“A Insustentável Leveza do Ser” designa a exposição coordenada pela artista Conceição Cabral e que está patente numa unidade fabril do Valado
É num espaço amplo da fábrica de fornos de cerâmica, Barracha, no lugar do Canteirão, no Valado dos Frades, que se encontra a exposição “A Insustentável Leveza do Ser”, coordenada pela artista Conceição Cabral que tem o seu ateliê de trabalho nesta unidade fabril.
O título da mostra, explicou a autora, refere-se “à fragilidade de todo o ser humano e que foi posta à prova durante o confinamento”. Esta artista – que trabalha com igual mestria o vidro e a cerâmica – tem várias obras nesta exposição que surpreende sobretudo pela escala das suas obras. São autênticos pedaços de jardim, onde se imitam várias formas da natureza, feitas em vidro, e que encantam o visitante. Há papoilas e nenúfares de grande escala, algumas apenas decorativas, outras utilitárias, como grandes candeeiros que tiram partido da translucidez do vidro. Surpreendentes são também gigantescas bolas cerâmicas que são bancos de jardim e que atraem pelas cores vibrantes.
Conceição Cabral tirou várias formações no Cencal, teve o seu ateliê em Tornada e tem várias intervenções nos prédios de Agostinho Pereira. No ano passado, a artista apresentou peças numa coletiva que teve lugar no Museu Rainha Sofia, em Madrid.
“É preciso valorizar a cerâmica artística e o vidro e a fazê-los entrar nas galerias”, disse a artista que foi viver para o Valado dos Frades há 11 anos. E que não quis expor sozinha em “A Insustentável Leveza do Ser” e, como tal, convidou mais alguns artistas que aceitaram o desafio de expor neste grande espaço. Um deles é Nelson Figueiredo, artista da Marinha Grande, que trabalha escultura em vidro de grande escala. Este autor formou-se em cerâmica criativa no Cencal e ,em seguida, tirou várias formações em vidro no Crisform na Marinha Grande (que atualmente pertence ao Cencal). Possui o seu próprio estúdio de vidro soprado manual onde cria as suas esculturas que também surpreendem pela escala.
Marca também presença na mostra a ceramista de Alcobaça, Liliana Sousa que tem uma grande peça feita com formas orgânicas.
Formada também no Cencal, esta autora foi a dinamizadora do Atelier Oficina de Artes João dos Santos, no centro de Alcobaça, e atualmente dedica-se à sua produção de cerâmica de autor.
José Vítor Carvalho, de Azeitão, que aproveita materiais recicláveis para criar os mais variados tipos de peça desde modelos femininos até sarcófagos.
Este autor,multifacetado, viveu em Londres e além da cerâmica e também trabalhou em projetos que ligam a pintura à moda.
Maria José de Sousa está a participar com sete peças em cerâmica da série “Na cabeça de uma mulher” e que se dedica ao universo feminino. Presentes estão também obras de Palmira Moreira, de nome artístico Alexina, que se dedica à cerâmica e também à escultura em vidro.
A mostra “Insustentável Leveza do Ser” vai ficar patente na Fábrica Barracha até ao final de dezembro. ■
A mostra é composta por peças de grande escala feitas em cerâmica e também em vidro. Há peças decorativas e outras que são também utilitárias
Algum do espaço da unidade industrial foi transformada em galeria
Criação de Nelson Figueiredo, artista do vidro, da Marinha Grande
Peça de Maria José de Sousa, autora de Alcácer do Sal que passou pelo Cencal e que já expôs em coletivas nas Caldas e em Óbidos
A Fábrica das Cavacas das Caldas está a construir uma nova unidade fabril na zona industrial do Casal de Santa Cecília, perto da Matoeira (Salir de Matos), num investimento de um milhão de euros que a vai fundir com a Confeitaria Monteverde. As empresas que funcionam no Imaginário e em Turquel e estão registadas em nome da Eduardo Loureiro Unipessoal, Lda. têm visto a sua facturação conjunta crescer na ordem dos 20% nos últimos dois anos e nas novas instalações vão poder aumentar a capacidade de produção para apostar na exportação. As cavacas e os beijinhos das Caldas e as tradicionais bolachas de baunilha são os produtos mais icónicos destas empresas que marcam presença nas grandes superfícies comerciais com uma vasta gama de produtos de bolos secos tradicionais.
Este é o aspecto da nova Fabrica das Cavacas das Caldas, que está a ser construída na zona industrial do Casal de Santa Cecília |DR
A nova unidade fabril da Eduardo Loureiro Unipessoal, Lda. vai juntar as duas empresas do grupo, a Fábrica das Cavacas das Caldas (que produz as cavacas, os beijinhos e uma vasta gama de bolachas, bolos e biscoitos secos) e a Confeitaria Monteverde (dedicada à produção de waffers tradicionais, as chamadas bolachas de baunilha).
Trata-se de um pavilhão com 2 mil metros quadrados de área coberta onde se passará a produzir todos os produtos que actualmente são feitos nas instalações da Cruz Armada (perto do Imaginário) e em Turquel. “Vamos poder criar sinergias entre as duas equipas e isso vai permitir à administração estar mais próxima das duas produções e, principalmente, modernizar muito e aumentar a capacidade de produção”, disse à Gazeta das Caldas o diretor comercial e de marketing, Bruno Pinelas.
A nova fábrica representa um investimento de um milhão de euros, que pelo menos nesta fase não terá apoios comunitários. A empresa candidatou-se ao programa Portugal 2020, não obteve ainda aprovação do projecto, mas decidiu avançar de imediato dada a necessidade de aumentar a produção, uma vez que a capacidade actual está esgotada.
A Fábrica das Cavacas das Caldas e a Confeitaria Monteverde em conjunto têm tido um comportamento muito positivo nos últimos anos, após a entrada nos canais da grande distribuição. Os seus produtos estão em quase todos os grandes super e hipermercados nacionais, com as suas marcas próprias e em marcas brancas. Em 2016 o volume de negócios atingiu os 1,25 milhões de euros e o ritmo de crescimento mantém-se estável na ordem dos 20% ao ano nos últimos dois exercícios fiscais.
Além do crescimento no mercado interno, a Eduardo Loureiro Unipessoal, Lda. iniciou a aposta na exportação há quatro anos, através do chamado mercado da saudade (países onde há emigrantes portugueses). Em 2016 estas vendas representaram 7% do volume de negócios, mas com um ritmo de crescimento acentuado desde 2014. As exportações sobem para 20% da facturação incluindo as indirectas, ou seja, as vendas a intermediários nacionais que têm como destino a exportação. Os principais destinos destes produtos são Canadá, Estados Unidos da América, França, Suíça, Inglaterra e Angola.
É principalmente para continuar a crescer nas vendas para o estrangeiro que a empresa precisa de aumentar e melhorar a eficiência dos processos de produção. “O nosso produto é muito específico e torna-se difícil competir com o preço de outros mercados, como Itália e Espanha, que têm processos mecanizados, e por isso precisamos de ter preço e capacidade de resposta, que é o que a nova unidade vai trazer”, sustenta Bruno Pinelas. O objectivo é continuar a ter bolos tradicionais, com uma componente artesanal forte, defendendo a qualidade que permitiu implementar as marcas, mas mecanizar todos os processos possíveis para baixar o preço final e aumentar o ritmo de produção. “Temos ido à procura de mais mercados, investimos na presença em feiras nacionais e estrangeiras e isso é que tem feito aumentar as vendas”, acrescenta.
A nova fábrica deverá iniciar a actividade em Setembro ou Outubro deste ano com os cerca de 35 trabalhadores que o grupo tem actualmente. No entanto, é de prever que este número aumente caso a procura assim o exija.
As novas instalações vão incluir uma loja de fábrica para venda directa ao público.
UMA HISTÓRIA COM 50 ANOS
Eduardo Loureiro começou a produzir cavacas das Caldas em 1982 e transformou o negócio ao alargar a gama de produtos |DR
A Eduardo Loureiro, Unipessoal Lda. existe desde 1982, mas a raiz da Fábrica das Cavacas das Caldas foi criada há 50 anos, em 1967. Foram os primeiros sogros de Eduardo Loureiro que iniciaram o negócio. Faziam as cavacas das Caldas, os beijinhos, suspiros e as tradicionais broas. “Comecei quando casei, em 1982. Trabalhava com os meus pais em agricultura, comércio, pecuária, mas quando casei mudei de vida e comecei a trabalhar com os meus sogros”, conta Eduardo Loureiro.
Foi com eles que aprendeu a arte de fazer as cavacas das Caldas. “É um processo que nem todos lá chegam, não é difícil de aprender, mas também não é fácil”, adverte. O segredo, esse, está nas mãos. “É o amassar, o saber dar a volta às massas”, sustenta.
Antes era tudo feito à mão, hoje as quantidades não o permitem, mas parte do processo, a principal, continua a ser artesanal. “As cavacas são tendidas à mão, vão para os fornos, no fim de cozidas levam a calda de açúcar”. Dito assim até parece fácil, mas não é. Eduardo Loureiro adianta que, ao contrário do que as pessoas pensam, as cavacas não são cozidas em formas, mas em tabuleiros, ganham aquela estrutura em forma de concha durante a cozedura. Se a amassadura não for feita correctamente, é um lote desperdiçado.
Depois de iniciar a actividade de doceiro, Eduardo Loureiro abraçou também a de empresário. Foi adicionando produtos à gama que existia e em 1995 iniciou a construção da fábrica das cavacas na Cruz Armada (Imaginário) que ainda está em funcionamento. “Hoje não se conseguia só com as cavacas e os beijinhos – ou crescíamos, ou tínhamos de parar”, refere o doceiro. “Quando tínhamos a pastelaria Java [na Rua da Liberdade] chegávamos a vender 100 quilos de cavacas e outros 100 quilos de beijinhos num dia, hoje vende-se 10 quilos”, acrescenta.
Com uma gama de produtos mais extensa, que inclui cerca de 40 referências sobretudo em bolachas, bolos e biscoitos secos tradicionais, o negócio que era praticamente a nível local, passou a regional, depois a nacional e hoje chega além fronteiras. “Estamos sempre a inovar para ter coisas novas e diferentes, sem nunca fugir à doçaria regional. Temos que o fazer porque o mercado exige bastante, há muita concorrência que não é só directa, há muitos tipos de bolos e quando se compra uns não se compra outros”, realça Eduardo Loureiro.
Foi nesse sentido de expansão do negócio que em 2011 o empresário adquiriu a Confeitaria Monteverde, de Turquel. Esta empresa estava no mesmo ramo, mas tinha como especialidade as bolachas de baunilha. Decidiram apostar em exclusivo nesse produto, com a Bolachas da Avó Elvira para a gama premium e o fabrico para outras marcas.
MAIS TURISMO PRECISA-SE
Eduardo Loureiro chegou a ter venda directa na Pastelaria Java. O empresário lembra que nessa altura se vendia muito mais cavacas localmente, porque também havia muito mais turismo, que era encaminhado para a zona do Hospital Termal. “Aquela zona enchia-se de autocarros, aquelas casas ali eram privilegiadas, mas tudo nos arredores até à Praça da Fruta funcionava bem”, recorda. “Hoje não há um local de referência para encaminhar o turismo e isso é importante para promover os doces regionais”, sublinha. A venda de cavacas é forte sobretudo ao fim-de-semana e durante o Verão.
O empresário diz que “é uma grande responsabilidade” defender um produto que está tão ligado à imagem das Caldas da Rainha.
Foi nesse sentido que aceitou em 2005 o desafio de fazer perto de 50 mil cavacas que constituíram uma pirâmide para o Guinness, promovida pela ACCCRO. Uma iniciativa que se revelou positiva pela divulgação que proporcionou.
No entanto, não são as cavacas o artigo mais vendido, mas sim os beijinhos. “Em algumas regiões pedem-nos que lhes chamemos cavaquinhas, mas não é a mesma coisa pois as massas são diferentes, apesar das pessoas pensarem que são iguais”, diz Bruno Pinelas. E são, por norma, estes os produtos incluídos não só pelo município, mas também por várias empresas e instituições do concelho em kits promocionais, uma atenção que é encarada como forma “de respeito e carinho pelo nosso produto”, conclui.
Estas naves fervilhavam de actividade. Centenas de pessoas, veículos, máquinas. A F. A. Caiado era uma das empresas mais importantes das Caldas e orgulho-me de aqui ter trabalhado 22 anos.
No rés-de-chão do edifício onde está hoje o call center alojavam-se dezenas de raparigas da região que aqui viviam e só iam a casa aos fins-de-semana. Depois fez-se um primeiro andar e instalaram aqui os serviços administrativos, onde trabalhei.
Fui nascer a Rio Maior porque a minha mãe tinha um problema de saúde grave e só confiava num médico que lá havia. Não serviu de nada. Nesse dia 13 de Março de 1940 eu vim ao mundo e ela morreu no parto. Semanas depois trouxeram-me para as Caldas, de onde é toda a minha família.
Fui criada pelas minhas três tias que me adoravam e que, a dado momento, também me disputavam chegando até a zangarem-se para ficarem comigo. Andei a saltar de casa em casa, aprendendo cedo a tirar partido do melhor de cada uma. Isso moldou a minha personalidade, aprendi a ser manipuladora como só as crianças sabem, e caprichosa, mas também orgulhosa e muito senhora do meu nariz.
Quando eu tinha 12 anos o meu pai voltou a casar e eu voltei a ter um lar, mas continuei a frequentar as casas das minhas tias. A família Caiado era uma elite nas Caldas da Rainha, proprietária da empresa F. A. Caiado que laborava no Beco das Flores e eu tive uma educação prendada como convinha a uma menina burguesa da década de 40.
Fiz a escola primária numa casa apalaçada que há ali junto à ponte do Bairro da Ponte que pertencia à família Camejo e que alugava umas salas para servirem de escala. Tive como professora a Maria Apolónia, rigorosa e severa, e depois puseram-me a estudar Formação Feminina, que era uma espécie de curso para sopeira encartada. Até tinha de estudar Bordados e Puericultura.
Eu não gostava daquilo. Por isso, com 17 anos fui estudar à noite para o Colégio Ramalho Ortigão a fim de fazer o curso geral dos liceus.
Quando disse à família que queria trabalhar, acharam natural que eu fosse para a empresa do meu tio, Francisco Almeida Caiado, onde também estavam empregados o meu pai e os meus primos. Mas eu entendi que deveria aprender a trabalhar noutro sítio para adquirir curriculum.
O meu tio não achou graça nenhuma à minha decisão, mas eu insisti e, por intermédio da minha tia, consegui uma entrevista com o senhor Alberto Pinto Ribeiro, que era o administrador da Secla. Propositadamente, deixou-me à espera dele numa sala de mostruário durante uma hora. Ao fim desse tempo eu decidi procurá-lo para lhe perguntar se se tinha esquecido de mim. Ele sorriu e deu-me a entender que eu tinha esperado o tempo certo. Perguntou-me o que fizera durante aquele tempo e eu respondi que me entretive a ver as peças expostas na sala e as respectivas referências e preços num catálogo que lá havia. Fiquei.
No mostruário eu era uma espécie de recepcionista-vendedora. Havia sobretudo muitos estrangeiros que iam lá no Verão e era eu que os recebia. Depois, pouco a pouco, passei a colaborar nas tarefas do escritório.
Ganhava 500 escudos por mês, o que, valendo hoje 2,50 euros, era uma pequena fortuna para a época. Havia chefes de família que ganhavam 1000 ou 1500 escudos (5 ou 7,50 euros, respectivamente) e que tinham de alimentar uma casa inteira. Eu, com 17 anos, dispunha de 500 escudos só para gastar para mim e podia dar-me ao luxo de comprar coisas para o meu enxoval que hoje, se calhar, não seria assim tão fácil.
A Secla tinha na altura entre 300 a 400 empregados e vivia um período de expansão. Sentia-se que tinha um impacto importante na vida da cidade e eu gostava de fazer parte daquilo. Trabalhei lá até aos 31 anos e saí porque quis – bati com a porta. A administração já não era a mesma, eu tinha pedido para mudar de serviço, houve lá um desaguisado e eu, que sou muito orgulhosa, pus-me a andar.
Eram onze da manhã. À uma da tarde já tinha um novo emprego!
Eu vinha a subir a rua General Queirós e passa de carro a minha prima Ana Maria, mulher do meu primo Jorge Caiado, que estranhou ver-me ali a meio da manhã. Contei-lhe o que se passou, ela fez um telefonema e no dia seguinte fui secretariar o marido para a F. A. Caiado. Estávamos em 1971 e finalmente eu entrava para a empresa da família.
UMA EMPRESA INOVADORA NAS CALDAS
Os escritórios em 1993. Da esquerda para a direita Helena Silva , Ana Rolim, Anabela Henriques, Rosário Ladeira, Teresa Jacinto e na fila atrás Rosário Mota | DR
A firma tinha sido criada em 1929, constituída pelos meus tios Francisco de Almeida Caiado e Casimira Ladeira Caiado, mais conhecida por Mimi. Daí a marca Frami (Francisco e Mimi), que daria o nome aos produtos da empresa.
Iniciou-se como uma unidade de torrefação de café, mas em pouco tempo passou a ter também uma fábrica de bolos, tendo alargado a sua actividade ao comércio por grosso de mercearias e à exploração de uma pastelaria na Praça da Fruta.
O fabrico de bolos implicava a compra de fruta confeitada e é a partir daí que germina no meu tio e nos filhos a ideia de fazer uma fábrica de transformação de produtos alimentares. Havia dinheiro e era preciso investir.
A fábrica que foi inaugurada no Lavradio (Estrada da Tornada) em Setembro de 1967, era uma maravilha para a época e viria a ter uma importância enorme nas Caldas da Rainha. Ancorada na produção de concentrado de tomate, operava também com outros produtores alimentares. Em 1971, quando lá entrei, dava emprego regular a 250 pessoas, mas durante a campanha do tomate chegava às 400. Durante esses meses a fábrica gastava mais água por dia do que a cidade inteira.
A F. A. Caiado tinha terras e plantações de tomates. E alugava ainda mais terras para as quais constituía grupos de seareiros a quem fornecia os materiais agrícolas, os adubos e o apoio técnico para produzirem para a fábrica.
Nos meses de Verão chegavam a dar entrada mais de 70 mil toneladas de tomate e para a exportação as vendas de concentrado de tomate chegavam às 11 mil toneladas anuais, sobretudo para o Japão, Alemanha e Inglaterra. Aquilo eram divisas preciosas que entravam em Portugal, numa altura em que o escudo era baixo face às moedas fortes do estrangeiro.
Para rentabilizar as máquinas existentes, faziam-se pequenas transformações para que estas pudessem também receber e transformar ervilhas, peras e pêssegos. Dali saíam latas de ervilhas e frutas em calda. Depois expandiu-se ainda mais a produção a todo o tipo de frutas e pratos confeccionados.
Uma das encomendas mais importantes para a F. A. Caiado foi a produção de rações de combate para a tropa portuguesa que na altura combatia nas antigas colónias. Os nossos soldados na Guiné, em Angola e em Moçambique comiam no mato, durante as suas missões, os produtos que nós produzíamos nas Caldas da Rainha.
É nesta época de expansão que eu entro na firma em 1971. Na altura o senhor Jorge Caiado estava a criar uma coisa na qual me deu imenso gozo participar – o serviço de aprovisionamento. Tratava-se de centralizar num só serviço a totalidade das compras da empresa, desde as matérias primas ao vasilhame, embalagens, peças, máquinas, ferramentas e material de escritório. Julgo que até ao nível das novas modalidades de gestão a F. A. Caiado era uma empresa inovadora.
O 25 DE ABRIL, O PREC E OS SANEAMENTOS
E veio o 25 de Abril. Foram feitos muitos disparates, tanto da parte dos trabalhadores como da administração. Mas o que é certo é que em Março de 1975 eu fui saneada. É, que para usar a linguagem dos tempos, eu era uma lacaia do Capitalismo! No mês seguinte é toda a administração que é saneada, a fábrica é ocupada e há-de ficar intervencionada, sob tutela do Estado até 1977. Atenção: vivia-se um outro tempo: o PREC (Processo Revolucionário em Curso). Os mais novos hoje terão dificuldade em compreender aquilo.
Durante os dois anos em que estive fora tomei conta de crianças, fazia bolos para fora (sempre gostei de cozinhar) e… meti-me na política! Se tivessem ficado quietos e não me tivessem saneado, nunca me ocorreria meter-me na politica e não lhes tinha dado que fazer. Assim tiveram que me aturar.
Quem? A esquerda. Inscrevi-me no CDS, fui uma militante activa e cheguei a secretária da concelhia. Nunca fui presidente da concelhia. É que eu só sei fazer as coisas bem feitas porque sou vaidosa e gosto de brilhar naquilo que sou boa. Por isso, embora pudesse ter sido presidente do partido aqui nas Caldas, eu nunca aceitei. Fui apenas membro da Assembleia de Freguesia das Caldas da Rainha quando o Eng. Paiva e Sousa ganhou a Câmara ao PSD, candidatando-se pelo CDS.
Em 1977, já com os ânimos políticos mais serenados no país, regressei à F. A. Caiado. Mas dos meus dois primos (Rogério e Jorge Caiado) só o primeiro reassumiu a administração da empresa . O Jorge iniciara-se entretanto numa carreira empresarial de sucesso que ainda hoje perdura.
Aos 37 anos, voltei a ser secretária, desta vez do Eng. Nunes Bandeira. Nos anos 80 esta era uma actividade de muita responsabilidade. As secretárias tinham uma visão global da empresa, conheciam muitos segredos e isso implicava uma postura ética e moral elevada, a par de um desempenho discreto e eficiente do seu trabalho. Faziam a filtragem do correio e dos telefonemas, marcavam reuniões, ajudavam a gerir a agenda do chefe, assistiam a reuniões e faziam actas. Também dactilografavam e expediam o correio. E no meu caso até tinha como função ler o Diário de Notícias e a Gazeta das Caldas para ver que tipo de notícias e anúncios poderiam interessar à empresa.
Em 1977 o parque de máquinas da Frami (como era conhecida a F. A. Caiado) estava muito danificado e as dívidas eram mais do que muitas. Sucederam-se vários contratos de viabilização da empresa, mas todos iam ficando desactualizados. Naquele tempo de inflação elevada as taxas de juro eram de 20% e de 30%.
Mas aos soluços lá se atravessou a década de 80, que acabaria por culminar com um momento de grande pujança. O último.
Nessa altura grassava a guerra civil em Angola e a F. A. Caiado torna-se fornecedora de rações de combate para o exército governamental (MPLA). Foram tempos loucos em que a fábrica trabalhava 24 horas por dia e se andou por aí a recrutar pessoal para dar satisfação às encomendas. Até fomos às escolas pedir aos jovens para vir para cá trabalhar durante as férias. A dado momento até o pessoal dos escritórios ia trabalhar no embalamento para dar vazão ao serviço.
Depois disto foi a decadência. O Dr. Rogério Caiado tinha feito entretanto uma parceria com o grupo Mendes Godinho, que pertencia à família Queirós e Melo, porque estava necessitado de capital fresco. Mas aquilo foi um mau casamento. As receitas de Angola entraram naquele grupo e não vieram para as Caldas. Em 1995, vendo que isto não tinha salvação e em ruptura com um novo administrador, eu bati com a porta. Dois anos depois a F. A. Caiado fechava. A empresa durara 48 anos. E eu trabalhei nela durante 22.
Por esta altura eu tinha 55 anos e senti-me com forças para mudar de actividade. Trabalhei nos Fonsecas, onde fazia a parte da documentação automóvel, e depois fui para o escritório da advogada Luísa Pimenta, onde ainda hoje me mantenho em part-time.
Mas estou reformada desde 2000 porque a absurda legislação da época quase me obrigou a isso a fim de aproveitar os descontos dos melhores anos de salário. Hoje isso já mudou e o que conta é a carreira contributiva toda.
Aliás, uma vez, numa reunião do CDS com o Dr. Bagão Félix, quando ele era ministro da Segurança Social e do Trabalho do governo de Durão Barroso, cheguei a ralhar com ele por causa desta lei. Ele não sabia de nada.
Hoje ainda mantenho actividade no partido. Faço parte do Conselho Nacional e não sou dos que acham que há uma questão geracional no CDS. Penso que tivemos dois grandes líderes: o Dr. Adelino Amaro da Costa e o Dr. Paulo Portas. Mas confio muito na Dra. Assunção Cristas. Já aqui nas Caldas deposito grandes esperanças no Arq. Rui Gonçalves. Penso, de resto, que o problema do CDS neste concelho foi ter chegado depois do PSD que, por ter sido o primeiro, foi buscar as melhores pessoas em todas as freguesias.
A política é uma forma de também me manter activa, já que os meus anos de oiro da F. A. Caiado não regressam mais. Quando passo aqui sinto uma certa nostalgia, um sentimento de perda. Não fui só eu que perdi com o fecho disto. Foi a cidade que também perdeu.