalista é dar voz a quem não a tem.
O que se constata, em muitas situações, é que atualmente “se dá voz a quem tem dinheiro”, considera. E, assim, quanto mais vulneráveis estiverem os jornais e jornalistas “mais sujeitos estão a pressões”.
Ricardo Dias Felner gostaria de ter continuado a fazer jornalismo de investigação mas, para tal, é necessário ter “conforto e alguma proteção que venha dos próprios jornais. E estes também não estão em posição de o fazer”, explica o profissional, que saiu do Público em 2009, pois foi convidado para ir para a revista Sábado.
“Nunca gostei de fazer a mesma coisa durante muito tempo”, referiu o profissional, que indica que a experiência mais desafiante até agora que enfrentou tenha sido a de chefiar a Time Out, dado que dirigiu a revista numa época difícil devido a “constrangimentos vários”.

O The New York Times vive hoje da subscrição dos leitores, salienta Ricardo Dias Felner

O caldense não queria ceder no rigor e nos conteúdos editoriais jornalísticos e também não podia ser tão exigente com uma redação mal paga. “Portanto, vivia nessa tensão, pois tinha consciência que as pessoas não tinham o conforto financeiro e as condições de trabalho devidas, algo que acontece em quase todo o lado”. Saiu pelo próprio pé da Time Out em 2016 e é freelancer desde então, dedicando-se à informação sobre comida. Porém, assevera que não é um jornalista gourmet, pois, na verdade, dedica-se à alimentação “desde a produção até ao consumo”, esclarece.
“Esta é também uma área fascinante, com muito para descobrir e muitas histórias para contar”, disse o autor, que tem blogue, livros publicados e que até coordena workshops relacionados com áreas específicas.

Em março de 2020, lançou o livro “O Homem que Comia Tudo”, que reúne textos que o caldense publica no seu blogue e também nos jornais Público e Expresso e nas revistas Grandes Escolhas e Time Out. Além disso, leciona cursos de escrita gastronómica e áreas específicas como a “comida picante”. ■