Lalanda Ribeiro: “Não há nada que chegue à experiência de presidente de Câmara”

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Os candidatos Lalanda Ribeiro e Arlindo Rosendo num debate que decorreu na Casa da Cultura

Formou-se em Matemática e, apesar de não querer seguir as pegadas da família, foi “senhor professor” durante quase quatro décadas. Mas a vida de José Luís Lalanda Ribeiro é também indissociável da política das Caldas e da Santa Casa da Misericórdia

Talvez tenha herdado a vocação para a política do pai, José Lalanda Ribeiro, que foi vice-presidente da Câmara e vereador com os pelouros da Educação e Cultura, entre as décadas de 1950 e 1970, período em que se construíram grande parte das escolas do concelho. “Fui-me habituando a ver a sua atividade e a partir daí, inconscientemente, fui ganhando o gosto pela política”, assume José Luís Lalanda Ribeiro, que se iniciou na política após o 25 de Abril.
Formou-se em Matemática, pela Universidade de Coimbra, embora tenha feito praticamente todo o curso em Lisboa. Na cidade dos estudantes realizou apenas o exame de admissão à faculdade e lá voltou no final do curso para concluir a tenebrosa cadeira de Álgebra Superior.
Filho e neto de professores, queria romper com a tradição familiar, mas a vida trocou-lhe as voltas. Acabado o curso em maio de 1970, começou a procurar trabalho ao mesmo tempo que tirou cursos de computador. Mas como não conseguiu encontrar emprego e o ano letivo estava prestes a começar, decidiu concorrer e ficou colocado numa escola preparatória em Benfica. Gostou da experiência no ensino e, com a criação da secção liceal nas Caldas no ano seguinte (1971) concorreu e voltou a casa.

“Fui o primeiro, juntamente com o padre Eduardo, a darmos aulas na secção liceal”, recorda aquele que viria a dedicar-se ao ensino durante perto de 40 anos. Em 1973 volta a Coimbra para fazer a profissionalização e estágio, agora já casado e juntamente com a esposa, também ela professora, residem numa casa em frente do Quartel General da Guarda Republicana, que no dia 25 de Abril de 1974 não abriu as suas portas.
No mês seguinte começaram as sessões de apresentação dos partidos e Lalanda Ribeiro, que sempre tivera uma simpatia pela social-democracia assiste a uma sessão com Barbosa de Melo (um dos fundadores do PSD). Com o fim do estágio, volta às Caldas e adere ao partido, antes do verão quente de 1975, e em pouco tempo já era o presidente da Comissão Política, que tinha como principal função elaborar listas para as primeiras eleições autárquicas. “Começámos a pensar em nomes para convidar, nunca me passou pela cabeça ser o candidato. Eu queria ir para a Assembleia Municipal”, recorda.
A dificuldade em encontrar pessoas disponíveis, entre comerciantes de renome e profissionais liberais foi grande, pois ainda se viviam tempos de indefinição face ao futuro político do país e a pressão feita junto do então professor levaram-no a avançar como cabeça de lista. Tinha 36 anos e foi o primeiro presidente eleito da Câmara das Caldas, exercendo dois mandatos.
Desses primeiros tempos do poder local destaca o apoio prestado às populações rurais. “Em 1977 apenas 35% do concelho estava eletrificado”, recorda, acrescentando que quando deixou o executivo, em 1982, a eletricidade já chegava a praticamente todo o concelho. Também as vias de comunicação receberam grandes melhorias, muito devido ao trabalho das juntas de freguesia e suportadas pelas verbas da Câmara e também do Estado.

“Havia um entendimento grande entre todo o executivo. Sempre que um fazia anos, juntávamo-nos em casa do aniversariante a seu convite”

Lalanda Ribeiro, primeiro presidente da Câmara das Caldas da Rainha após o 25 de Abril

Lalanda Ribeiro começou por governar uma câmara constituída por três vereadores do seu partido, mais três do PS e um do CDS. Todos tinham pelouros, pois exerciam funções a par da sua atividade profissional. Acima de tudo, eram amigos de longa data.
“Havia um entendimento muito grande, sempre que um de nós fazia anos, juntávamo-nos em casa do aniversariante, a seu convite, para inicialmente tomar um café e depois jantar”, lembra.
Presidente de Camara entre 1976 e 1982, não se recandidatou a um terceiro porque entrou em divergências no partido. “Não concordava com algumas posições tomadas, nomeadamente na Assembleia Municipal, e deixei de participar nas reuniões. Quando foi momento de fazer uma nova candidatura, entenderam que não devia ser eu”, revela.
A decisão da Concelhia recaiu em Mesquita de Oliveira, mas os Paços do Concelho acabariam por ser ocupados pelo engenheiro Paiva e Sousa, que, embora social-democrata, concorreu pelo CDS. Já a Assembleia Municipal foi ganha pelo PSD, liderada por Lalanda Ribeiro, que seria, também, deputado na Assembleia da República, em 1987, na primeira maioria absoluta de Cavaco Silva.
Estar no Parlamento foi uma experiência que apreciou, mas que não lhe encheu as medidas como a de presidente de Câmara. “Não há nada que chegue a essa experiência”, realça. Em meados da década de 1990 ainda manifestou disponibilidade para voltar, numa altura em que Fernando Costa disse que não se iria recandidatar, mas não se chegou a concretizar.
Durante todo esse tempo foi membro da Assembleia Municipal, grande parte do tempo como presidente, mas também durante alguns mandatos como líder da bancada municipal. Cordato e agregador de consensos, dá-se bem com todos os eleitos, mas entende que a oposição tem andado “um bocadinho adormecida”. Relativamente às próximas autárquicas, já tem a decisão tomada, mas diz que primeiro quer informar o presidente da Concelhia.
Indissociável do seu percurso é também a ligação à Santa Casa da Misericórdia das Caldas. “Faz parte da minha educação”, lembra o caldense, que foi provedor da instituição durante 34 anos e deixou funções há menos de quatro meses.
Dos tempos de criança recorda as idas à instituição a acompanhar o pai, que era delegado escolar, de levar cigarros aos idosos e as missas do galo. Depois, já na juventude, fundou, juntamente com um grupo de amigos, uma conferência de S. Vicente de Paulo para jovens, denominada Conferência de Cristo Rei, em que ajudavam os mais necessitados com bens materiais, mas também para conversar com eles.
Admirador do Papa Francisco e João Paulo II, Madre Teresa de Calcutá e Martin Luther King, Lalanda Ribeiro teve a vertente social muito presente na sua vida e, também por isso, um dos problemas que procurou resolver quando chegou à autarquia, foi o dos bairros periféricos, adquirindo os terrenos aos proprietários dos Bairros das Morenas e S. Cristóvão e procurando legalizar a situação das pessoas que lá moravam. ■

Os problemas crónicos do concelho das Caldas que perduram há décadas

Assoreamento da Lagoa, Linha do Oeste, termalismo e saúde são os grandes assuntos que continuam por resolver

“Quando cheguei à Câmara disseram-me que os estudos [para resolver o assoreamento] já eram tantos que chegavam para cobrir a superfície da lagoa”. É assim que Lalanda Ribeiro recorda um dos problemas crónicos do concelho, que era anterior à sua gestão e ainda hoje perdura.
O antigo presidente da Câmara garante que a autarquia fez as diligências “possíveis e imaginárias” e que, inclusivamente, levaram o então Presidente da República, Ramalho Eanes, a visitar a lagoa, numa das visitas que fez às Caldas.
Mas uma das memórias mais felizes resulta de uma conversa com o então primeiro-ministro, Francisco Pinto Balsemão, para que o governo assegurasse as dragagens. Passado pouco tempo, chega ao município a informação de que uma draga viria para a Lagoa dentro de pouco tempo, o que era ótimo… não fosse a informação estar errada. Afinal, o governante tinha sido mal informado e a draga deveria seguir não para a Lagoa de Óbidos, mas para a Lagoa de Fermentelos.
“Como já tinha dado a palavra e, inclusive, visitado da lagoa, o primeiro-ministro acabou por fazer todas as diligências e a draga veio, efetivamente, para cá”, recorda

Antigo autarca não aceita a displicência do Governo em relação a investimentos estruturantes na região

A modernização da Linha do Oeste é outro problema que se arrasta há décadas. “Também fomos das últimas zonas do país a ter uma autoestrada. Não percebo, com o potencial que a região Oeste tem, esta displicência que há por parte das entidades governamentais”, salienta.
Também as dificuldades ao nível da saúde são caras a Lalanda Ribeiro. E se o Hospital Termal está a funcionar, porque está sob alçada da autarquia, como faz questão de realçar, o investimento no Centro Hospitalar do Oeste é uma urgência, defendendo a recuperação das unidades das Caldas e de Torres Vedras enquanto não se decide a construção do novo hospital na região, que poderá levar décadas.

Caldas representava o país
Uma das “joias da coroa” dos mandatos foram as feiras, da Cerâmica e da Fruta, que se realizavam no Parque D. Carlos I, bastante importantes para a dinamização do tecido económico e que atraíam muitas personalidades, entre elas políticos como Ramalho Eanes.
“Sentia-se bem nas Caldas, parece-me”, refere Lalanda Ribeiro, dando nota de uma “certa abertura” com o general, muito devida ao seu amigo coronel Aventino Teixeira (militar de Abril), que era também amigo de Ramalho Eanes e quem o encaminhou para a cidade termal.
Também no estrangeiro, Caldas representava o que de melhor se fazia a nível nacional, nomeadamente em certames como a Feira Internacional de Cerâmica e do Vidro, em Valência (Espanha).

Os Encontros Internacionais de Arte, realizados nas Caldas, foram um marco para a arte em Portugal

Lalanda Ribeiro lembra o trabalho “muito importante” do seu vereador, José Valente, que levou mais de duas dezenas de empresas portuguesas, entre elas a Vista Alegre, a mostrar o seu trabalho no Pavilhão das Caldas da Rainha. De resto, na sua edição de 18 de fevereiro de 1981, a Gazeta das Caldas, dá conta da presença dessa participação e refere que, como contrapartida, “os espanhóis estarão presentes em força na Feira de Cerâmica das Caldas da Rainha, que se realizará no próximo mês de julho”.
Também é dos seus mandatos a realização dos IV Encontros Internacionais de Arte, que decorreram nas Caldas em agosto de 1977, com a participação de mais de 120 artistas nacionais e estrangeiros. A iniciativa ocorreu na cidade devido à relação de amizade entre um dos organizadores e a vereadora da Cultura, Exaltina Nogueira, e foi um marco cultural.
“Muitas pessoas não aceitaram muito bem o tipo de arte que se estava a fazer, mas a verdade é que tínhamos lá artistas que vieram a ser de renome”, salienta o ex-autarca que soube dos tumultos pelos jornais. Tinha ido, pela primeira vez à terra da esposa, nos Açores, e quando se apercebeu do que passava ainda tentou regressar para tentar solucionar o problema, mas não conseguiu voo. “Acho que foram importantes e são um marco para a arte em Portugal. Tenho pena que nunca se tivesse conseguido concretizar a vinda para as Caldas das obras que foram feitas e que estão em Vila Nova da Cerveira”, concretiza. ■