Real Fábrica do Gelo deve reabrir antes do verão

0
350
Monumento encontra-se fechado ao público desde março do ano passado

Obra de conservação, restauro e arquitetura paisagística está quase terminada

A Real Fábrica do Gelo da Serra do Montejunto deve reabrir as portas ao público ainda antes do verão. Pelo menos essa é a expetativa da Câmara Municipal do Cadaval, que ultima a intervenção, que faz parte de uma empreitada de meio milhão de euros, financiada a 85% pelo FEDER.
“Estamos pendentes da substituição de madeiramento do telhado, da cobertura do poço e da plantação de algumas árvores, mas a obra física está quase terminada”, revela o vereador do Ambiente, Dinis Duarte, assumindo que “houve questões que não estavam inicialmente contempladas” na empreitada e que atrasaram o procedimento.
Apesar de a autarquia não ter “pressão” para reabrir a Fábrica, devido à pandemia, a intenção é que tal venha a acontecer dentro de meses.
“Fechámos a Fábrica em março e ainda não a reabrimos, porque tínhamos o problema das visitas. A pandemia limitava as visitas a poucas pessoas, embora tenhamos recebido uma ou outra visita pontual”, justifica o autarca.
Numa segunda fase, a Câmara pretende introduzir um novo sistema de bilhética e corrigir um aspeto em termos estruturais: “Neste momento, só temos visitas-guiadas, mas estamos a estudar a possibilidade de termos um funcionário na entrada, por forma a controlar as entradas e, desse modo, permitir a entrada de visitantes que não pretendam aceder às visitas-guiadas”.
O plano de ação da obra de conservação, restauro e arquitetura paisagística da Real Fábrica do Gelo “integra a investigação histórica e trabalhos arqueológicos, a conservação, restauro das estruturas e recuperação/tratamento paisagístico envolvente, mas também a concepção, produção e instalação do projecto museográfico e a comunicação, divulgação e promoção turística e cultural”.
O objetivo é que a fábrica seja mais “condignamente visitável e mais perceptível, em harmonia com o património natural que o circunda e, consequentemente, mais apelativo aos visitantes”.
Classificada em 1997 como monumento nacional, a Real Fábrica do Gelo é considerada um caso único, sendo unânime a ideia de que muito contribuiu, a partir do século XIX, para o crescimento económico de Lisboa, desempenhando um papel inovador na produção de gelo natural.
O espaço, pertencente ao Estado, foi alvo de uma intervenção profunda e reinaugurado em 2011, cabendo à Câmara Municipal do Cadaval a gestão, em articulação com a Direção-Geral do Património Cultural. ■

“Até aqui, só temos visitas-guiadas, mas estamos a estudar a possibilidade de termos um funcionário na entrada, por forma a controlar as entradas e, desse modo, permitir a entrada a outro tipo de visitantes”

Dinis Duarte, vereador do Ambiente da Câmara Municipal do Cadaval

Construção custou entre 40 e 45 mil cruzados

A construção da Real Fábrica do Gelo “terá custado entre 40 e 45 mil cruzados, despesa megalómana para a época, com vista a satisfazer a grande procura de gelo que existia por toda a capital”, lê-se no site da plataforma Cadaval Cativa.
O arranque da obra terá acontecido em 1741, tendo representado “um grande avanço na qualidade e higiene do processo utilizado para a ‘produção’ de gelo”. E é possível conhecer a história e o processo de produção.
Conta-se que, quando chegava o mês de setembro “enchiam-se os tanques rasos de água e durante a noite esperava-se que o frio a congelasse”. “Quando o gelo se formava, o guarda da fábrica ia a cavalo até à aldeia de Pragança e, com uma corneta, acordava os trabalhadores. Antes do nascer do sol, num trabalho árduo e duro, as placas de gelo eram partidas, os fragmentos amontoados e depois carregados para os silos de armazenamento, onde o gelo era conservado até à chegada do verão”, explica o site.
Depois, vinha a época do calor, e “decorria a complicada tarefa do transporte até à capital do reino”. O gelo era transportado no dorso de animais para descer a serra e depois seguia em carroças até aos “barcos da neve” ancorados na Vala do Carregado, de onde seguia por via fluvial até Lisboa. “Estima-se que a atividade da Real Fábrica do Gelo tenha cessado em finais do séc. XIX, tendo caído no esquecimento por quase um século”, conclui.
O complexo foi reinaugurado para visitas em março de 2011, como consequência de um projeto de conservação e valorização. Mas já antes, durante mais de duas décadas, a Câmara Municipal do Cadaval havia levado a efeito ações de limpeza, estudo, restauro, conservação e valorização do icónico monumento. ■