“Planeta Psicose” é a nova BD de Ricardo Santo

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O autor, que se dedica à BD desde “que é gente”, já tem nova proposta para editar

Designer industrial, formado na ESAD, acaba de lançar novo livro de BD, no qual reflete sobre a pandemia, em tom de paródia

Ricardo Santo é designer industrial e terminou o curso na ESAD em 2000. Hoje vive em Barcelona e trabalha na área de estudo, criando stands para feiras industriais e também está ligado ao retail design. É, ainda, autor de banda desenhada e acaba de lançar “Planeta Psicose”, coletânea curta de três histórias, editada pela Escorpião Azul, sobre “as teorias da conspiração e notícias falsas, que cada vez mais crescem como cogumelos nas redes sociais. Principalmente, depois de nos ter desabado esta pandemia em cima!”, explicou à Gazeta das Caldas.
O autor acrescenta que as histórias, em tom de paródia, também abordam “as repercussões políticas e sociais dessa crescente paranoia colectiva”.
Ricardo Santo mantém-se ligado às Caldas, pois a sua sogra é caldense e por cá também ficaram alguns amigos dos tempos da ESAD.
Conta que se dedica à BD desde “que é gente” e mesmo enquanto estudava na escola de artes caldense tinha tempo para se dedicar à nona arte em paralelo com os estudos.
“O ambiente era propício. Muitos de nós fazíamos fanzines”, referiu o autor, dando a conhecer que tudo começou com a edição de “O Desgraçadinho”, um “pasquim de sátira político-social, que nasceu no ambiente de contestação estudantil contra as políticas da direção do IPL da altura, que chegou a estar em vias de extinguir a ESAD ou em convertê-la numa escola de gestão de empresas”, recordou Ricardo Santo, que foi o responsável pelo cartoon político do semanário “Tribuna do Oeste” que teve uma existência curta naquela época.

“O mercado da banda desenhada em Portugal é pobre por manifesta falta de leitores”

Ricardo Santo

Crowdfunding para editar
Antes de “Planeta Psicose”, Ricardo Santo editou “Livro Sagrado”, no qual o autor pegou no imaginário dos contos de cariz fantástico e etnográfico do cancioneiro tradicional português e passou alguns para BD. O projeto teve vários “pára-arranca” enquanto o autor ia publicando algumas destas histórias em fanzines e blogs de amigos. “E isso despertou o interesse de uma editora”, contou, acrescentando que esta última não materializou o compromisso e “decidi que iria editá-lo, fosse como fosse”, contou, referindo que encetou, por isso, uma iniciativa de crowdfunding.
“Fiz uma campanha na plataforma PPL, que foi bem sucedida, e acabei por editar e distribuir o livro”, acrescentou Ricardo Santo. Nessa altura, era uma novidade alguém ligado à BD ter este tipo de iniciativa, no entanto nos últimos anos assiste-se a um número crescente de novos autores a recorrerem a este processo.
“A internet e as novas tecnologias vieram democratizar este processo”, salientou o autor, que já recebeu vários prémios de festivais como o da Amadora.
Na sua opinião, os prémios acabam por ser “um estímulo importante” para continuar a fazer BD. Os autores “sentem-se validados e percebem que fazem parte de uma comunidade de pessoas que comungam da mesma paixão pelos quadradinhos”, referiu Ricardo Santo, que já tem outro projeto de BD que espera poder editar ainda este ano. Tem previstas colaborações em histórias curtas, sendo que a última delas saiu no último número da revista CAIS.
De resto, diz que há que deixar correr o ano para ver onde chega “Planeta Psicose” nas vendas, na aceitação do público e da crítica, já que é uma edição recente editada há menos de um mês, “com as livrarias fechadas e com alguma incerteza sobre como vão ser as edições dos festivais de BD”.
O autor considera que a BD em Portugal conta com muitos novos autores “com formação sólida e tecnicamente muito bons”. Assiste-se ainda ao surgimento de novas editoras, apesar de não abarcarem todos os autores que vão surgindo.
“Há também cada vez mais autores portugueses a trabalhar para mercados estrangeiros, como o americano e o franco-belga ou então a recorrer à auto-edição”, disse o designer.
Ricardo Santo ainda considera que o mercado em Portugal “é pobre por manifesta falta de leitores”.
Uma opção para procurar inverter aquele sentido seria apostar mais no mercado infanto-juvenil pois, por exemplo, em França este último “representa a maior fatia dos leitores de banda desenhada”, rematou o autor. ■