Nascer na maternidade em tempos de covid-19

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Andreia Paulo com a pequena Catarina, que nasceu nas Caldas a 13 de janeiro. Filha de mãe infetada acusou negativo nos testes feitos às 24 e 48 horas

Passaram pelo Serviço de Ginecologia e Obstetrícia do Hospital das Caldas mais de 25 grávidas com covid-19 desde o início da pandemia. Apesar de estarem positivas à doença, até ao momento não se registou nenhum nascimento de bebé infetado. A humanização dos serviços auxilia estas mães

Para uma mãe, o nascimento de um filho é sempre um momento de ansiedade, mas esse sentimento aumenta quando a grávida descobre na véspera de dar à luz que o teste à covid-19 deu positivo. Esta é a história de Andreia Paulo, de Torres Vedras, que soube a 12 de janeiro que estava infetada (tal como o seu marido e o filho) e na madrugada do dia seguinte começou com sintomas de trabalho de parto.
Enfermeira de profissão, a jovem, de 33 anos, ligou para o hospital das Caldas a explicar a situação e a preparar a chegada. “Senti que seria o melhor a fazer, a equipa já estaria a preparar-se para me receber em segurança e também teriam algum tempo para criar uma estratégia”, conta Andreia Paulo, recordando que em menos de uma hora estava a ser acolhida pelos profissionais de saúde.
À entrada teve de separar-se do marido e filho e foi para a sala de partos devidamente preparada para receber grávidas com covid-19, situada no piso inferior ao da maternidade.
“Apesar de todos os constrangimentos, senti que houve sempre muita comunicação por parte dos profissionais de saúde”, conta a jovem mãe, destacando que sentiu que a sua “vontade foi tida em conta”. O desejo de ter um parto normal concretizou-se, assim com a possibilidade de amamentar e estar sempre junta da sua filha. “Tive o enfermeiro a ajudar-me, todo equipado, e correu tudo bem”, recorda, sensibilizada com a dedicação de que foi alvo.

“Apesar de todos os constrangimentos,
senti que houve sempre muita comunicação por parte dos profissionais de saúde e que a minha
vontade foi tida em conta”

Andreia Paulo

Essa proximidade ao bebé “foi muito importante, apesar de haver sempre aquele receio latente de poder transmitir-lhe o vírus”, o que, felizmente, não viria a suceder. Os testes feitos às 24 e 48 horas de vida da pequena Catarina deram negativo, para alívio de todos.
Sozinha, confinada numa sala, Andreia Paulo teve contato com o exterior através do telemóvel que a equipa deixou que ficasse com ela e que, garante, fez toda a diferença. Teve alta a 18 de janeiro.
Pouco mais de um mês depois lembra a ansiedade que sentiu, mas também o “profissionalismo e humanização nos cuidados” que encontrou na equipa que a recebeu no hospital das Caldas da Rainha, que permitiu que tudo corresse bem.
“A forma como se comunica, o respeitar a pessoa, senti isso por parte de todos”, conta, acrescentando que esta ainda é uma doença pouco conhecida e com um estigma muito associado.

Primeiro parto positivo em abril
Desde o início da pandemia que já foram acompanhadas no Serviço de Ginecologia e Obstetrícia mais de 25 casos de grávidas com covid-19.
O primeiro parto positivo foi em abril do ano passado e, tendo em conta que os familiares diretos também estavam infetados, a mãe optou por deixar o bebé com a equipa durante mais duas semanas até ter os dois testes negativos.
O serviço Baby Care (que permite aos pais dos bebés internados no serviço de Neonatologia acompanharem os filhos, via internet, 24 horas por dia), possibilitou que fossem acompanhando a sua evolução.
Desses primeiros tempos de pandemia, a enfermeira-chefe, Alcina Sousa, recorda o medo, os fracos recursos e o facto de não estarem preparados em termos de circuitos para receber doentes covid e não-covid.
Em menos de uma semana tiveram que se adaptar. E, se numa fase inicial tiveram um espaço dedicado a estas grávidas no internamento de ginecologia, a segunda vaga, mais violenta, levou a uma reorganização do hospital e o serviço de Obstetrícia passou a ter a área covid, tendo sido criada uma sala de partos no piso inferior.
O diretor do serviço, Jorge Ribeiro, recorda que nos primeiros tempos tinham o problema da demora até se saber o resultado do teste à covid, que podia chegar às 36 horas, com implicações ao nível de contatos.
Atualmente são feitos testes rápidos. No caso das intervenções programadas é realizado um teste convencional e as grávidas também são testadas às 39, 40 semanas, já como preparação para o parto e esses testes têm vigência de três dias.
Os testes rápidos começaram a ficar disponíveis para as grávidas a 19 de novembro e para os pais e acompanhantes a 13 de janeiro.
“A segurança com que trabalhamos não tem nada a ver, neste momento já conhecemos melhor o vírus e como se manifesta. Estamos cansados, mas tranquilos”, refere a enfermeira-chefe, Alcina Sousa.
No entanto, pelo caminho bateram-se com dificuldades ao nível dos recursos, pois parte da equipa deste serviço também foi disponibilizada para a área Covid de adultos, sem que viesse a ser reposta.
No que respeita aos profissionais de saúde , “conseguimos chegar a esta parte da pandemia sem nenhum médico infetado neste serviço e apenas quatro enfermeiros, que apanharam o vírus no exterior”, concretiza o médico, dando conta que ali trabalham 11 médicos e 59 enfermeiros, sendo que destes últimos cinco foram “emprestados” e seis estão fora por gravidez e licença de maternidade. ■

Pai pode estar presente durante o parto

O acompanhante é testado simultaneamente com a grávida. No caso da futura mãe estar positiva esta não pode ser acompanhada e vai para uma sala isolada. A restrição e proibição de visitas foi uma medida implementada por todos os serviços a nível nacional, mas a evolução da pandemia já permite o acompanhamento das grávidas e puérperas pelo pai do bebé. “Porque o nascimento de um filho é um momento especial para o casal, o pai pode estar presente na fase ativa do trabalho de parto, nascimento e pós-parto imediato”, refere o documento emitido pelo Centro Hospitalar do Oeste. A exceção regista-se nos partos por cesariana, em que não é autorizada a presença do pai no bloco operatório.
No internamento as visitas do acompanhante são de duas horas diárias entre as 14 e as 20 horas. As restantes visitas continuam suspensas.
Este ano ainda é cedo para fazer comparações, mas em 2020, nasceram na maternidade 1357 bebés, mais 30 do que no ano anterior. Um número que está dentro da média nacional, explica o diretor do serviço de Ginecologia e Obstetrícia, Jorge Ribeiro. Ainda de acordo com o mesmo responsável, a haver alterações devido à pandemia, estas só serão visíveis daqui por algum tempo.

O CHO considera que o nascimento é um momento especial, pelo que o pai pode estar presente na fase ativa do trabalho de parto, nascimento e pós-parto

As medidas para fazer face à pandemia na área materna e neonatal incluíram a criação de circuitos distintos para grávidas com critério de caso suspeito ou positivo para Covid 19, sendo que atualmente estão a funcionar dois espaços de atendimento para urgência de obstetrícia e ginecologia, dois blocos de partos e dois internamentos. Foi criada uma linha de apoio para esclarecimento de dúvidas sobre queixas na gravidez e do foro ginecológico entendidas como urgentes e foram reforçadas estratégias de prevenção e controlo de infeção. ■