Podemos considerar Júlio César Machado, como já sendo da casa. São tantas as informações que nos reporta que não resistimos à tentação de manusear outro livro da sua autoria; desta vez pegamos no título «Fóra da Terra», escrito em parceria com Pinheira Chagas, e editado pela Livraria Internacional de Ernesto Chardron, do Porto, no ano de 1878.
Neste livro os autores descrevem as visitas feitas a Caldas da Rainha, Festas da Nazaré, Leiria e Marinha Grande, Cintra, Bussaco, Paço d’Arcos e Espinho. Logo o primeiro capítulo é dedicado às Caldas da Rainha e podemos regalar-nos com a descrição da vida, à época, que uma vila termal proporciona a quem a procura.
[…] “As águas terapêuticas d’aqui, como as águas miraculosas da Sallete ou de Lourdes, tornaram-se um elemento de riqueza e de prosperidade. A graciosa vila está sendo ponto obrigado das romarias elegantes do verão.
Ah! Se estas localidades servissem unicamente para o fim a que se destinam, que aborrecido aspecto teriam! Não haveria nas Caldas senão coxos arrastando-se penosamente, e uma turba de gente pálida tomando melancolicamente as águas sulfúreas. Assim pelo contrário o aspeto é risonho e alegre.
Desperta um banhista pela manhã, atravessa a praça onde se acumulam ao domingo, inúmeros camponeses, que trazem a ótima fruta dos coutos de Alcobaça, e que, encostados aos seus longos varapaus, conversam uns com os outros n’aquele tom de voz arrastado e lento, peculiar das populações do sul do Mondego. Em barracas armadas de improviso vendem-se lenços vistosos, que cativam o cativam o gosto ingénuo das raparigas d’estes sítios.
Elas, com os seus pequenos chapéus desabados postos sobre os lenços verdelhos flutuantes ao vento, e discutem acaloradamente o preço com os vendedores. Por toda a parte de ouve falar espanhol. Desabou nas Caldas da Rainha um enxame de vizinhos nossos; Badajoz, Madrid e Sevilha sobre tudo transbordaram para estes sítios.
Descendo-se por uma rua mal calçada, vai-se ter ao excelente estabelecimento de banhos, edifício elegante e simples, construído pelo hábil arquiteto Manuel da Maia, segundo diz o snr. Pinho Leal no seu noticiosíssimo «Portugal antigo e moderno». Uns tomam as águas, onde borbulha a água azulada da nascente sulfúrea, ou nas tinas de mármore dos quadros particulares. Observa-se em toda a parte uma ordem e um asseio notáveis, graças à excelente direção do atual administrador, o snr. Rezende, cavalheiro do mais fino trato, inteligente, ativíssimo, a quem se devem de grande parte, segundo todos confessam, os melhoramentos que fazem com que os estrangeiros possam comparar, sem desdouro, o estabelecimento das Caldas da Rainha com os estabelecimentos de banhos termais d’outros países mais opulentos que o nosso.

Almoça-se, e depois é de rigor um passeio à Copa, que fica defronte do hospital.”

Fecho o livro, pois vou acompanhar os turistas no seu passeio pela Copa, para fazer a digestão de um bom almoço saboreado em boa companhia.