Somos uma sociedade de afetos ou (des)afetos?

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O afeto, do latim affectus, corresponde (Ferreira, 1999) a “sentimento de amizade”, “afeiçoado a”, “carinho”, “afabilidade”. Quando se pensa em “afeição”, vêm-nos à mente imagens relacionadas com cuidado, aceitação, acolhimento, afago.

Os valores e as regras que permitem o equilíbrio da pessoa na sociedade são relevantes para a qualidade de vida, sendo a sua negação ou violação elementos perturbadores à saúde, nomeadamente à saúde mental, como é afirmado pela Organização Mundial da Saúde.
O respeitar, o cuidar de si e dos outros são critérios geradores de bem-estar e de satisfação. O cuidar adequadamente é de extrema importância tanto do ponto de vista individual como do ponto de vista social.
O padrão emocional do ser humano é formado nos primeiros anos de vida. Se os pais fornecerem um modelo pouco consistente durante a infância, será difícil modificá-lo mais tarde. Por vezes os pais desconhecem as consequências para a criança de não se atribuir às emoções uma importância significativa.
O campo afetivo tem uma profunda influência sobre o desenvolvimento intelectual podendo acelerar ou diminuir o ritmo desse desenvolvimento sendo, igualmente, o princípio norteador da auto-estima.
Os pais funcionam como “espelhos” que devolvem determinadas imagens à criança. Quando se demonstra afetividade por alguém, essa pessoa torna-se o nosso espelho e nós tornamo-nos o dela, desenvolvendo o vínculo do amor.
É nesta interação afetiva que desenvolvemos os nossos sentimentos positiva ou negativamente e construímos a nossa auto-imagem.
Deixar, sistematicamente, de dar um abraço, recusar beijos, evitar um carinho, é como deixar de alimentar a criança e pode deixar marcas irreversíveis.
Uma criança privada de afeto fica sujeita a ter de enfrentar situações de desconforto para o qual não está ainda preparada, originando alterações graves no seu desenvolvimento.
Uma das funções da família é a de socializar e estruturar as crianças como seres humanos. Vários têm sido os estudos que apontam para o facto das chamadas “crianças problema”, serem oriundos de famílias que, independentemente do seu nível socioeconómico, não lhes proporcionam o afeto suficiente. É fundamental a família estabelecer vínculos afetivos unindo-se tanto nos momentos positivos, como nas frustrações.
A família é o espaço onde e no qual experimenta tristezas, desencontros, brigas, ciúmes, medos e ódios, mas também é no seu seio que a criança aprende a linguagem mais complexa da vida: a linguagem da afetividade.
A “tarefa” de cuidar, adequadamente, um ser em formação não é uma tarefa fácil exigindo dos pais e educadores, capacidade para lidar com os conflitos gerados pelos impulsos imediatos das crianças e bem como às suas necessidades biopsíquicosociais.
Uma criança com um auto – conceito positivo é mais ativa; tem facilidade em fazer amigos, tem senso de humor, participa em discussões e em projetos, lida melhor com o erro, é mais feliz, confiante, alegre.
Atualmente a instituição “Família”, tem outras características, desde famílias monoparentais, vivências difíceis, instabilidade social, emocional e financeira, provocam alterações significativas na forma como se educa, como se dá afeto.
Sem dúvida que o mundo mudou. Hoje vive-se a lei do medo, da insegurança, do domínio sobre o outro, da tecnologia e onde… param os afetos? As pessoas andam demasiado ocupadas com o trabalho, a vida social.
Devido à nova ordem mundial, em que o trabalho ocupa muito tempo do dia, é exigido muito, de tal forma que quando chegam a casa, os pais sentem-se esgotados. Não há tempo para ninguém, nem para eles mesmos.
Durante a infância, ocupam-se as crianças com demasiadas atividades, entre o desporto, a música, a dança, etc. Por outro lado, a tecnologia ocupa na vida do ser humano um lugar cada vez mais importante.
Hoje comunica-se através do telemóvel, do computador, das redes sociais. Não há toque, não há contacto olhos nos olhos, e no meio de tudo isto…perdem-se os afetos e a verdadeira noção de amizade, amor e conhecimento do outro.
Para além da família, a sociedade tem uma responsabilidade direta na educação, formação e desenvolvimento da criança dado que é em ambas, através dos mitos, ritos e regras sociais que adquirimos o sentido da vida. A noção de pertença e, saber que se pertence a alguém e a um lugar, proporciona à pessoa um referencial de valor significativo.
Todas as crianças necessitam de consolo, de braços que abracem, de ouvir histórias aconchegadas num colo, de receber carícias, de um tom de voz agradável e suave, de sorrisos sinceros.
Precisam que sejam justos para com ela, que não a deixem fazer tudo aquilo que quer, que lhe digam sim mas igualmente não, porque os limites devem ser entendidos desde cedo.
Necessita que a entendam e a incentivem a entender os outros, que a ouçam e que possa ouvir os outros, que… lhe digam muitos vezes que a amam e que é importante para os seus e desta forma cresça feliz!

Patricia Oliveira
Assistente Social: Município de Óbidos
Mestre em Serviço Social, com especialização em Bullying
Especializada em: Aconselhamento Parental e Familiar e em Crianças e Jovens em Risco pelo ISPA