Santo Antão volta a juntar centenas na região

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Maria Teixeira vende há vários anos chouriço e mel no cimo do monte

As festas voltaram e o Santo Antão não é exceção. Considerada uma das mais genuínas da região, esta romaria outrora muito associada à proteção dos animais, é atualmente motivo de convívio, onde o chouriço não pode faltar

João Vinagre, de 77 anos, natural de Óbidos e residente em Lisboa, veio de propósito, com a esposa e um amigo, almoçar ao Santo Antão, a romaria que a cada 17 de janeiro atrai centenas de pessoas à ermida situada a Noroeste da vila de Óbidos. Sentados no muro à frente da capela, degustavam o repasto: pão com chouriço, vinho tinto e boa companhia, uma receita que aconselha.
Natural de Óbidos, sempre ouviu os avós dizerem que os animais tinham de ir ao Santo Antão para terem a bênção para durante todo o ano. “Quando estávamos a subir reparei que muitas pessoas estavam a descer, depois da missa. Ainda mantém essa tradição”, disse à Gazeta das Caldas.
João Vinagre subiu, pela primeira vez, o monte em 2020 (como atesta a caneca comprada nessa romaria) e agora regressou para, além de participar na romaria, comprar pinhões. E, para o ano, garante voltar. Quem também ali regressa todos os anos são Justino Martins e André Vieira que, juntamente com um grupo de cerca de 30 pessoas, a maior parte amigos da escola, fazem a festa acontecer. Um amigo ofereceu-lhes a camisola “oficial do Santo Antão 2023” e, durante todo o dia convivem, reencontram amigos e passam um dia “excelente”. Chegaram por volta das 7h30, com a comida, o caneco ao peito e os instrumentos musicais, alguns deles improvisados, para dar música pelo recinto, até à noite e… alguns deles terem dificuldade em descer o monte. “A nossa vida é trabalhar, trabalhar, e hoje é o dia em que vemos pessoas que não víamos há décadas, é dia santo”, conta Justino Martins, acrescentando que ali quase todos se conhecem e acabam por confraternizar.

As fitas cor de rosa
Erguida num monte, a capela do santo protetor dos animais é de difícil acesso. Para lá chegar é preciso percorrer 150 degraus em pedra tosca, ladeados por arbustos ou, no caso dos veículos, subir uma estrada de terra, restringindo o acesso aos condutores mais hábeis e a tractores e veículos de todo o terreno. Foi o caso de Maria Teixeira que, pouco passava das 6h00 da manhã quando chegou ao recinto, com a sua carrinha 4×4 para montar a tenda, onde vendia o chouriço e mel, tudo de produção própria. E ía ficar “até haver festa…”, contou a vendedora vai ao Santo Antão há décadas, primeiro com os pais e depois a comercializar os seus produtos. “É uma tradição que, faça chuva ou faça vento é para cumprir”, destaca.
Na Casa das Esmolas, paredes meias com a capela do século XIV, comercializam-se chouriços, pão, velas e figuras de cera, que depois são entregues como pagamento da promessa ao santo. O diácono Raul Penha, responsável da Comissão de Festas do Santo Antão, lembra que a festa não se realizava desde 2020 e que este ano, talvez por ser terça-feira e com o tempo instável, não atraiu tanta gente como em edições anteriores. “As pessoas vêm com fé, vêm movidas pela presença da romaria e para manter a tradição”, diz, acrescentando que se trata de uma das festas “mais genuínas” da região. “Já tenho uns anos de Santo Antão e fico espantado com a coragem que as pessoas, sobretudo com mais idade, têm para subir mais de uma centena de degraus para vir à romaria. Mas cá estão, e muito felizes”, realça.
As fitas cor de rosa, de proteção dos animais, continuam a ter muita procura na Casa das Esmolas. Só para este ano foram compradas cerca de duas mil, que os romeiros levam para as suas casas, muitas das vezes depois de acender uma vela ao Santo Antão.
As canecas são a mais recente tradição desta festa. Como têm o ano da romaria há pessoas que fazem coleção do recipiente que tem a imagem da capela, as cores de Óbidos (amarelo e azul) e a data do ano, concretiza Raul Penha.
Ao longo dos anos tem-se assistido a uma substituição dos motivos que levam as pessoas aquela festa. Enquanto que no passado íam sobretudo pagar promessas por animais da economia familiar, como o porco, avaca, a ovelha e a cabra, atualmente a procura de figuras de cera é sobretudo por animais domésticos, que são depois são colocadas junto à imagem do santo na capela.

Preço aumentou com a inflação

Muitos voluntários garantem que a festa seja um sucesso

A Festa de Santo Antão celebrada em Salir de Matos regressou em grande depois de dois anos em que não pôde acontecer, apesar de, nesse período, se ter mantido a procissão em honra ao santo, que é o segundo padroeiro da paróquia, a seguir ao Santo António, celebrado em junho. Mas também o São Pedro abençoou os dias do certame, que contou com o apoio da Junta de Freguesia de Salir de Matos e da Câmara das Caldas.
Entre os dias 13 e 15 de janeiro, passaram pela aldeia milhares de pessoas da região e de outros pontos do país, como do norte, atraídas sobretudo pelo famoso chouriço, que pôde ser comprado cru para levar para casa ou para a festa de Santo Antão em Óbidos, ou para assar no madeiro em Salir de Matos, cujo calor emitido também permitiu aquecer o vinho, mas que também pôde ser adquirido já assado, para saborear no restaurante, estabelecido no Centro Pastoral, e que esteve lotado nos três dias.
“A grande atração, o grande motivo das pessoas virem cá, devo confessar que não é tanto a devoção ao Santo Antão, ou à bênção dos animais a que ele é associado, mas é antes, sim, e aqui em concreto em Salir de Matos, ao famoso chouriço que as pessoas elaboram, produzem”, explicou o Padre Filipe Sousa.
Este ano, foram comprados cerca de 2.500 kg de carne para fazer os chouriços, cujo custo aumentou devido à inflação, o que obrigou a um ligeiro aumento do preço de venda ao público dos alimentos, que se fixaram nos 8€ por unidade, já assada, explicou José Sábio, que integra o Conselho Económico da Paróquia de Salir de Matos, responsável pela organização do evento. Porém, o chouriço voou e foi a custo e com racionamento que ainda chegou para parte da tarde de domingo.
Envolvidas estiveram, igualmente, e de forma voluntária, pessoas dos diversos lugares da freguesia, entre “veteranos” da festa e mais jovens, para ajudarem no corte das carnes, que envolveu o maior número de pessoas, cerca de 80, no enchimento dos chouriços, ou ainda durante os dias da festa em Salir de Matos.
“Não fazemos só esta festa como cartão de visita, é mais do que isso, é muito este espírito comunitário, estas pessoas encontrarem-se”, declarou o pároco de Salir de Matos.
Lurdes Sábio, residente no Coto, já ajuda na festa há cerca de 40 anos, fazendo atualmente parte do Conselho Económico, e recorda-se dos tempos em que ainda havia a matança dos porcos e a lavagem das tripas. “O porco vinha vivo para cá, recolhia-se pessoas para o matar, e depois havia outros para mexer o sangue, havia outros para lavar tripas, era muito trabalho, mas havia mais gente que participava”, explicou, enquanto fritava filhoses, muito animada,
Porém, o evento é também importante para a angariação de fundos para a paróquia, que constituem, a par dos recolhidos nas restantes festas e na venda de pão caseiro, com chouriço e filhoses, todos os domingos, o “grosso” do dinheiro que permite que se realizem obras, como as que decorreram o ano passado, no interior da Igreja Paroquial, mas que não chegaram a intervencionar a capela mortuária, o exterior da igreja, que “apresenta várias lacunas”, dando aso a infiltrações, ou o telhado, que deve ser controlado para não colocar em risco as pinturas do teto interior. “Queremos também recuperar uma casa antiga para transformar em casa paroquial”, rematou o padre Filipe Sousa.
A animação foi ainda proporcionada pelos ranchos folclóricos “Esperança na Juventude” do Nadadouro e “Flores da Primavera” do Guisado, que atuaram na tarde domingo, e com grupos de música que deram baile pela noite fora, até cerca das 3h/4h da manhã, tendo as noites decorrido sem desacatos. Para o ano, haverá mais, e agora as festas prosseguem pela região, com a celebração do Santo Antão no Peso, Santa Catarina, neste domingo, e o São Brás no Campo entre os dias 20 e 29 de janeiro.■