“Um empresário tem de pensar nele e também nos outros”

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Rogério Nunes é um empresário multifacetado, com negócios em áreas tão distintas como a construção, ótica e restauração. Em Alfeizerão, decidiu investir mais de 16 milhões de euros num centro hípico

O empresário Rogério Nunes revela que o investimento que fez na construção do Centro Equestre Internacional de Alfeizerão já superou os 16 milhões de euros. Numa entrevista de vida, explica como se destacou no mundo dos negócios e assume que ainda lhe falta ser dono de um jornal, em memória ao pai, jornalista no “República” e que foi perseguido pelo Estado Novo.

Por que decidiu investir num centro hípico em Alfeizerão?
A minha família do lado materno é toda de Alfeizerão e, apesar de ser um lisboeta de gema, passei muitas férias de verão em São Martinho do Porto com a minha avó, a minha mãe, as minhas tias e os meus primos. Tenho, por isso, uma relação afetiva muito grande com esta região. Além disso, a minha filha formou-se e veio dar aulas para Caldas, tendo-se radicado por cá. Depois, em 2017, tivemos um grande infortúnio: um neto que jogava rugby no Caldas morreu, num treino, e também está enterrado aqui. Ele tinha 16 anos. Tudo isso me ligou sentimentalmente a investir aqui.

Mas porquê apostar em cavalos?
Enquanto jovem fiz vários desportos, mas nunca me passou pela cabeça trabalhar com cavalos. Aliás, não percebia nada de cavalos, mas tinha o terreno e decidi investir. Depois, deixei-me ir e comecei a criar cavalos. Tudo começou por causa dos meus netos. Além do Bernardo, que faleceu, tenho mais três netos, que praticaram hipismo. O projeto inicial previa, além do centro hípico, um hotel, mas decidi não avançar, até porque a Câmara de Alcobaça demorou muito tempo a responder. Se tivesse sido mais lesta, provavelmente teríamos o hotel aqui ao lado. Mas o terreno é nosso e já está infraestruturado.

Como se iniciou no mundo dos negócios?
A minha primeira empresa, que ainda me pertence, atua no mercado do material médico hospitalar. Quando saí da tropa, no final da década de 1960, só tinha duas opções: ou começava a trabalhar ou prosseguia os estudos. Como a vida, naquele tempo, não era fácil, comecei a trabalhar no Laboratório Sanitas, onde travei alguns conhecimentos. Sou, então, convidado para criar uma empresa de material médico e hospitalar. O meu sócio decidiu sair e passei a apostar mais no material cirúrgico.

Mas de onde surge a veia empresarial? Teve apoio do seu pai?
O meu pai era jornalista e, apesar de bem relacionado, teve problemas com a ditadura. Lembro-me de ser pequeno e ir a Caxias e a Peniche, pela mão da minha mãe, visitar o meu pai, porque ele tinha escrito algo que desagradara ao regime. Não sei de quem herdei esta veia empresarial. Mas sempre fui muito ativo e competitivo.

Refere-se a quê?
Olhe, ao desporto, por exemplo. Pratiquei basquetebol, ténis de mesa no Sporting e natação em vários clubes, tendo jogado na 1.ª Divisão em várias modalidades. Sempre gostei de desportos de contacto. Não gosto de xadrez.

Como relembra o seu pai?
Era uma pessoa de feitio difícil e extremamente orgulhoso. Penso que isso contagiou-me. Creio que esse é o meu defeito n.º 1. O meu pai era um homem das letras, talvez eu seja dos números. Quando me meti no mundo dos negócios apenas me disse para ter cuidado. Ele sempre me deu total liberdade.

Voltando aos negócios. Tinha que idade quando criou a primeira empresa?
Comecei a trabalhar aos 24 e aos 27 abri o primeiro negócio. Naquela época não era fácil constituir uma empresa, mas consegui e tive sucesso. O Estado não facilitava a vida aos empresários, mas, passados tantos anos, continua a não facilitar. Optei por nunca me meter em política, porque, como expliquei, tive más experiências na família com a política. Só que o Estado continua a ser um problema, asfixiando as empresas e não pagando a tempo e horas. Se uma empresa tiver uma dívida ao Estado tem de pagar juros e pode ser penhorada, mas o Estado atrasa os pagamentos aos fornecedores e não paga juros das dívidas. E isso tem um efeito pernicioso, porque as empresas já vendem ao Estado a contar com uma margem maior, por ser difícil receberem a tempo e horas.

Começou com uma empresa de material médico, mas depois diversificou a atividade. Porquê?
Foi sempre por arrasto. Conheci gente que me desafiava para investir e sempre gostei de desafios. Um dos primeiros negócios que tive foi uma empresa de confeção, que, ao fim de dois anos, resolvi transformar por completo. Em vez de fazer peças de roupa começámos a fazer fardamento para bombeiros e em pouco tempo estávamos a exportar. Mas todos os negócios onde me meti acabaram por ter sempre um lado pessoal. Dou-lhe um exemplo: tive um dos melhores restaurantes em Lisboa, não porque percebesse muito de restauração, mas porque fazia muitos almoços e jantares de negócios… Era um bom cliente e vi uma oportunidade.

O proprietário do CEIA tem negócios em vários setores e diz que gostava de investir num jornal ou uma revista. “Seria uma forma de honrar o legado do meu pai”, explica Rogério Nunes, cujo progenitor foi jornalista no “República”

E tinha tempo para gerir um restaurante?
Nunca tive, mas esse foi um dos meus segredos ao longo da minha vida de empresário: rodear-me de quem sabe fazer as coisas. Nesse restaurante praticamente não fiz nada. Como não podia estar presente, a minha prioridade era assegurar-me da qualidade do produto. O serviço pode ter um dia melhor ou pior, mas o produto tem sempre de ter qualidade, pois é isso que posso controlar. O restaurante já não é meu, mas ainda hoje é uma referência de qualidade em Lisboa.

Um dos negócios que ainda mantém é uma rede de óticas. Como surgiu esse setor no seu portefólio?
Pode não acreditar, mas foi por arrasto. Foi sempre assim com os meus negócios. Até lhe digo mais: não tenho é capacidade de responder a todos os desafios que me fazem. E há um negócio que tenho uma pena enorme de nunca ter tido?
E qual é?
Um jornal ou uma revista. Seria uma forma de honrar o legado do meu pai. Gostava, mas já não sei se vai ser possível. Mas quase sempre investi em coisas de que gostava. Sou um grande apreciador de fado e também por isso, na sequência de uma conversa com um amigo, resolvi abrir uma casa de fados.

A que se deve a sua resiliência no mundo dos negócios?
A resiliência é uma palavra muito em voga. Sempre me senti bem a trabalhar. Já podia ter saído de cena, mas sinto-me bem e continuo a trabalhar todos os dias. E a descontar para a Segurança Social, mesmo sendo já reformado. Os desafios são diários e estamos cá para os superar.

Investe na construção civil e esse é um setor, muitas vezes, associado a práticas menos claras…
É um setor como todos os outros, mas tem o problema de estar muito dependente dos técnicos das autarquias. É tudo muito discricionário, por mais que a legislação tenha evoluído nas últimas décadas. Tenho um caso que se arrasta há anos na Câmara de Alcobaça, relativo a um empreendimento em São Martinho do Porto, que não se consegue resolver. Já fizemos tudo o que nos pediram, mas continuamos à espera de não sei bem o quê. Conheço bem a realidade de muitas Câmaras e posso dizer-lhe que temos um diferendo em tribunal com uma autarquia por causa de um erro de transposição da carta de REN para o PDM. Como é que isto ainda sucede hoje em dia?

Assim sendo, o que é que ainda o motiva para estar no mundo dos negócios?
Preocupo-me muito com as pessoas que trabalham para mim e são muitas centenas em todas as empresas e que dependem de mim. Um empresário tem de ser alguém altamente socializante, não pode ser egoísta. Um empresário tem de pensar nele e também nos outros. Se se esquecer dele, não tem nada para dar aos outros. Além disso, sou uma pessoa que tem, e assumo-o, medo de morrer. Enquanto tenho a cabeça ocupada com os negócios não penso na morte. E não noto o tempo a passar.

 

“Nunca precisei corromper ninguém e talvez por isso sou algo mal visto”

A pandemia travou o crescimento do CEIA, mas Rogério Nunes não baixa os braços e acredita que aquela infraestrutura está no rumo certo.

O que foi necessário mudar no CEIA devido à covid-19?
Para além de todas as questões sanitárias, a atividade foi, obviamente, muito reduzida. Dou o exemplo do restaurante, cuja lotação está reduzida a mais de metade. Chegámos a ter dias de dar mais de 700 refeições e hoje em dia ficamos pelas 50 ou 60. Tirando os dias em que há concursos, claro. Registámos uma quebra muito significativa também nos cavalos. O hipismo é um desporto caro e a crise chega a todos. Mas como sei que há anos melhores e piores, mantivemos todos os funcionários. Mesmo com grandes dificuldades.

E como será o resto do ano, com tantas restrições?
Vamos acreditar que é possível recuperar a atividade. Até ao fim do ano temos previstos 12 concursos nacionais de saltos, estamos a retomar a atividade com toda a precaução, mas com confiança de que as coisas vão melhorar num setor em transformação. Tenho sido convidado para integrar listas para a Federação Equestre Portuguesa, mas recusei, porque sei que não tenho tempo para fazer o trabalho que se impõe.

O país está amarrado à corrupção?
Sempre ouvi falar em corrupção, mas nos últimos anos as coisas têm vindo à tona. Tenho a certeza que há corrupção, embora haja quem defenda que a corrupção só conta a partir de determinado valor. Para mim, corrupção é a partir de meio euro. Felizmente, nunca precisei corromper ninguém e talvez por isso sou algo mal visto nos meandros. Dizem sempre que sou uma pessoa difícil, mas talvez seja assim porque tenho dificuldade em perceber a forma como algumas autarquias interpretam a lei. Sou mal visto também porque reclamo e escrevo sobre as situações com que me deparo, fazendo valer os meus direitos. Talvez por isso seja considerado uma pessoa difícil.

Mas entende que na vida tudo é comercializável?
Infelizmente, creio que sim. Há gente que se vende por um prato de lentilhas. Quando era criança dizia-se que havia pessoas que se deixavam vender por tuta e meia. Hoje em dia é só por tuta, já nem é preciso o meia. O dinheiro dá-me uma certa segurança, mas não é o dinheiro que define uma pessoa.

Como gostaria de ser relembrado?
Nunca tinha pensado nisso. Por aconselhamento médico devia parar, mas não sou capaz. Vivo o dia de hoje e não estou preocupado com o que se pensa de mim.

Empresário com raízes familiares em Alfeizerão entrou no mundo dos cavalos por causa dos netos | Joaquim Paulo