Memórias do João Soviético, que estudou do lado de lá da Cortina de Ferro

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oão Santos numa aula de checo

Tinha 18 anos quando viajou para a Checoslováquia para estudar a expensas da solidariedade comunista internacional. Seis anos antes da queda do muro de Berlim, ficou encantado com a qualidade de vida e a liberdade que ali se desfrutava. Trinta e sete anos depois contou à Gazeta das Caldas as suas vivências do lado de lá da Cortina de Ferro

A ficha da Universidade de João Santos

Ironias do destino. Quando era pequenino, João Manuel Oliveira dos Santos, nascido em 1965 em Óbidos, foi abençoado pelo cardeal Cerejeira (a figura mais grada da Igreja Católica durante a ditadura) e teve direito a um beijinho do Professor Marcelo Caetano durante uma visita oficial àquela vila. Mal sonhavam estes dignitários que o rebento viria a tornar-se um dia militante do Partido Comunista Português e a estudar do lado de lá da Cortina de Ferro.
João Santos diz que foi o último bebé a nascer dentro das muralhas de Óbidos, no hospital da Misericórdia (hoje transformado num hotel). Ali viveu até à idade de ir para a escola primária, que fez já nas Caldas porque a família se mudara para a cidade vizinha.
A mãe, Ilda Oliveira, era escriturária e o pai trabalhava numa pastelaria, sendo conhecido pelo Manel Pasteleiro. Mas a sua alcunha passaria a ser, logo após o 25 de Abril, a de Manuel Brejnev. “O meu pai era contra o regime e a seguir à revolução aderiu entusiasticamente ao Partido Comunista. Ainda hoje, aos 82 anos, continua a ser um comunista dos quatro costados. Ele não falha nenhuma manifestação, nenhuma festa do Avante”, conta o filho.
Foi, de resto, por causa do pai, e não por vir a estudar num país da órbita da URSS, que passou a ser conhecido pelo João Soviético, alcunha pela qual os amigos mais velhos ainda hoje o conhecem.
A família tinha “dificuldades financeiras” e quando fez o 11º ano resolveu ir estudar para a Checoslováquia. “Foi o Ruisinho [Rui Aniceto], que na altura estava a estudar em Bratislava [a segunda cidade da Checoslováquia que mais tarde viria a ser a capital da Eslováquia], me falou em ir estudar para lá. Candidatei-me pelo PCP porque as bolsas eram atribuídas pelo partido. O Ruisinho disse-me para não optar por URSS ou RDA [Alemanha de Leste] porque eram países muito restritos”, recorda.
Escolheria Checoslováquia, Bulgária e RDA, por esta ordem, tendo ficado na primeira. No dia 18 de Agosto de 1983, em plena Guerra Fria, com o mundo dividido em dois grandes blocos liderados pelos Estados Unidos e pela União Soviética, o jovem, de 18 anos, prepara-se para voar pela primeira vez. Não sem antes ir à sede do PCP, na Soeiro Pereira Gomes, onde reúne com o camarada Domingos Lopes. João Santos ainda se lembra que coincidiu com Álvaro Cunhal no bar do partido, onde o secretário-geral foi tomar um café.
“Para a Checoslováquia partimos três. Apanhámos um avião para Madrid e depois um Tupolev enorme, barulhento, para Praga. Como só se ouviam línguas eslavas a bordo, falávamos em português alto e bom som. Viajar de avião ainda tinha algum glamour e fomos pedindo às hospedeiras garrafinhas de whiskey. Às tantas já dizíamos palavrões e comentávamos sem pudor as raparigas que iam a bordo”, relembra João Soviético, antes de contar mais um episódio: “Quando aterramos em Praga, vejo um senhor muito bem vestido, acompanhado da mulher e das filhas, que viajava duas filas à nossa frente, e se dirige a nós, estende-nos a mão, muito educado, e diz: ‘sou o embaixador de Portugal em Praga, se precisarem de alguma coisa estejam à vontade’. Nem sabia onde me havia de meter”.
O aeroporto estava às escuras devido a um apagão e a viagem de autocarro até Praga revelou-se lúgubre. Mas quando arribaram à capital ficaram deslumbrados. “A Praça Venceslau era um mundo! Um espanto! Nunca tinha visto uma cidade tão bonita. Nem nos filmes”, diz João Santos, que não hesita em afirmar que a Checoslováquia naquele tempo estava muito à frente de Portugal.
“Havia cervejarias, cafés, bares, supermercados, discotecas. Havia de tudo nas lojas. E muita malta jovem nas ruas, as raparigas de mini-saia… até nos costumes o regime era liberal”, nota.
Durante os quatro dias que passa em Praga, fica encantado por saber que é ali que irá estudar na universidade. Mas, para já, era preciso estudar checo, e completar o 12º ano. Separa-se dos colegas e é enviado para Dobruska, uma pequena vila junto à fronteira com a Polónia, onde fica durante um ano num centro de línguas internacional, com alunos de todo o mundo.
“Do continente africano havia alunos de 45 países, e também do Médio Oriente, da América Latina, da Ásia. Eu era o único português entre centenas de alunos. Uns meses depois pediram-me para ir esperar dois angolanos e uma moçambicana. Ela era gira de morrer, pedi-lhe namoro mais de 500 vezes, mas ela nunca aceitou”, lamenta.
A namorada do João Soviético em Dobruska haveria de ser uma filipina, Emellita Encallado, de quem haveria de perder o rasto. Os jovens aplicavam-se a aprender checo e a estudar as disciplinas para entrar nos cursos superiores. “Queria ir para Arquitectura, mas chumbei. Acabei em Engenharia Civil”, justifica.
Além dos estudos inteiramente gratuitos, ainda recebia 800 coroas por mês. “Era bastante bom. Dava para jantar fora de vez em quando. Não passava dificuldades”, explica. Na residência partilhava quarto com um colega do Zimbabué. De vez em quando era convidado para festas de colegas do Afeganistão, do Sudão, da Síria. Naquele ambiente multicultural nunca se deu conta de que houvesse racismo. Afinal um dos valores do comunismo era a igualdade e toda a gente ali estava sob a égide dos respectivos partidos. Na Guerra Fria, o bloco de Leste fazia questão de formar quadros nas suas capitais e de mostrar ao mundo que estavam irmanados pelos mesmos valores.
“Nunca tivemos de estudar marxismo-leninismo. Apenas as disciplinas da faculdade e o checo, que aprendi a falar como se fosse quase a primeira língua. Quando regressei de vez a Portugal, três anos depois, tirava os apontamentos em checo, sonhava em checo, estava totalmente imerso na língua”, frisa.
O jovem obidense, caldense por adopção, acabaria por se filiar no PCP. Fê-lo na Checoslováquia porque havia uma célula do partido naquele país, onde viviam 45 portugueses. “Sempre fui de esquerda, acompanhava o meu pai nas festas do partido e aderi. Mas fi-lo também por conveniência”, admite.
No Verão, vinha de férias a Portugal. O avião era caro e o PCP só pagava a ida. O regresso era feito de comboio: uma noite de viagem de Praga a Paris e depois mais um dia e uma noite no Sud Expresso até Lisboa. A parte mais emotiva da viagem era entre as duas Alemanhas, quando o comboio parava nas fronteiras e era revistado pelos guardas da RDA.
O ano lectivo de 1984/85 representou o 1º ano do curso de Engenharia Civil. João Soviético ficou maravilhado com as condições da universidade. Duas modernas torres com 13 andares e um campus onde havia de tudo para os estudantes. A residência dos estudantes ficava em Strahov, ao lado do maior estádio do mundo, “do tamanho de sete campos de futebol e capacidade para 200 mil pessoas”.
“O tempo que passei na Checoslováquia foram dias felizes. Em Praga havia festivais de música, raves, concertos, circos ambulantes. Quem ali aterrasse de repente e olhasse à volta não saberia se estava no Ocidente ou no Leste. Havia um ambiente muito livre e cosmopolita”, refere.
Garante que nunca viu um pedinte nas ruas de Praga e que os checos tinham poder de compra. “Eles não sabiam o que fazer ao dinheiro. Em 1988 o número de parabólicas per capita na Checoslováquia era o maior da Europa. As pessoas saíam do trabalho às 3 da tarde e iam para as cervejarias. Compravam o que queriam nas lojas. Viviam bem”, sustenta.
O regime praticamente não permitia a propriedade privada. Era quase tudo do Estado, que detinha a maioria das empresas, desde a indústria aos serviços. E as famosas “filas” para comprar produtos essenciais só aconteciam “para produtos não essenciais, que vinham do Ocidente e não havia lá. Vi filas para comprar relógios Rolex. Ou para comprar os álbuns dos Pink Floyd ou dos Rolling Stones”, explica.
Mas o jovem universitário tinha a noção de que estava no melhor país do bloco de Leste. De vez em quando chegavam jovens de Moscovo, Berlim ou Bucareste para visitar o paraíso checo. Nos outros países a vida era mais arregimentada, a liberdade mais vigiada, os bens menos abundantes. De repressão política nunca se deu “conta”. “Sei que em cada prédio havia um representante do partido e cada bairro tinha uma comissão que compunha as milícias, que patrulhavam as ruas. Mas nunca senti pressão”. E justifica: “Contávamos, nas cervejarias, alto e com todo o à vontade, anedotas sobre o comunismo, os russos, o Brejenev e nunca tivemos problemas”.
Ainda assim, dá-se conta de pequenos pormenores: filiar-se no Partido era também uma questão de carreira. E só se filiava quem podia, não quem queria. Era necessário frequentar um curso, ter bom comportamento cívico. Mas uma vez lá dentro, a ascensão social estava mais facilitada. E diz que não havia descontentamento. “Eles diziam que Socialismo sim, sempre, mas ocupação soviética não. Havia militares da URSS nas ruas e eles não os suportavam. Diziam que nunca haveriam de lhes perdoar”. O quê? A invasão de Praga de 1968. Em 1986 a vida corre bem ao João Soviético. É feliz na Checoslováquia, tem uma namorada portuguesa, cujos pais trabalham na rádio Praga. Dir-se-ia que havia futuro naquele país.

“Vi o Socialismo na prática e aquilo não era mau”

Em 1987, João Santos vem a Portugal de férias e apaixona-se pela primeira mulher. Casa-se nesse mesmo ano e volta para Praga, mas interrompe os estudos. Regressa definitivamente às Caldas, pois havia os encargos de uma vida de casado. Acaba por arranjar trabalho na Cart Export (uma empresa de cerâmica, entretanto já fechada) e depois emprega-se num gabinete de construção civil e arquitectura.
Em 1990, e já após a queda do muro de Berlim, viaja com a mulher à Checoslováquia para lhe mostrar o país onde viveu. Um mês depois perde-a. Morte súbita. João ficou viúvo aos 25 anos.
Atirado definitivamente para a idade adulta, João Santos continuou a viver nas Caldas da Rainha, onde voltou a casar. Trabalhou como desenhador e chegou a ter um gabinete de engenharia e arquitectura, que a crise financeira de 2008 tudo levou. Actualmente está ligado à construção civil. Tem dois filhos, de 22 e 26 anos, e adorava levá-los um dia à República Checa. A sua situação financeira, porém, não o permite.
A queda do muro de Berlim, em 9 de Novembro de 1989, dois anos depois de ter vivido em Praga pela última vez, viu-a pela televisão sem quaisquer dramas. “Era uma mudança que tinha de acontecer e que foi feita pelos próprios da RDA. A queda do muro foi perfeitamente natural”, admite.
A partir daí, qual castelo de cartas, os regimes dos países de Leste foram caindo. A mudança na Checoslováquia ficou conhecida por Revolução de Veludo, dada a forma pacífica como decorreu: manifestações nas ruas nos meses de Novembro e Dezembro levaram ao fim do regime de partido único e à implantação de um regime democrático, com o escritor Václav Havel como primeiro Presidente do país.
Também isto João Santos encarou com naturalidade: “Foi tudo muito pacífico. O Partido Comunista retirou-se e houve eleições. Muito simples”.
Em 1993 foi também pela televisão que assistiu à divisão do seu país de adopção em dois: a República Checa e a Eslováquia. “Foi uma separação anunciada. Havia uma antipatia grande entre checos e eslovacos, mas, mais uma vez, foi tudo pacífico”, justifica.

UMA VISITA SURPRESA

Trinta anos sem contactos com aquelas paragens enferrujaram-lhe o checo. E num tempo em que não havia telemóveis ou redes sociais, os cadernos com moradas e números de telefone foram-se perdendo. E ficou sem ligações com os antigos colegas e amigos.
Há dois anos estava no Café Creme, no Bairro da Ponte, onde vive, quando vê entrar um estrangeiro acompanhado com dois miúdos e uma fotografia na mão. Este dirige-se à empregada e pergunta se conhecia o rapaz da fotografia. João Santos estava sentado mesmo junto ao balcão e reconheceu o seu amigo Petre Basa, à época internacional de badminton e hoje treinador daquela modalidade desportiva, que tinha vindo às Caldas para um torneio. Foi o começo de um reatar de contactos que ainda está em curso.
O filho do Manel Brejnev já não é filiado no PCP, mas não renega as origens nem a simpatia pelo partido. “Continuo a acreditar, não no Comunismo em si, mas em valores básicos como a igualdade, a saúde, alimentação e habitação para todos. No fundo, vi isso na Checoslováquia. Pode ser que estivesse enganado e que a minha visão fosse a de um miúdo com 18 anos, mas vi o Socialismo na prática e aquilo não era mau”.

Tradutor dos jornalistas nos jogos de futebol até chegou a fazer… comentários

Nos anos 1980 não se viajava facilmente para os países de Leste. Os vistos exigidos por estes países eram caros e exigiam morosas deslocações aos respectivos consulados, as viagens de avião eram caras e os regimes comunistas preferiam visitantes organizados em grupos em vez de viajantes ocasionais, mais difíceis de controlar e de vigiar.
Não havia, assim, muitos portugueses a visitar a Checoslováquia. E, por isso, era uma festa para João Santos quando uma equipa portuguesa de futebol defrontava um adversário checo naquele país. O jovem estudante, graças ao domínio da língua, era quase o tradutor oficial dos jornalistas da televisão, rádios e jornais que ali aportavam para seguir as comitivas. “Não tinha mãos a medir. Eram os jornalistas de A Bola, do Record, das rádios a pedirem-me para os ajudar. Uma vez um tipo da Rádio Renascença põe-me, de repente, o microfone à frente e lá entrei em directo a comentar um jogo do Benfica com o Sparta de Praga”, relembra.
Benfica, V. Guimarães e FC Porto foram alguns dos clubes cujas comitivas o estudante português integrou. E com muitas histórias para contar. “Certa vez, o Marinho Peres pediu-me para lhe dizer como é que jogava o Dukla de Praga, que ia enfrentar o V. Guimarães, e contei-lhe que jogavam sempre pelos flancos, iam muito à linha com cruzamentos rasgados para a área. Isso era verdade, mas naquela vez acabaram por fazer um jogo de passo curto, sempre pelo centro e raramente a bola foi à linha para ser cruzada”, lamenta.
O jogo saldou-se num empate, mas o V. Guimarães tinha conseguido passar a eliminatória, o que já era motivo de festa na penthouse do Hotel Internacional de Praga, onde a equipa estava alojada. Porém, houve mais um motivo para festejar: Paulinho Cascavel, o famoso avançado brasileiro, recebera a notícia de que tinha sido pai. “Aquilo era só garrafas de champanhe a chegar à suíte do hotel. Cada uma custava 1000 coroas. Eu ganhava 800 coroas por mês. Eles diziam ‘paga o clube!’ O mundo do futebol já nessa altura era uma desbunda”, comenta.

João, à esquerda, de pé, com a turma do curso de Engenharia Civil da Universidade de Praga