José Matos trocou Oeste pelo Oriente e ensina cerâmica e design em Macau

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José Matos trabalha na Casa de Portugal, leccionando e participando nas suas iniciativas | D.R.

Trabalhou e viveu no Oeste mais de duas décadas, ensinando design e cerâmica durante 25 anos no Cencal. Em 2020, partiu para Macau e aguarda que a pandemia o deixe voltar ao Oriente e às aulas

No início do ano passado, o designer e ceramista José Matos viajou 13000kms para ir trabalhar para Macau, onde trabalha, com a companheira, Aline Mendes, na Casa de Portugal: ele como professor de cerâmica e ela em design de comunicação.
“Fomos muito bem recebidos e encheu-me o coração confirmar que o trabalho que me esperava preenchia as minhas expetativas”, explica à Gazeta.
Após uma semana de transição com a ajuda do ceramista Paulo Reis, José Matos tomou as rédeas da escola e implementou os primeiros cursos que “tiveram uma ótima adesão e sucesso junto dos alunos e comunidade”.
Porém, em meados de janeiro de 2020 começou “mesmo ali ao lado a pandemia”, disse o antigo formador do Cencal, que assistiu a todo o desencadear de um imediato “estado de emergência”. “De repente, estávamos confinados em casa, com tudo fechado (excluindo serviços essenciais)”, frisa.
Após três semanas de confinamento voluntário e exemplar, a vida em Macau normalizou. “O único senão foi o fecho de entradas e limitações de saída do território pelo que fiquei um ano a trabalhar normalmente mas confinado num território que tem metade da área das Caldas”, nota.
A adaptação a Macau “é tranquila, pois basta falar Inglês para se ter uma vida normal”. A comunidade portuguesa não é grande, mas está presente, o que facilita a adaptação. A comunidade macaense é multicultural, pelo que conheceu gente de várias nacionalidades. A gastronomia “é excelente” e a etiqueta social “diferente, assim como as crenças e hábitos”.
O que menos gostou foi a falta de espaço “que é notória, desde as casas que são pequenas ao circular em ruas apinhadas de gente, muito trânsito”, contou o designer, acrescentando que o professor no Oriente “é muito respeitado”.
José Matos, que já participou numa exposição, está a preparar uma mostra individual. Também participa em feiras e eventos com as peças que cria no estúdio da escola fora do horário de trabalho.
Espera ansiosamente pela abertura para a China e Hong Kong onde “existem inúmeros ceramistas” que quer “conhecer e aprender com eles”, disse o designer, que se formou no IADE e seguiu para o Cencal, onde tirou o curso de Cerâmica para Designers, que lamenta que tenha sido descontinuado.
Este curso permitiu-lhe trabalhar vários meses numa fábrica de cerâmica, onde laborou durante dois anos com grande intensidade. Passou, ainda, por empresas de trading e de agenciamento de clientes para cerâmica, sempre como designer.

Valorizar a formação
Há 25 anos tornou-se formador do Cencal, onde lecionou milhares de horas de formação em módulos de cursos de cerâmica criativa, pintura cerâmica, ecodesign, modelação, desenvolvimento de criatividade, criação e exposição de produtos.
Na sua opinião, o ensino de cerâmica nas Caldas “é muito valioso, sempre foi e atualmente continua a ser”. E considera que “é uma pena” que a qualidade não dependa só das instituições mas também do poder central e das políticas de ensino.
“Se nos últimos 20 anos todos remassem para o mesmo lado poderíamos estar muito melhor no ensino de cerâmica nas Caldas e em Portugal”, acrescentou o designer. Mesmo assim, o saldo “é muito positivo” pois “basta ver o sangue novo entre ceramistas que passaram pela ESAD e pelo Cencal”.
O formador José Matos concorda que o título de Cidade Criativa pode ser útil para projetar a cidade e seus autores, dependendo como for gerido pelas entidades competentes.
“Se for um título só para colocar em cima da lareira de pouco serve. Tem de ser usado como abertura a novos projetos e dinâmicas, aproveitando verbas nacionais e europeias para concretizar objetivos”, rematou o designer.
José Matos juntou-se em 2011 a Paulo Óscar num ateliê na zona industrial a que chamaram BRAQ, onde realizam projetos e produções de cerâmica para autores como Miguel Rios, Miguel Vieira Baptista ou para a Galeria Ratton. Também desenvolvem as peças, respondem a encomendas para a restauração e apoiam estudantes na realização de projetos. ■

 

as suas aulas, o designer ensina diversas vertentes da cerâmica | D.R.

 

Uma das peças que já expôs em Macau. Assim que a pandemia permitir, quer regressar a terras orientais | D.R.