JOSÉ LUIS ANICETO – ser contabilista quando não havia computadores

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Trabalhei neste escritório desde 1973 a 2007 e deixei a sociedade a dois trabalhadores | ISAQUE VICENTE

84 ANOS
CASADO, UMA FILHA E UMA NETA

Nasci em Torres Vedras em 22 de Setembro de 1932 e vim para as Caldas da Rainha com nove anos. O meu pai tinha cá um irmão (o meu tio Artur Aniceto) dono da drogaria Beleza, que ficava ali na rua Heróis da Grande Guerra onde mais tarde viria a ser a Casa Caldeano. Foi ele que o convenceu a mudar-se com a família para cá onde tomou de trespasse a Pensão Cristina, na travessa da Cova da Onça.
Nos anos 40 aquela travessa fervilhava de actividade. A pensão do meu pai era também uma taberna e um restaurante e ali se juntava muita gente, não só os hóspedes, na sua maioria caixeiros viajantes, como pessoal das Caldas que ali almoçava, jantava ou ia para os petiscos.

Eu cresci ali e muito cedo comecei a ajudar o meu pai, a servir na taberna, a fazer os registos dos hóspedes, a ir às compras à Praça da Fruta e à Praça do Peixe (Praça 5 de Outubro). Às tantas, apesar de muito novo, tornei-me o braço direito dele.
Por isso ele não viu com bons olhos que eu quisesse continuar a estudar. Eu tinha feito a 3ª classe em Torres Vedras e a 4ª classe já cá nas Caldas e ele achava que isso já era suficiente porque a minha colaboração na Pensão Cristina era-lhe indispensável.

A IMPORTÂNCIA DOS REFUGIADOS

Ainda por cima, nessa altura (entre 1939 e 1945)  Caldas da Rainha estava cheia de estrangeiros, refugiados da II Grande Guerra, que fugiam de uma Europa destroçada, perseguidos pelos nazis por serem judeus ou pelas suas convicções políticas.
Eram gente com dinheiro e a sua presença era um maná para o comércio caldense.  Era ali na travessa Cova da Onça que eles tinham o comité judaico e o restaurante da Pensão Cristina era muito frequentado por eles. Tinham o hábito da ceia, de se juntarem lá após a hora do jantar, de tal forma que o meu pai fazia mais negócio entre as dez da noite e a uma da manhã do que durante o resto do dia. É que aquela malta tratava-se bem, gostavam muito de marisco, comiam muita lagosta, bons vinhos e lembro-me que havia um prato que hoje caiu em desuso e que na altura fazia furor: a omelete com rum.
Depois da guerra o movimento diminuiu. Os refugiados partiram. E eu lá consegui convencer o meu pai a ir estudar à noite. Em 1946 matriculei-me na Escola Rafael Bordalo Pinheiro, que ficava atrás do Chafariz das 5 Bicas, e fiz lá o curso geral de comércio. É claro que continuava a trabalhar durante o dia para o meu pai, mas, mesmo assim, ele teve que meter um empregado para me substituir à noite.
A minha vida não mudou muito quando, quatro anos depois, acabei o curso. Tinha 18 anos e continuei a ser o braço direito do meu pai na Pensão Cristina. Agora já percebia alguma coisa de contabilidade e fazia a parte burocrática do negócio. A pensão continuava a ser frequentada por muitos viajantes, que também tomavam lá as refeições e a taberna tinha igualmente muito movimento.
Aos 21 anos fui para a tropa. Assentei praça cá nas Caldas, no RI5, onde fui estrear o (então) novo quartel. Fiz o curso de Sargentos Milicianos e seis meses depois fui para Lisboa, onde passei mais seis meses, até me terem dado guia de marcha para passar mais seis meses em Leiria. Pelo meio fui duas vezes em manobras para Santa Margarida.
Depois de servir a Pátria voltei, claro está, para a Pensão Cristina.
Mas eu não queria continuar lá. Trabalhava-se de manhã à noite, sete dias por semana e só muito a custo é que eu conseguia umas horas livres para ir jogar futebol – a minha grande paixão na época, ao ponto de ter sido campeão distrital pelo Caldas.

 

OS CAPRISTANOS, AQUELA GRANDE EMPRESA

Com 22 anos fui pedir emprego ao Sr. Artur Capristano. Ele era uma das pessoas mais ricas e mais influentes da terra, dono, com o irmão José, da empresa Capristanos, cujas camionetas circulavam por toda a região e com garagens nas principais cidades e vilas entre Marinha Grande e Lisboa.
Em 1954 a empresa vivia um período de expansão. A garagem das Caldas, a maior e mais bonita da Península Ibérica tinha sido inaugurada em 1949 e aquilo tinha um movimento incrível. Havia um empregado que só tinha como função andar o dia todo a limpar os pingos de óleo que caíam no chão para manter o piso sempre limpo.
As próprias oficinas eram, na prática, uma fábrica pois ali chegavam apenas os chassis dos autocarros e tudo o resto era ali montado até o veículo ficar completo. Ali trabalhavam bate chapas, pintores, mecânicos, serralheiros, carpinteiros, estofadores, torneiros, electricistas e fundidores.
Entre motoristas, cobradores, empregados de escritórios e pessoal das oficinas, a garagem das Caldas deveria ter à volta de 180 pessoas.
E eu fui mais um. Comecei a trabalhar nos escritórios das oficinas e dois anos depois fui para os escritórios centrais. Ainda hoje guardo um documento dos Capristanos, de 22 de Setembro de 1960, no qual estão as tarefas atribuídas aos funcionários dos escritórios. As minhas eram as seguintes: “todo o movimento de combustíveis e lubrificantes e pneus e câmaras, mapas de consumo médio de gasóleo e óleo, escritura os livros auxiliares respectivos e ainda os de seguros e sinistros, devedores e credores, bancos, juros e descontos e material circulante e tira os respectivos balancetes. Conferência de contas-correntes. Examina os candidatos a cobradores. Confere as guias de remessa de despachos com bónus e tira as respectivas notas de lançamento”.
Quando em 1961 os Capristanos venderam a empresa aos Claras, ainda quiseram que eu fosse para Torres Novas porque a sede da empresa passou a ser lá, mas eu não quis ir. Ninguém me tirava das Caldas da Rainha.
A pouco e pouco eu fui ficando com menos trabalho. O pessoal dos escritórios foi minguando e às tantas puseram-me a fazer inventários e arrolamentos, uma coisa desinteressante. Vi que isto nas Caldas já não tinha futuro e fui-me embora.
Entre 1966 e 1972 fui trabalhar como contabilista para o Bento Lourenço da Silva, que tinha uma empresa de reparação e venda de automóveis e maquinaria agrícola. Tinha a oficina e stand na rua Heróis da Grande Guerra, mas, seguindo a tendência das empresas do sector, acabaria por mudar as instalações para a Estrada da Tornada.

 

PATRÃO DE MIM MESMO

Mas em 1973, estava então com 40 anos, decidi que era altura de ser patrão de mim mesmo. Como era angariador de seguros na Companhia Tranquilidade e tendo uma carteira de clientes que justificava um atendimento personalizado num espaço aberto ao público, eu e o meu irmão António Alfredo (que também  exercia serviços de contabilidade no período pós laboral), decidimos constituir uma sociedade de contabilidade e seguros: a José Luís & António Alfredo Aniceto, Lda., que funcionou desde sempre – e ainda funciona – na rua Coronel Soeiro de Brito.
Dado que o meu irmão era funcionário a tempo inteiro na Associação Mutualista Rainha D. Leonor (Montepio), fiquei responsável pelo escritório. E como também estava vinculado a duas empresas em regime de part-time, contratámos uma funcionária.  Um ano mais tarde  e com o aumento de clientes contratamos outra funcionária a tempo inteiro e outro a tempo parcial.
A economia foi crescendo, novas empresas foram surgindo nas Caldas e noutros concelhos e tivemos  necessidade de contratar um novo funcionário. Eram outros tempos em que abriam cada vez mais empresas e não se ouvia falar que fechavam empresas umas a seguir às outras.
Ser contabilista há 40 anos era muito diferente.  Não havia computadores e fazia-se tudo à mão. Os equipamentos eram pouco eficientes e os lançamentos eram processados numa pequena prancheta manual, onde se colocavam três folhas -Acumulador, Débito e Crédito –  e ainda as folhas de papel químico. Era necessário uma certa perícia no seu manuseamento para que as folhas não se deslocassem das respectivas colunas. Senão lá teríamos de fazer tudo de novo.
Mais tarde investimos numa máquina de contabilidade computorizada, que tinha de ser carregada manualmente com um sistema de cartões perfurados, com os programas de contabilidade e processamento de salários. Esta aquisição foi uma mais valia para a empresa, já que o trabalho era executado com mais rapidez e eficácia.
Algum tempo depois, e com a evolução da tecnologia, adquirimos dois computadores que facilitaram muito o nosso trabalho de contabilistas.
As máquinas ajudam muito, mas não nos fazem trabalhar menos. Só aumentam a produtividade: com o mesmo de número de horas, produzimos mais. O trabalho rendia mais.
À custa de muito trabalho, este escritório foi o meu ganha pão durante 35 anos. E de tal forma cresceu que chegámos a ter sete empregados.
Reformei-me em 2006, quando fiz 65 anos, e eu o meu irmão deixamos a sociedade ao António Ramalho e à Teresa Duarte, que já cá trabalhavam. Às vezes ainda aqui venho visitá-los, mas já não sinto isto como se fosse meu. É só para cumprimentar o pessoal e ver se está a correr tudo bem.
Vivo na rua Dr. Figueiroa Rego. Quando, em 1957, me casei com a Maria Elisete, uma rapariga do Valado de Santa Quitéria, saí da casa dos meus pais na Pensão Cristina e troquei a travessa Cova da Onça pelo Bairro Viola. Depois vivi no Beco das Flores, onde estava a fábrica do Caiado, e mais tarde mudamo-nos para aqui, onde agora, já com a minha filha casada, vivo sozinho com a minha mulher.
Ocupo grande parte do tempo a ler. Leio a Gazeta das Caldas, a Bola e o Avante!. E vejo muita televisão, sobretudo o desporto e os noticiários.
Também desempenhei alguma actividade associativa. Desde a direcção do CCC (Conjunto Cénico Caldense), passando pela Columbófila e pela Cooperativa Editorial Caldense, que detém a Gazeta das Caldas.
Até há dois anos fui membro da concelhia local do PCP, partido do qual sou militante desde 1974. Antes do 25 de Abril, apesar de não ser muito politizado, eu era claramente contra o regime e é curioso que o meu pai, apesar de ser um empresário, tinha ideias de esquerda e até dava em segredo algum dinheiro para as viúvas e para as mulheres dos militantes do Partido Comunista que estavam na cadeia. Isso era uma coisa que já vinha de Torres Vedras, que era uma terra que tinha muitas fábricas e havia sempre alguns operários que eram presos, às vezes só porque estavam a vender o Avante, que era proibido.
Por isso, eu sempre simpatizei com o PCP e quando foi o 25 de Abril, que representou para mim uma enorme alegria, com o entusiasmo da revolução inscrevi-me no partido e cheguei a ser deputado municipal.