Com 14 anos, Martim Carvalho é o mais jovem árbitro de futebol do distrito e tem o pai, Paulo, árbitro da 1ª Divisão de hóquei em patins como referência

Paulo Carvalho é árbitro da 1ª Divisão de hóquei em patins e quando a pandemia interrompeu os campeonatos começou a fazer recolha de lixo em terrenos públicos e nas bermas das estradas. Entretanto, viu o filho, Martim, o mais jovem árbitro de futebol do distrito, seguir-lhe as pisadas. E o projecto ganhou maior dimensão com a participação dos amigos do filho e o apoio das Juntas de Turquel e Évora de Alcobaça

Habituados a admoestar atletas que têm comportamentos anti-desportivos dentro de campo, os árbitros Paulo Carvalho e Martim Carvalho passaram nos últimos meses a “mostrar” cartões a quem deposita lixo nas ruas e em terrenos baldios nas freguesias de Turquel e Évora de Alcobaça.
À iniciativa, que visa combater a poluição e “dar um bom exemplo” à sociedade, têm-se juntado várias pessoas: amigos, familiares, curiosos e também os colegas de Martim. E, nos últimos tempos, também as Juntas daquelas duas freguesias têm contribuído com material e recolhem os sacos de lixo que pai e filho encontram na via pública.
“A minha recompensa é o apoio das pessoas. Até há pouco tempo, pagava o material do meu bolso, mas os presidentes de Junta aperceberam-se e passaram a dar-me luvas e algum material”, explica Paulo Carvalho, que apita na 1ª Divisão de hóquei em patins e “sempre” se interessou pela natureza.
“Sei que não vou mudar o mundo, mas quero ser um exemplo e tenho lutado para chamar à atenção as pessoas para o mal que estamos a fazer ao meio-ambiente”, explica o turquelense, assumindo que fica “triste” quando, depois limpar um terreno abandonado, volta a passar no local e se depara com um maço de tabaco ou outro lixo.
“Defender a natureza, os rios, o mar” é a premissa deste profissional de segurança, que decidiu avançar com acções de limpeza com maior regularidade aquando do surgimento da pandemia.
“Deixei de ter jogos e deixámos de poder estar no café, pelo que decidi levar a limpeza mais a sério”, recorda o juiz, de 53 anos, que pretende desafiar um vereador da Câmara de Alcobaça para participar numa acção. “Ele pode tirar as fotografias que nós fazemos o trabalho, mas ajuda a chamar a atenção”, esclarece Paulo Carvalho.
Porém, esta forma de estar no contacto com a natureza não é recente. “Sempre tive esta força de vontade interior de combater o lixo nas ruas e já me aconteceu chegar demasiado cedo a um jogo e recolher lixo junto ao pavilhão. Não custa nada”, sublinha.
O árbitro faz questão de agradecer “todo o apoio” que tem recebido, sobretudo dos amigos do filho, que se juntaram ao combate contra a poluição. “Muita gente diz que vem ajudar, mas depois ficam a ver ao longe, pelo que tenho de agradecer aos miúdos e a outras pessoas que me têm vindo prestar auxílio”, nota o antigo emigrante na Alemanha, país onde encontrou “uma cultura diferente”.
“Ali as pessoas são fiscais umas das outras e isso faz toda a diferença”, diz o homem que encontra “um pouco de tudo” nas bermas de estradas ou em terrenos, alguns privados. “Desde pneus, a eletrodomésticos, encontra-se de tudo. É lamentável a falta de civismo”, nota.

FILHO SEGUE PISADAS

Se Paulo Carvalho atingiu o topo da arbitragem nacional no hóquei em patins, muitos vaticinam um futuro ainda mais risonho ao filho. Mas no futebol. Martim Carvalho tem 14 anos e é o árbitro mais jovem do distrito, tendo-se juntado ao pai nesta aventura de limpar o lixo que os outros deixam na via pública.
“O meu pai sempre foi um grande exemplo e é o meu ídolo. Via o trabalho dele e não podia ficar indiferente. Os meus colegas pensaram o mesmo e juntaram-se a nós. Fazemos isto com gosto, para deixarmos as nossas terras ainda mais bonitas”, assevera o rapaz, que foi guarda-redes da U. Turquel e Beneditense até decidir enveredar pela arbitragem.
“Deixar de jogar foi uma opção. Já apitava jogos de hóquei e deixei de ter motivação para jogar futebol. Não queria ir aos treinos. Quando surgiu um curso de arbitragem na minha escola decidi inscrever-me”, explica o futuro árbitro, que já participou em partidas de seniores como árbitro-assistente e teve de saber lidar com algumas “bocas”. “Por vezes é complicado, pois perante a minha idade e estrutura física alguns jogadores abusam na linguagem. Mas também há jogadores que me respeitam mais por ser tão jovem”, frisa.
O progenitor não esconde ter sentido “alguma desilusão” pela opção tomada pelo filho, mas agora diz que Martim “tem de seguir a paixão”.
“Ele era um excelente guarda-redes e fiquei surpreendido por ter trocado os postes pelo apito. Mas ele tem qualidade e vai ser um grande árbitro”, remata Paulo Carvalho, que, isso é certo, está a fazer um belo trabalho na transmissão de valores ao filho.